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Ai de ti, Copacabana

Sessenta anos depois, a triste recordação das previsões de Rubem Braga


O carro do motorista que invadiu a praia de Copacabana e atropelou 18 pessoas. Foto Vanessa Ataliba/Brazil Photo Press
O carro do motorista que invadiu a praia de Copacabana e atropelou 18 pessoas. Foto Vanessa Ataliba/Brazil Photo Press

Ai de ti, Copacabana, que não é de hoje o anúncio diário de suas tragédias e eis que se faz agora a atualização em tempo real, online, de que chegou a vez de uma multidão ser atropelada enquanto julgava flanar felicidade no verão carioca. Ai de ti, Copacabana, que te é destino a maldição, as manchetes sensacionalistas sobre os teus desvarios, a alta velocidade de tuas pistas e as convulsões epiléticas de seus motoristas. Aquieta-te, baixa a bola. De princesinha não tens nada, de colar de pérolas iluminado à noite muito menos.

Rubem Braga cantava a pedra e, com uma voz que te abalaria as entranhas, te ameaçava com a tsunami moralista, e ela a toda hora estava vindo, tem vindo e nunca deixará de vingar. Não tens jeito. Até que se apague a luz do teu derradeiro inferninho, cantarás uma última canção atrás da outra última canção que há pouco cantaras

Já numa crônica de janeiro de 1958 publicada na revista Manchete o cronista maior de tuas mazelas verbalizou primeiro o que agora me ponho a simplesmente recordar. Rubem Braga, sempre afeito ao pio dos sabiás, acusou ter ouvido teu canto fúnebre e eternizou teu futuro em vitupérios de estilo num dos clássicos da literatura brasileira. O título da crônica era o que está posto desde o início desta, apenas um plágio e nada mais bem ao estilo da gatunagem barata deste bairro: “Ai de ti, Copacabana”.

Disse Rubem Braga, morador de Ipanema, que cingiram tua fronte, Copacabana, com uma coroa de mentiras, ó falsa nobre das ondas azuis, e que tu destes risadas ébrias, e que tu destes risadas vãs no seio da noite, e que o preço desta vida em pecado pela eternidade dos tempos tu pagarás.

Até quando Aída Curi, currada pela juventude transviada ao sair da escola de freiras, assombrará os meninos que cheiram cola na areia da praia, os únicos que conseguem vê-la caindo da cobertura num looping eterno, num efeito boomerang em meio aos fogos do réveillon?

Afastaste o oceano justiceiro da tua muralha de cimento, alargaste tuas pistas para bem longe da onda do juízo final, mas nada te salvará das trombetas da invasão inevitável. A todo dia tu ouves, e pela eternidade dos tempos continuará ouvindo, a música fúnebre que Sacha Rubin tocará do piano submarino, com a letra já proclamada na crônica bíblica de Rubem Braga: “Os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face”.

O carrinho do bebê morto na tragédia. Foto Vanessa Ataliba/Brazil Photo Press
O carrinho do bebê morto na tragédia. Foto Vanessa Ataliba/Brazil Photo Press

Ai de ti, Copacabana, pois depois dos peixes escuros ainda chegarão os polvos das ventosas azuis e depois os siris de cabeça vermelha e todos eles se juntarão aos camelôs, às bicicletas das drogarias, às bicicletas elétricas das madames, e esse cardume podre asfixiará as últimas gotas de oxigênio dos que insistem em caminhar sobre o inferno das tuas calçadas. Nada andará, nada mais nadará e se ainda há dúvida sobre o fim dos teus tempos, de que nada mais pedestrerá, eis que um antigo morador da Prado Júnior, de nome Chico Buarque, ele anuncia para o próximo fim de semana a chegada da caravana do Irajá, a caravana do Arará. Aos sobreviventes, esses invasores farão justiça com o tesão em êxtase dos facões e adagas que malocam em suas sungas estufadas.

Ai de ti, Copacabana, pois antes da igreja no alto da pedra do Forte já nas proximidades estavam as prostitutas do cabaré da Mère Louise no Posto 6. Mais quarteirões e décadas adiante viriam à tona as meninas da Help, depois as do Balcony e hoje, ultrapassando o Lido em direção ao Leme, elas serpenteiam sua oferta de transpecados na esquina do Mab’s, na Prado Jr. O sacrilégio te é da índole, Copacabana, estava escrito na areia dos jesuítas, na calcinha exocet da Katia Flavia e agora vai por baixo das malditas pedrinhas portuguesas em que os ímpios tropeçam na busca de uma felicidade atropelada ontem à noite. Estás perdida, velha senhora, e cega no meio das tuas iniquidades e da tua malícia.

Rubem Braga sabia do descalabro urbano que especulavas sobre teu metro quadrado, a angústia das tuas quitinetes e do que ia de heresia malsã no carnaval do Clube dos Cafajestes. O Vogue já tinha se incendiado desde agosto de 1955 e torrado o glamour do samba-canção – mas Rubem Braga sabia que teu destino podia ser ainda pior. Ele sabia do teu desprezo pelas diferenças sociais e trombeteava na grande crônica que no dia do ajuste de contas os gentios dos morros desceriam uivando sobre teus lençóis de três mil fios egípcios e invadiriam o palácio do Copacabana Palace, agora posto sob a nova direção de Yemanjá, polvos e demais arraias do ministério público marítimo.

Ai de ti, Copacabana, pois a todas essas maldições ainda sobrevive a fúria dos motoristas ensandecidos, a estupidez do estudante de medicina que matou a mendiga com golpes de luta marcial no Posto 2, as bundas esculpidas nas sereias de areia no Posto 5, as balas perdidas no Pavão-Pavãozinho e as histórias do fantasma de Almir Pernambuquinho, o craque do Vasco assassinado num arranca rabo no restaurante espanhol da Galeria Alaska. Uivos, dores e estupores. Rubem Braga cantava a pedra e, com uma voz que te abalaria as entranhas, te ameaçava com a tsunami moralista, e ela a toda hora estava vindo, tem vindo e nunca deixará de vingar. Não tens jeito. Até que se apague a luz do teu derradeiro inferninho, cantarás uma última canção atrás da outra última canção que há pouco cantaras.

Foi mais ou menos isso que Rubem Braga escreveu em janeiro de 1958, há exatos 60 anos, há 60 anos antes dos seus 18 atropelados à beira-mar – e ainda não será desta vez o desmentido.


Escrito por Joaquim Ferreira dos Santos

Joaquim Ferreira dos Santos

Jornalista e autor de vários livros, entre eles "Feliz 1958 - O ano que não devia acabar" e as biografias de Leila Diniz, Antonio Maria e Zózimo Barrozo do Amaral. Organizou a coletânea "As cem melhores crônicas brasileiras" e também publicou livros como cronista. Define-se principalmente como um repórter de Cidade. No #Colabora, Joaquim escreve sobre o que vai pelas calçadas e espaços públicos do Rio.

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2 Comentários

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  1. Gostei muito. Você relatando parece que estou lendo a Revista “O Cruzeiro”. ou lendo os textos de Stanislau Ponte Preta. ( se escreve
    assim?).

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