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Francesca Raoelison (de camiseta branca) com estudantes em escola de Madagascar: educação emocional a partir dos jovens e das comunidades (Foto: Omena / Divulgação)
Madagascar: cuidado se aprende em comunidade
Francesca Raoelison fundou a Omena para levar educação emocional a milhares de famílias malgaxes
Madagascar entrou no mapa de muita gente através do filme de animação “Madagascar”, da DreamWorks, lançado em 2005. Ao retratar lêmures e paisagens exuberantes, o filme traduz, à sua maneira, um pouco do que o país é de fato: um verdadeiro tesouro de biodiversidade, onde mais de 90% das espécies que habitam a ilha não existem em nenhum outro lugar do planeta. Mas, naturalmente, Madagascar tem muito mais para revelar. O país abriga cerca de 18 grupos étnicos, cada um com seus próprios dialetos, tradições e histórias.
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Eu não conhecia muito sobre esse país além do mapa e das famosas plantações de baunilha. Também já tinha ouvido falar das belas árvores de baobá, gigantes que marcam a paisagem do oeste da ilha. Madagascar abriga seis das nove espécies de baobá existentes no mundo, todas endêmicas. Uma das vistas mais icônicas é a Avenida dos Baobás, perto de Morondava: cerca de vinte exemplares, com até 30 metros de altura e 800 anos de idade, alinhados ao longo de uma estrada de terra que, séculos atrás, foi uma floresta densa. Aos poucos, a área foi desmatada para dar lugar à agricultura, restando apenas as árvores, resistentes demais para arder ou cair.
Ao lado do amor e do carinho da família, também cresci vivenciando violência verbal, emocional e psicológica, mas na época ninguém sabia disso
Os malgaxes, como são chamados os habitantes de Madagascar, chamam o baobá de “reniala”, ou seja, “mãe da floresta”, e a tratam como algo sagrado: é comum deixar oferendas junto aos troncos mais antigos, pedindo bênçãos.
Para muita gente, conhecer esse país de perto é um sonho. E senti uma curiosidade indescritível ao conversar com Francesca Raoelison, fundadora da Omena, organização que hoje é referência em educação emocional no país.
Francesca me contou uma história que começa muito antes das paisagens, uma história costurada na trajetória das pessoas, em suas tradições e costumes locais: a história de uma casa cheia, na capital do país, Antananarivo, onde ela cresceu em um lar multigeracional, cercada por primos, avós, tios e tias, cerca de 18 membros da família dividindo o mesmo teto.
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Veja o que já enviamos“A gente realmente valorizava o senso de comunidade e família”, ela lembra. “As noites viravam sessão de cinema coletivo”. Os laços daquela infância, segundo ela, seguem intactos até hoje, mesmo com a família espalhada pelo mundo.
Esse senso de comunidade tem nome em malgaxe “fihavanana”: um princípio de solidariedade, ajuda mútua e parentesco que vai além do sangue; engloba amigos, vizinhos e, idealmente, qualquer pessoa que cruze simbolicamente nosso caminho. É um valor tão central que atravessa a língua em forma de provérbio. Um dos mais conhecidos resume bem a lógica da casa cheia de Francesca: “todos os que vivem sob o céu estão entrelaçados como uma só esteira”, numa referência à esteira tecida à mão com fibras vegetais, comum nos lares do país.
Francesca me contou um pouco sobre a história de Madagascar, fiquei encantada e também fui em busca de mais informações.
Foi quando percebi que a questão do abuso emocional não está só em Madagascar, não está só nas casas. Está nos ambientes de trabalho, nas famílias, está em todo lugar
Madagascar é a maior ilha da África, a quarta maior do mundo e também uma das nações mais pobres do planeta: segundo o Banco Mundial, cerca de 80% da população vivia, em 2024, com menos de US$ 2,15 por dia. “Infelizmente, Madagascar não está no mapa de muitos financiadores”, diz Francesca. É um desafio que atravessa todo o trabalho da Omena. “Temos que convencer o mundo de que cuidado emocional não é luxo, mas parte de ser uma pessoa inteira e ainda de que oferecer isso para um país desconhecido é muito importante”.
