Com transição religiosa, uniões consensuais passam a ser majoritárias no Brasil

Certidão de casamento, documento em desuso: Brasil vem testemunhando redução da proporção das uniões civis e religiosas e aumento massivo das uniões consensuais (Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil - 04/03/2022)
Certidão de casamento, documento em desuso: Brasil vem testemunhando redução da proporção das uniões civis e religiosas e aumento massivo das uniões consensuais (Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil - 04/03/2022)
Certidão de casamento, documento em desuso: Brasil vem testemunhando redução da proporção das uniões civis e religiosas e aumento massivo das uniões consensuais (Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil – 04/03/2022)

Ao longo de seis décadas, país teve redução da proporção das uniões civis e religiosas e aumento massivo de nova modalidade conjugal

Por José Eustáquio Diniz Alves | ArtigoODS 16

Publicado em 10/08/2026 - 09h45 (Atualizado há 11 minutos)

Tempo de leitura: 13 min

O Brasil passou por profundas transformações econômicas, sociais, demográficas e culturais após a Proclamação da República. Houve uma transição da economia de escambo e de subsistência para uma economia monetizada e de mercado. Houve crescimento da renda per capita e o Brasil deixou de ser uma nação pobre para se tornar um país de renda média, com aumento e diversificação do consumo. Houve uma transição de uma nação rural e agrária para um país urbano, industrial e de serviços. Houve uma transição demográfica com redução das taxas de mortalidade e natalidade, com diversificação dos arranjos familiares e mudanças na natureza das uniões conjugais. Em decorrência de todas estas transformações, houve a evolução de uma transição religiosa, com aumento da pluralidade de crenças e um mercado religioso mais competitivo.

Leu essa? Qual o futuro da transição religiosa no Brasil?

A transição religiosa brasileira se desdobra em quatro níveis: diminuição das filiações católicas, aumento das filiações evangélicas, crescimento de outras religiosidades (religiões de matriz africanas e asiáticas, espíritas, etc.) e elevação do percentual de pessoas que se declaram sem religião. As filiações católicas diminuíram de 93% em 1960 para 56,7% em 2022, enquanto os outros três grupos aumentaram os seus percentuais, conforme mostra o gráfico abaixo.

Gráfico com a transição religiosa no Brasil: 1960/2022 (Fonte: Censos Demográficos do IBGE)
Transição religiosa no Brasil: 1960/2022 (Fonte: Censos Demográficos do IBGE)

Os motivos da transição religiosa brasileira são múltiplos e multifacetados. Sem dúvida, as diversas transformações econômicas, geográficas, demográficas e culturais que ocorreram no país em mais de um século contribuíram para a queda do percentual de católicos. A análise concomitante das transformações na nupcialidade e no campo religioso no Brasil, a partir dos dados dos Censos Demográficos do IBGE (1960–2022), evidencia uma profunda convergência entre as transformações demográficas e o declínio da hegemonia católica no país.

O Brasil aprovou o “Estatuto da Mulher Casada” em 1962, a Lei do Divórcio em 1977 e reconheceu os direitos da “União Consensual” na Constituição de 1988. Em consequência de tudo isto, houve grande mudança no status conjugal das famílias brasileiras, inclusive um grande aumento no número de divórcios e separações nas últimas décadas. Uma das alterações fundamentais que ocorreu no âmbito das famílias, foi a redução da importância da nupcialidade associada à mudança da natureza da conjugalidade.

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A tabela abaixo mostra o percentual das pessoas de 10 anos ou mais de idade, que viviam em união conjugal, segundo a natureza da união, no Brasil de 1960 a 2022. Em 1960, a grande maioria das uniões contava com a bênção sacramental, divididas entre o casamento “Civil e Religioso” (60,5%) e “Só Religioso” (20,2%), sustentando um tipo de arranjo familiar em que a hegemonia católica se reproduzia de maneira quase compulsória e intergeracional.

