A seca extrema na Amazônia vem favorecendo a multiplicação do número de queimadas, com impacto na qualidade do ar em Manaus, onde a
poluição do ar já ultrapassou o limite máximo da escala de monitoramento em seis dias deste setembro. Na quarta-feira (23/09), mais uma vez, Manaus amanheceu coberta por fumaça: às 5h15, o bairro Distrito Industrial I, na Zona Sul da capital amazonense, chegou a registrar 587,9 µg/m³ de concentração de partículas no ar, valor de três vezes superior aos 160 µg/m³, referência máxima da escala utilizada para a classificação da qualidade do ar.
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Os níveis de poluição do ar muito acima da faixa máxima de referência da escala do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva) provocaram reunião de emergência de órgãos estaduais. A Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) relacionou a fumaça à concentração de queimadas na Região Metropolitana, enfatizando que está em vigor decreto proibindo o uso do fogo no Amazonas desde 9 de setembro, quando foi registrada a primeira “onda” de fumaça deste mês na capital.
O Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas informou que as altas temperaturas e a baixa umidade favorecem a ocorrência e a propagação dos incêndios – na terça (22/09), a temperatura chegou perto dos 39º C em Manaus. E um sistema de baixa pressão provocou a concentração de fumaça na capital. “As nossas análises e a nossa experiência apontam que quase que a totalidade desses incêndios tem origem humana”, afirmou o comandante do Corpo de Bombeiros, Orleilso Muniz, à Rede Amazônia.
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Veja o que já enviamosAlém da capital, cidades da Região Metropolitana de Manaus também registravam níveis elevados de poluição na manhã de quarta-feira. Em sete dos 13 municípios monitorados, os índices estavam acima de 125 µg/m³, faixa considerada péssima pelo Selva. Em Autazes, a concentração chegou a 576,6 µg/m³.
O Corpo de Bombeiros também informou que o número de incêndios aumentou de forma significativa em setembro. Segundo a corporação, houve aumento de mais de 300% no número de incêndios em setembro, na comparação com o mesmo mês do ano passado. No acumulado do ano, o crescimento informado é superior a 130%.
O Ministério Público do Amazonas, que monitora focos de incêndio por meio de dados de satélite, informou que, entre terça (22) e quarta-feira (23), os focos estavam concentrados principalmente no entorno de Manaus, no Baixo Amazonas e no estado do Pará; de acordo com os especialistas do MP, os ventos podem transportar a fumaça dessas áreas também para o Amazonas.
A seca extrema na Amazônia e fumaça sobre Manaus já são reflexos do El Niño particularmente forte, que está sendo previsto pelos climatologistas. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a influência do El Niño deve acentuar a seca nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país nesta primavera, que começou oficialmente na noite de terça-feira.
O El Niño tem mais de 90% de probabilidade de atingir a categoria de muito forte e 75% de chance de ser o evento mais forte registrado desde 1950, conforme as projeções do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (CPC/NOAA) dos EUA. “De modo geral, as temperaturas devem ficar elevadas, podendo ultrapassar a média para o período em praticamente todo o Brasil, variando de intensidade conforme a região”, disse Mozar de Araújo Salvador, meteorologista do Inmet, à Agência Brasil.


Fumaça, calor e El Niño
Desde o começo de setembro, Manaus registrou ar duas vezes mais poluído do que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde, segundo pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) que integram a RedeAr. A plataforma reúne dados de sensores de baixo custo instalados em diversos pontos da cidade. Segundo os pesquisadores, o material particulado fino emitido por queimadas está relacionado à fumaça que cobre a cidade desde o início de setembro.
Em setembro, sensores da RedeAr apontaram uma média acima de 30 µg/m³ e picos acima de 160 µg/m³, registrados no dia 23, mais de dez vezes acima do limite estabelecido. “A Região Metropolitana de Manaus registra, nos últimos dias, uma alta significativa no número de focos de calor. O avanço do fogo se estende por pontos estratégicos da região, com forte concentração ao longo do Rio Amazonas, incluindo as proximidades do Encontro das Águas, e ao longo do eixo da rodovia BR-319. A consequência direta desse cenário é a formação de volumosas colunas de fumaça”, explicou o engenheiro florestal Newton Monteiro, analista de pesquisa do IPAM.
Segundo o pesquisador, além das queimadas, a demora para que o material se espalhe para longe dos limites de Manaus também tem sido causado por efeitos do El Niño, que enfraquece os ventos da região. “Em condições normais, os ventos predominantes na região tendem a dispersar a fumaça das queimadas para oeste, em direção ao Peru. No entanto, o atual episódio de El Niño, em curso e em fortalecimento desde meados de 2026, tem alterado esse padrão de circulação atmosférica, favorecendo o transporte da fuligem diretamente para Manaus e para os municípios vizinhos, o que resulta na degradação da qualidade do ar em toda a zona metropolitana”, acrescentou Monteiro.
Apesar da redução de 26% na área queimada no Amazonas no período entre janeiro e agosto de 2026 em relação ao ano passado, municípios da Zona Metropolitana de Manaus registraram picos na área atingida pelo fogo em agosto. Em Manacapuru, município de 101 mil habitantes localizado a menos de 100 km de Manaus, as queimadas afetam 2 mil hectares de vegetação, 293% a mais do que o registrado entre janeiro e agosto de 2025. Em Iranduba, também a menos de 40 km da capital amazonense, o aumento foi de 212%, segundo dados do Monitor do Fogo da rede MapBiomas, da qual o IPAM faz parte.
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