ODS 1
Redução da vegetação nativa deixa Brasil mais exposto aos eventos extremos do El Niño




Área agrícola castigada pela seca ao lado de floresta na Amazônia mato-grossense: redução de chuvas nas áreas de agropecuária foi maior do que nas áreas de floresta no bioma (Foto: Fábio Nascimento / ISA)
Dados do MapBiomas apontam maiores perdas na Amazônia e no Cerrado e impactos climáticos mais severos em áreas de agropecuária do que de florestas
Mesmo com a redução no desmatamento observada nos anos mais recentes, no acumulado dos últimos 41 anos o Brasil viu sua cobertura de vegetação nativa cair de 79% para 65% entre 1985 e 2025, de acordo com a Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil do MapBiomas, lançada nesta quarta-feira (12/08). Os dados mostram um cenário em que áreas naturais continuam a ser reduzidas em detrimento dos usos pelas atividades humanas, como agricultura e pecuária, e ficam expostas aos efeitos de extremos climáticos, como secas e enchentes – fenômenos agravados em anos de El Niño.
Neste temporada de seca extrema, em 2023, a redução das chuvas na Amazônia foi muito maior nas áreas de agropecuária do que nas de florestas
Os dados históricos de precipitação (disponíveis na plataforma do MapBiomas Atmosfera) mostram que os biomas brasileiros têm registrado secas ou chuvas cada vez mais intensas em anos com El Niño de maior intensidade, como o que se espera em 2026. “Da mesma forma que os eventos extremos estão se tornando mais intensos com as mais mudanças climáticas, eles também são intensificados pelas mudanças no uso da terra. E esses extremos, sempre agravados em anos de El Niño, variam de bioma para bioma, com redução ou aumento das chuvas”, explicou o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, na apresentação da coleção.
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A comparação dos dados da série histórica de cobertura e uso da terra do MapBiomas com as anomalias de precipitação (mm) entre os meses de setembro e novembro durante três eventos recentes de forte El Niño (1997/98, 2015/16, 2023/24) revela que a redução de chuvas vem se agravando, com exceção do Pampa e da região sul da Mata Atlântica, onde há um aumento da precipitação. É nesse trimestre, de setembro a novembro, que são observados os extremos mais críticos de precipitação durante os eventos de El Niño no Brasil. Os dados apontam diferenças regionais desses efeitos sobre as áreas com vegetação nativa e as áreas com uso agropecuário.
A Amazônia apresentou o maior déficit de precipitação entre os biomas nos três eventos de El Niño analisados. No último El Niño (2023/2024), a maior redução de chuvas foi observada nas regiões ocupadas pela agropecuária no bioma Amazônia (178 mm abaixo da média climatológica). “Neste temporada de seca extrema, em 2023, a redução das chuvas na Amazônia foi muito maior nas áreas de agropecuária do que nas de florestas”, apontou Tasso Azevedo.
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Veja o que já enviamosOs dados do MapBiomas indicam ainda que, no Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, a seca vem se acentuando a cada novo evento de El Niño, principalmente nas áreas de vegetação nativa. No Pantanal, o último El Niño teve efeito pronunciado na redução das precipitações, sendo que 2024 foi o ano mais seco da série histórica mapeada.
Os eventos de El Niño produziram excesso recorrente de chuva no Sul do Brasil, considerando as anomalias de precipitação entre setembro e novembro. No Pampa, foi constatado que o excesso de chuvas foi maior nas áreas agropecuárias do que nas áreas de vegetação nativa em dois eventos de El Niño analisados. “Esse excesso de chuvas nas áreas agropecuárias provoca, em muitos casos, perdas nas lavouras e erosão dos solos agrícolas, o que é agravado pela redução da vegetação nativa que atua na proteção do solo e na maior infiltração da água da chuva”, explicou Eduardo Vélez, da equipe do Pampa no MapBiomas.