A história de Francesca, claro, começou muito antes da Omena. Filha mais velha, com dois irmãos mais novos, Francesca cresceu ajudando os pais no restaurante da família, perto da escola onde estudava. Ao meio-dia, era ela quem corria para atender os fregueses no balcão. “É interessante mas hoje, olhando para trás, essa experiência já me deu uma ideia do que é preciso para administrar uma empresa, uma organização. Os sistemas que precisam existir, o tipo de interação humana, os conflitos que podem surgir”, diz.
Seu pai, chef formado na França, comandava a parte culinária do restaurante, enquanto sua mãe cuidava da administração e das operações diárias do estabelecimento, que servia uma mistura de comida malgaxe, americana e europeia. O prato favorito de Francesca até hoje é henakisoa sy voanjobory, carne de porco com um tipo de feijão. “Uma iguaria”, ela diz, com água na boca.


Abuso emocional em família
Francesca deixou Madagascar para estudar nos Estados Unidos, onde inicialmente se formou em Psicologia. “Porque eu queria me entender melhor”. Foi ali, treinando para ser educadora de pares em prevenção à violência em um Community College da Virgínia, que ela reconheceu a própria infância nas definições de abuso emocional, psicológico e verbal. “Ao lado do amor e do carinho da família, também cresci vivenciando violência verbal, emocional e psicológica, mas na época ninguém sabia disso”, ela conta.
Foi na mesma casa cheia, regida pela lógica da fihavanana, que também se abrigava essa dor, um lembrete de que a proximidade e o cuidado coletivo não são, por si só, garantia contra a violência; às vezes, são justamente o que torna mais difícil nomeá-la. Quando confrontou sua própria família com o que havia aprendido, ela encontrou primeiro a negação e, semanas depois, um pedido de desculpas, além da descoberta de que esse padrão vinha de gerações anteriores. Foi o primeiro contato de Francesca com a ideia de ciclos intergeracionais de violência, o que a levou a testar, com sua própria família, as ferramentas que mais tarde ensinaria a milhares de pessoas.
O caminho até a organização não foi linear. Selecionada entre mil candidaturas para a Clinton Global Initiative ainda estudante, Francesca se viu ao lado de jovens de todo o mundo com projetos de impacto e se sentiu, em suas palavras, uma impostora. “Naquele momento eu tinha uma ideia e estava buscando formas de transformá-la em realidade. Ainda estava me entendendo como empreendedora”, diz.


A bolsa integral que conquistou na Brown University mudou sua trajetória, mas foi só em 2019, ao compartilhar sua história publicamente pela primeira vez, que tudo se organizou. Fiz um vídeo que viralizou em Madagascar e em outros 13 países. “Foi quando percebi que a questão do abuso emocional não está só em Madagascar, não está só nas casas. Está nos ambientes de trabalho, nas famílias, está em todo lugar”.
Tenho muito orgulho de que existe hoje um sistema que me permite replicar o trabalho da Omena, mesmo se amanhã eu não fizer mais parte da organização
Nascia ali, para valer, Omena palavra que, em malgaxe, significa “dar”. Determinada a não voltar com uma solução criada em outro lugar e simplesmente impô-la, Francesca construiu a Omena junto com profissionais e membros da comunidade malgaxe, contando com pessoas com anos de experiência na área e trabalhando em colaboração com o Ministério da Educação de Madagascar. A organização formou uma equipe inicial de 12 sobreviventes, que reformularam o conteúdo para torná-lo culturalmente adequado antes de qualquer piloto local.
O modelo de hoje funciona em cascata: educadores comunitários passam seis meses de formação intensiva antes de irem a escolas ensinar a crianças, pais e professores; quem permanece na organização pode crescer para facilitador, facilitador-mestre e, por fim, formador-mestre, apto a treinar novos educadores. É uma lógica que lembra outro provérbio: “ohabolana”, em malgaxe, “boca e mão que se socorrem mutuamente quando uma delas se machuca”: cada elo da cadeia da Omena existe para cuidar do próximo.
