Quando descobriu que o ator e comediante João Pimenta – famoso pela sua participação no canal de humor Porta dos Fundos – se apresentaria em Itabuna, no sul da Bahia, o produtor cultural Rick Trindade, hoje com 34 anos, lembrou da própria infância e do acesso limitado ao lazer.
Filho de carteiro e dona de casa, ele cresceu assistindo pela televisão aos grandes eventos culturais, imaginando quando viveria algo parecido. A primeira experiência só aconteceu na vida adulta, em um camarote no Carnaval de Salvador. Ali, Rick percebeu que esses espaços tinham perfil social bem definido; que não eram pensados para pessoas como ele.
Desse modo, Rick, ao saber da apresentação em sua cidade natal, entrou em contato com a produção para tentar levar gratuitamente ao espetáculo pessoas que, assim como ele no passado, nunca haviam conseguido acesso a esse tipo de entretenimento.
O que começou como uma iniciativa pontual acabou dando origem, em 2023, ao Perifa na Lista, que hoje já beneficiou mais de 3 mil pessoas em festivais, shows e outras programações culturais, principalmente na Bahia e em São Paulo. “Quando percebi que não se tratava apenas de mim, mas de quem nunca teve acesso a esses lugares, entendi que essa realidade podia ser transformada”, afirma Rick, formado em Comunicação Social, com especialização em rádio e TV, pela Universidade Estadual de Santa Cruz, com pós-graduação em gestão cultural.
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Veja o que já enviamosO Perifa na Lista nasceu no interior da Bahia e continua sendo organizado a partir de lá, onde Rick ainda mora. Além das movimentações culturais, o projeto também promove ações sociais, principalmente em Itabuna, arrecadando e doando brinquedos e alimentos para pessoas em situação de vulnerabilidade.
Com orgulho, Rick defende que iniciativas como essa também podem surgir e crescer em regiões historicamente invisibilizadas. Mas, ainda assim, destaca que a falta de apoio e patrocínio local segue sendo um desafio diário.
Ele já procurou empresários em Itabuna em busca de doações, mas muitas vezes não obteve resposta. Segundo o produtor, o desinteresse nem sempre está ligado à má vontade, mas à dificuldade de enxergar como a arte e a cultura podem transformar o próprio território. “Muitos só apoiam quando há retorno nas redes sociais. Em ações independentes, ainda sem grande alcance, o interesse em investir não aparece”, lamenta.


Conexão com São Paulo
À medida que o Perifa na Lista se expandiu, Rick passou a conquistar novas parcerias que ultrapassaram as divisas da Bahia e chegaram a São Paulo. A aproximação aconteceu por uma razão natural, explica o produtor já que, na capital paulista, estão concentradas algumas das maiores programações culturais do país.
Foi nesse contexto que moradores de periferias paulistanas passaram a acessar festivais e shows que antes pareciam distantes da sua realidade. O técnico em administração Wendell Eduardo, 22 anos, morador de Itaquera, e a cantora Dandara Souza, 24, moradora do Jardim Ângela, estão entre os beneficiados pela iniciativa na capital paulista.
Wendell conheceu o projeto ao participar de um show de Lenny Kravitz com participação de Liniker e conta que registrou todo o trajeto da quebrada até o festival por entender o simbolismo daquele momento. Para ele, a experiência trouxe “autoestima e a percepção de que também tem o direito de viver experiências antes vistas como inacessíveis”.
Dandara, que ganhou ingressos para o Nômade Festival e para o badalado The Town, dos mesmos organizadores do Rock in Rio, destaca que esses grandes festivais costumam ser frequentados por pessoas com maior poder aquisitivo. “Considero a presença de moradores das periferias nesses espaços um ato de inclusão e pertencimento”, explica a jovem cantora.
Apesar de muitos beneficiados serem de São Paulo, Rick também ressalta que o projeto é aberto para pessoas de todo o país. Além do ingresso, em alguns casos, o Perifa também consegue oferecer passagem, dependendo da região e de parcerias com empresas de transporte. A intenção é ampliar esse apoio futuramente com hospedagem e alimentação, incentivando a participação de interessados de outros estados.
Essa expansão, inclusive, já permitiu que participantes conhecessem pessoas de diferentes estados e realidades. É o caso de Natália Fonseca, 27, moradora de Campo Grande (MS), que participou de três festivais por meio do projeto e destaca como uma das experiências mais marcantes a troca de vivências proporcionada pelos encontros.


Articulação com eventos
As articulações do Perifa na Lista ocorrem de forma simples: quando surge uma nova atração, a equipe entra em contato com a produção, na maioria das vezes através de mensagens pelas redes sociais, apresenta o projeto e propõe incluir pessoas de diferentes territórios e realidades sociais.
A quantidade de ingressos varia conforme a disponibilidade de cada organização parceira. Após a confirmação, o coletivo divulga um formulário com perguntas sobre vivência periférica, interesse pelo artista ou pela programação e relação com a cultura. Em seguida, são selecionados os perfis que o Perifa na Lista considera que mais se alinham à proposta.
Como muitos desses eventos são voltados principalmente para o público jovem, a maioria dos selecionados costuma ter até 30 anos. Rick ressalta, no entanto, que não há limite de idade para participar.
Até o momento, o Perifa na Lista já conseguiu levar participantes a festivais conhecidos como The Town, Lollapalooza, ambos em São Paulo, e I Wanna Be Tour (várias cidades). Rick destaca que, para a maioria, trata-se da primeira oportunidade de frequentar eventos de grande repercussão e ocupar espaços que historicamente não foram pensados para eles.


Novos caminhos para Perifa na Lista
Em 2025, Rick anunciou que o Perifa na Lista faria uma pausa nas parcerias com grandes eventos para se reorganizar e planejar os próximos passos, após enfrentar desafios nas arrecadações, especialmente nas ações do Perifa Social.
Ele reforça que o engajamento do público é fundamental para a continuidade do projeto. Hoje, a mobilização ocorre principalmente pelas redes sociais e por um grupo no WhatsApp com quase mil integrantes. Muitos dos beneficiados pelas ações culturais acabam ajudando também nas campanhas sociais, fortalecendo a rede de apoio.
É o caso de Matheus Souza, 28, produtor audiovisual e morador do Campo Limpo, que passou a colaborar nas arrecadações sempre que possível. “O Perifa é uma iniciativa séria, construída por pessoas que se dedicam diariamente para fazer o projeto acontecer e que merece continuar transformando vidas”, destaca.
A boa notícia é que, menos de um ano depois, o Perifa já mostrou sinais de retomada, ainda que em ritmo mais cauteloso. A ação mais recente aconteceu na Páscoa de 2026, quando Rick e sua equipe organizaram uma campanha de doações de até um real e conseguiram beneficiar mais de mil crianças de quatro regiões de Itabuna.
Para a nova fase, eles também planejam se formalizar com a criação de um CNPJ, além de aumentar a equipe de voluntários e fortalecer a presença digital para alcançar pessoas em todo o país.
Para Rick, o Perifa na Lista já provou seu potencial. A pausa não representa um encerramento, mas uma etapa necessária para fortalecer a iniciativa e ampliar seu alcance. Afinal, se na infância ele precisou assistir de longe aos grandes eventos culturais pela televisão, hoje trabalha para que outras pessoas não precisem esperar tanto tempo para ocupar esses espaços e perceber que eles também lhes pertencem.
*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Karine Gomes, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.
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