Da vegetação nativa para a agropecuária
Na comparação direta entre os anos de 1985 e 2025, quase um terço (28%) do Brasil passou por transições na cobertura e no uso da terra, variando entre biomas e dentro de cada bioma. As transições registradas englobam, por exemplo, ganho ou redução de superfície de água, o avanço antrópico sobre áreas naturais (e vice-versa), bem como a alternância entre diferentes usos da terra. A área com transições nesse período chega a 241 milhões de hectares, dos quais 56% (136 milhões de hectares) foram de vegetação nativa convertida para áreas de agropecuária.
Esta é a principal transição de cobertura e uso da terra na Amazônia, onde 55 milhões de hectares, que equivalem a 83,6% de todo o território modificado no bioma), de vegetação nativa foram convertidas em áreas para a agropecuária – e também no Cerrado (52 milhões de hectares, ou 59,4% da área total de transições no período), Caatinga (14,1 milhões de hectares, ou 58,9%) e Pampa (4 milhões de hectares, ou 44,1%). Por outro lado, ainda de acordo com os dados do MapBiomas, Caatinga e Mata Atlântica se destacaram por apresentarem as maiores áreas de transição de uso agropecuário para vegetação nativa, totalizando 4,4 milhões de hectares (18,2% do total das transições na Caatinga) e 6,2 milhões de hectares (13,6% na Mata Atlântica).
Os mapas da Coleção 11 revelam que essas transições de coberturas naturais para usos antrópicos vêm se reduzindo nos últimos anos, um resultado já antecipado no Relatório Anual do Desmatamento de 2025. “Em 2025, o Brasil registrou menos de um milhão de hectares desmatados pela primeira vez desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta desde 2019, resultado de uma redução de 20,6% em relação ao ano anterior. Essa desaceleração imprime um ritmo menor de transformação da cobertura da terra, porém muitas regiões do Brasil já passaram por mudanças profundas nas últimas quatro décadas, o que afeta a sua resiliência aos eventos climáticos extremos, como o El Niño iniciado em 2026”, comentou Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas.
No bioma Pantanal, o encolhimento de 4 milhões de hectares de superfícies de água e campos alagados é acompanhado pela inclusão, na Coleção 11, de uma nova classe de mapeamento: a savana alagada, caracterizada por espécies arbóreas distribuídas de forma esparsa em meio à vegetação arbustiva e herbácea ao longo de cursos d’água e planícies de inundação. Essa classe sofreu uma redução de 84% no Pantanal, caindo de 1,1 milhão de hectares em 1985 para 174 mil hectares em 2025.
Formação Florestal perdeu 65 milhões de hectares em 41 anos
Principal cobertura natural do Brasil, com 359,5 milhões de hectares em 2025, o equivalente a 42,3% do território nacional, a Formação Florestal também foi a cobertura que apresentou a maior redução absoluta desde 1985, com perda acumulada de 65 milhões de hectares. Ainda assim, as formações florestais continuam concentrando grande parte das áreas que permaneceram sem mudança ao longo dos últimos 41 anos: d. dos 557 milhões de hectares mapeados com a mesma classe de cobertura ou uso da terra de 1985 a 2025, cerca de 335 milhões de hectares correspondem à Formação Florestal; outros 84 milhões de hectares permanecem classificados como Formação Savânica e aproximadamente 35 milhões como Floresta Alagável.
Em área absoluta, Amazônia e Cerrado registraram as maiores perdas acumuladas de vegetação nativa entre 1985 e 2025, com reduções de 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente. Na sequência aparecem Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Na avaliação por bioma, o Cerrado (perda de 34%) e o Pampa (perda de 32%) apresentaram as maiores reduções proporcionais ao longo da série histórica. os dados de 2025 mostram que Amazônia e Pantanal permanecem como os biomas com maior proporção de vegetação nativa, ambos com mais de 80% de seu território ocupado por coberturas nativas. A Mata Atlântica, apesar de ter a menor redução proporcional nesses 41 anos (12%), ainda é o bioma brasileiro com a menor proporção de vegetação nativa (32%), especialmente por conta do desmatamento ocorrido antes do período mapeável por satélite.