Contudo, ao longo de seis décadas, o país testemunhou a redução da proporção das uniões civis e religiosas (que passou de 60,5% para 37,9%) e o colapso das uniões exclusivamente religiosas (que caíram para 2,6% em 2022). Houve aumento das uniões somente no civil (passando de 12,8% em 1960 para 20,5% em 2022) e a ascensão massiva das uniões consensuais, que saltaram de inexpressivos 6,5% para se tornarem a modalidade conjugal majoritária no Brasil (38,9%), superando a tradicional união civil e religiosa (37,9%).

Gráfico com os percentuais de pessoas (10 anos ou mais) vivendo em união conjugal no Brasil - 1960/2022 (Fonte: Censos Demográficos do IBGE)
Percentuais de pessoas (10 anos ou mais) vivendo em união conjugal no Brasil – 1960/2022 (Fonte: Censos Demográficos do IBGE)

A maioria absoluta das famílias brasileiras eram formadas por casais com filhos, mas este arranjo passou a representar menos de 50% no censo 2022. Cresceram os casais sem filhos, os arranjos monoparentais femininos (mães solos), as pessoas morando sozinhas, além do aumento de arranjos reconstituídos (família mosaico) e o crescimento de arranjos formadas por casais do mesmo sexo. Portanto, os tipos de famílias ficaram mais diversos e plurais.

Esta nova realidade difere bastante do modelo de família católica baseado no casamento monogâmico, heterossexual, indissolúvel e orientado à procriação que ocupava um lugar central na tradição católica, e teve profunda influência na formação histórica da sociedade brasileira.

Durante séculos, a Igreja Católica definiu o casamento religioso como um sacramento e como a única forma legítima de constituição da família. Nesse entendimento, o casamento possui quatro características fundamentais: a união entre um homem e uma mulher, a monogamia, a permanência do vínculo (“até que a morte os separe”) e a abertura à geração e educação dos filhos. A família era concebida como a “igreja doméstica”, isto é, o primeiro espaço de transmissão da fé, dos valores morais e da socialização religiosa.

Nesse modelo, a procriação ocupa papel central. Os filhos são considerados um dom de Deus e uma das finalidades essenciais do matrimônio. Desde o nascimento, espera-se que sejam incorporados à comunidade religiosa por meio do batismo, recebam os demais sacramentos ao longo da infância e juventude (como a primeira comunhão e a crisma, na tradição católica) e sejam educados segundo os ensinamentos da Igreja. Assim, a continuidade da família e da própria comunidade religiosa depende da transmissão intergeracional da fé.

Menos católicos, mais uniões consensuais

Historicamente, esse modelo desempenhou importantes funções sociais. A família era responsável pela reprodução biológica da população, pela educação das crianças, pelo cuidado dos idosos, pela transmissão do patrimônio, pela organização do trabalho doméstico e agrícola e pela manutenção da ordem social. Em sociedades com limitada atuação do Estado, a família também constituía a principal rede de proteção econômica, afetiva e social.

No Brasil, especialmente durante os períodos colonial e imperial, quando Igreja e Estado estavam estreitamente ligados pelo regime do Padroado, esse ideal de família foi promovido tanto pela legislação quanto pelas instituições religiosas. O casamento religioso possuía reconhecimento civil, as paróquias registravam batismos, casamentos e óbitos, e a vida familiar era fortemente regulada pelas normas da Igreja. O elevado número de filhos contribuía para a expansão demográfica e para a ocupação do território. Porém, com as mudanças na conjugalidade e a redução da fecundidade a Igreja Católica viu reduzir o número e a importância dos sacramentos do matrimônio e do batismo.

O gráfico abaixo apresenta a correlação entre a queda percentual das filiações católicas e o aumento percentual das uniões consensuais no Brasil entre 1960 e 2022. Muitos são os fatores que influenciam a transição religiosa, mas a reta de tendência linear entre as duas variáveis indica que 97,4% da variabilidade da queda das filiações católicas está associada ao aumento do percentual das uniões consensuais. Existe um efeito de retroalimentação, pois o enfraquecimento do catolicismo paroquial reduz os casamentos religiosos, enquanto o crescimento das uniões consensuais dificultam a expansão do catolicismo.