Francesca foi, por três anos, a única formadora-mestre da Omena. Hoje são dez. “Acreditamos que, antes de quebrar o ciclo na sua comunidade, você precisa quebrá-lo em si mesmo”, explica – por isso, a formação nunca é um evento único, mas um processo de meio ano.
A Omena atende hoje ao menos 50 novos educadores por ano, com a meta de que cada formador-mestre treine 300 professores anualmente, um efeito multiplicador que a equipe ainda está estruturando. Elementos da abordagem da Omena também começaram a alcançar além de Madagascar, com a organização treinando equipes que apoiam sobreviventes de violência nos Estados Unidos, no Zimbábue e no Togo.


Multiplicando a educação emocional em Madagascar
Agora, com pouco mais de 30 anos, Francesca se orgulha de ver a força de uma história que começou na ilha a ganhar o mundo. Penso na força da trajetória dela como mulher, desafiando tantos paradigmas.
Essa ilha, aliás, tem boa parte de sua história marcada por mulheres: o poder feminino tem raízes profundas em Madagascar. No século 19, a rainha Ranavalona I governou o Reino de Imerina resistindo às pressões coloniais europeias. Já no século 20, Gisèle Rabesahala se tornou a primeira mulher a fundar e liderar um partido político no país e, em 1977, a primeira ministra malgaxe.
Na literatura, esse fio também aparece: a escritora Michèle Rakotoson, uma das vozes mais premiadas do país, dedicou parte da obra a personagens femininas que rompem com o esperado. Como em sua peça Sambany, sobre a rebelião de uma mulher considerada infértil, hoje tida como um clássico do teatro local.
Sei o poder de estar presente com as pessoas, fazendo esse trabalho de cura. É sempre mais potente quando é feito pessoalmente
Outra voz importante nesse capítulo é a de Charlotte-Arrisoa Rafenomanjato, nascida e radicada em Antananarivo, que dividiu a vida entre a profissão de parteira e a escrita, usada para denunciar as injustiças sociais do país. Sua peça “O Preço da Paz”, de 1985, discute em tom político e existencial o que significa reconstruir um país depois de décadas de dor acumulada. A peça venceu o 14º Concurso Teatral Interafricano e foi adaptada para o cinema, exibida no Festival de Cinema Africano de Montreal.
Quando perguntei a Francesca sobre a maior conquista dos últimos anos, ela hesitou e depois respondeu: “Tenho muito orgulho de que existe hoje um sistema que me permite replicar o trabalho da Omena, mesmo se amanhã eu não fizer mais parte da organização”. Levou cerca de seis anos para chegar a esse modelo, que ela descreve como o que finalmente “vai permitir que o impacto continue”.
O sonho, hoje, é que a Omena se torne uma referência em Madagascar na prevenção do abuso emocional e na educação emocional, com parcerias formais com ministérios, na esperança de, a longo prazo, tornar a educação emocional acessível às famílias em todo o país. Mas Francesca também já recebe pedidos de outras comunidades para levar o modelo até elas, e sabe que a resposta não pode ser só digital. “Sei o poder de estar presente com as pessoas, fazendo esse trabalho de cura. É sempre mais potente quando é feito pessoalmente”, diz, ainda buscando um formato híbrido que não sacrifique a profundidade do método em nome da escala.
Este é o legado que Francesca quer deixar: não o próprio nome à frente da Omena, mas uma geração preparada para se relacionar de forma diferente, e uma estrutura capaz de se sustentar sem ela, formadores formando formadores, educadores multiplicando educadores, um sistema construído para continuar crescendo muito além de sua fundadora. O fihavanana que moldou sua infância, hoje reaplicado como método: a certeza de que cuidar do outro, de verdade, é o que sustenta qualquer comunidade, e de que, nesse trabalho, ninguém se cura, nem se organiza, sozinho.














































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