As transformações observadas na cobertura e no uso da terra também aparecem em escala estadual. De 1985 a 2025, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa em seus territórios. O Rio de Janeiro foi a única exceção a essa tendência, com aumento de 1% na cobertura de vegetação nativa no período. Em 2025, Amapá e Amazonas permaneceram como os estados com maior proporção de vegetação nativa, ambos com 95% do território, seguidos por Roraima, com 92%. Na outra ponta está Sergipe, com 22%, seguido por Alagoas e São Paulo, ambos com 21%.
Agropecuária predomina na maioria dos municípios
Em 1985, o Brasil tinha 150,2 milhões de hectares ocupados pela agropecuária, ou 18% de seu território. Em 2025, a atividade já ocupa quase um terço (32%) do país, com 273,3 milhões de hectares. As pastagens continuam respondendo por mais da metade (60,6%) dessa área, com 165,6 milhões de hectares em 2025. Desde 1985, as pastagens incorporaram 61,6 milhões de hectares. A partir de 2006, a área de pastagem no país se mantém relativamente estável (com crescimento abaixo de 1,5 milhões de hectares ao ano).
A agricultura passou de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares entre 1985 e 2025. Entre as culturas temporárias, a soja foi a que apresentou a maior expansão, passando de 4,5 milhões para 44,2 milhões de hectares e representando 66,5% de toda a área de agricultura do país em 2025. A cana-de-açúcar passou de 2,2 milhões de hectares para 11,1 milhões de hectares no mesmo período.
A silvicultura também expandiu sua participação na paisagem brasileira, passando de 1,9 milhão para 9,9 milhões de hectares entre 1985 e 2025.
Essa expansão teve reflexos sobre os municípios brasileiros. Em 1985, a agropecuária era a cobertura ou uso da terra predominante em 46% deles. Em 2025, essa proporção aumentou para 59%. Em 2.114 municípios (38% do total), a pastagem é a principal cobertura ou uso da terra. A agricultura predomina em outros 1.092 municípios (20%), enquanto a Formação Florestal permanece como cobertura predominante em 1.104 municípios (20%). Nos últimos 41 anos, 744 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como cobertura predominante.


Avanço das áreas para produção de energia renovável
A Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil do MapBiomas revela também que a área ocupada por parques eólicos cresceu seis vezes na última década – foi o primeiro ano que a organização fez o levantamento das terras ocupadas para geração de energia eólica.
Em 2025, os parques eólicos ocupavam 28,7 mil hectares em 2025, ante 4,8 mil hectares em 2016. A Caatinga concentrava 85% da área mapeada, com 24,4 mil hectares. O Cerrado respondia por 8%; o Pampa, por 6%; e a Mata Atlântica, por 1%. Rio Grande do Norte e Bahia reúnem 61,7% da área de parques eólicos mapeada em 2025, totalizando 17,7 mil hectares. A área de parques eólicos nos estados do Nordeste aumentou 5,7 vezes no período mapeado, passando de 4,7 mil hectares em 2016 para 26,9 mil hectares em 2025.
A Coleção 11 também trouxe, pelo segundo ano, dados sobre as áreas de usinas fotovoltaicas, que registraram uma expansão de 38 vezes no período de 10 anos: a área ocupada por usinas fotovoltaicas no Brasil chegou a 43,3 mil hectares em 2025. A Caatinga concentrava 63% dessa área, o equivalente a 27,2 mil hectares. Outros 32%, ou 13,9 mil hectares, estavam no Cerrado, e 5%, correspondentes a 2,2 mil hectares, na Mata Atlântica.
Minas Gerais reunia 16,3 mil hectares de usinas fotovoltaicas em 2025, 37,6% do total nacional. O estado, cuja área mapeada cresceu 133 vezes na última década. Em 2025, Minas Gerais, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte concentravam, juntos, 74,8% da área de usinas fotovoltaicas identificada no país, ou 32,3 mil hectares. O MapBiomas ressalta que o levantamento inclui apenas fazendas para a produção de energia solar, sem mapear microssistemas em residências ou condomínios e em outras áreas muito pequenas.
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