Correlação entre a queda das filiações católicos e o aumento das uniões consensuais no Brasil: 1960-2022 (Fonte: Censos Demográficos do IBGE)
Correlação entre a queda das filiações católicos e o aumento das uniões consensuais no Brasil: 1960-2022 (Fonte: Censos Demográficos do IBGE)

Na doutrina tradicional da Igreja Católica, a união consensual sem o sacramento do matrimônio é vista com restrição moral ou doutrinária. Isso gera dois efeitos imediatos: 1) Desconforto ou afastamento: casais em união consensual muitas vezes se sentem à margem da vida comunitária paroquial (por não se sentirem aptos a comungar ou participar plenamente dos rituais) e 2) Desencaixe institucional: como observado na teoria da exculturação, a religião perde a capacidade de ditar as normas da vida privada e afeta a adesão às instituições tradicionais. O casal passa a praticar uma fé “sem vínculo com a norma central”, o que facilita o posterior desligamento ou a migração para outros grupos.

A análise concomitante das transformações na nupcialidade e no campo religioso no Brasil, a partir dos dados dos Censos Demográficos do IBGE (1960–2022), evidencia uma profunda convergência entre a transição demográfica e o declínio da hegemonia católica no país. Ao abdicarem do rito matrimonial, as novas unidades familiares afrouxam seus vínculos com a estrutura paroquial, enfraquecendo a obrigatoriedade moral de sacramentos subsequentes na prole, como o batismo e a catequese.

Esse distanciamento reflete o descompasso entre as práticas sociais e a doutrina oficial. A encíclica Humanae Vitae, promulgada pelo Papa Paulo VI em 1968, define o matrimônio como uma instituição indissolúvel e voltada à finalidade generativa, estabelecendo normas rigorosas para a conduta sexual e reprodutiva. O dogma católico preconiza a castidade pré-matrimonial, a união estritamente heterossexual, a fidelidade conjugal absoluta e a restrição do ato sexual à dimensão procriativa, rejeitando arranjos não monogâmicos, práticas contraceptivas artificiais, proteção para o sexo seguro ou qualquer tipo de sexo dissociado do ato reprodutivo.

Como observou McClory (1995), a rigidez dessa normativa — ao condenar a contracepção e o uso de preservativos — contribuiu significativamente para a perda de credibilidade da Igreja, sobretudo entre as gerações mais jovens. Sem dúvida, a transição religiosa brasileira ocorre por meio da sucessão de coortes, com as gerações mais idosas permanecendo majoritariamente católicas e as gerações mais novas optando por filiações evangélicas, outras religiosidades ou pelo grupo sem religião.

Dessa forma, a expansão das uniões consensuais e as novas práticas reprodutivas operaram não apenas como sintoma do avanço do individualismo e da autonomia privada, mas como um mecanismo ativo de desacoplamento institucional e desencaixe social. Essa flexibilização dos arranjos familiares pavimentou o caminho para a transição da “religião de herança” para a “religião de escolha”, alimentando tanto a ascensão das denominações evangélicas — cujas redes locais oferecem inserção comunitária pragmática — quanto a desfiliação institucional expressa no crescimento do segmento sem religião.

Referências:

Alves, JED. Mudanças sociodemográficas e a transição religiosa no Brasil, # Colabora, 29/06/2026

https://projetocolabora.com.br/ods16/mudancas-sociodemograficas-e-a-transicao-religiosa-no-brasil/

ALVES, JED; CAVENAGHI, S. Transição religiosa no Brasil — pluralidade e mudança de hegemonia, Insight Inteligência, Edição 113, junho de 2026

https://insightinteligencia.com.br/transicao-religiosa-no-brasil-pluralidade-e-mudanca-de-hegemonia/

ALVES, JED, CAVENAGHI, S. Transição religiosa e pluralidade no Brasil. Revista Horizonte, Belo Horizonte, v.23, n.02, set./dez. 2025 https://periodicos.pucminas.br/horizonte/article/view/36754

McCLORY, Robert. Turning Point: The Inside Story of the Papal Birth Control Commission, and how Humanae Vitae Changed the Life of Patty Crowley and the Future of the Church. New York: The Crossroad Publishing Company, 1995.

 

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José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

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