Caatinga assume protagonismo no combate à desertificação e recuperação de territórios

Foto colorida do painel: Modos de vida e clima, que abriu os debates da segunda edição da semana do clima na Caatinga, no Cais do Sertão, em Recife. Na imagem, aparecem os painelistas no centro e o público de costas, assistindo o evento.

Segunda edição da Caatinga Climate Week impulsiona debate sobre resiliência e adaptação climática no bioma

Por Micael Olegário | ODS 13
Publicada em 2 de julho de 2026 - 09:23  -  Atualizada em 2 de julho de 2026 - 10:07
Tempo de leitura: 9 min

Foto colorida do painel: Modos de vida e clima, que abriu os debates da segunda edição da semana do clima na Caatinga, no Cais do Sertão, em Recife. Na imagem, aparecem os painelistas no centro e o público de costas, assistindo o evento.
Modos de vida e clima; painel abriu debates da segunda edição da semana do clima na Caatinga, no Cais do Sertão, em Recife (Foto: @domarrrrrrr / Caatinga Climate Week)

(Recife-PE*) – A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e está na linha de frente na adaptação e mitigação da crise climática. Sancionada em junho, a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga determina a criação de planos de ação para responder a esse contexto, por meio do combate ao desmatamento e à desertificação no semiárido.

A política, instituída pela lei n° 15.430/2026, prevê ampliar a produção sustentável de alimentos e contribuir com a segurança hídrica e a bioeconomia na Caatinga. A nova legislação foi tema dos debates do Caatinga Climate Week 2026, evento que teve início nesta quarta-feira (01/07), em Recife (PE).

Em sua segunda edição, a semana do clima na Caatinga aborda os impactos da emergência climática no bioma. O evento segue até sexta-feira (03/07) e inclui painéis e atividades em diferentes territórios do semiárido, onde a adaptação faz parte do cotidiano de comunidades e povos tradicionais.

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Cisternas para armazenamento de água, sistemas agroflorestais, sistemas de reuso de água cinza, fogões ecológicos, biodigestores e bancos de sementes crioulas. Todas estas são soluções que já existem na Caatinga e mostram a capacidade de resiliência desse ecossistema e das pessoas que vivem nele.

A partir desse conjunto de conhecimentos e tecnologias sociais, o objetivo da semana do clima é reconhecer a Caatinga como território de inovação, resistência e futuro. O foco está também em romper com estereótipos sobre o bioma e mostrar a cultura que faz a vida pulsar no semiárido.

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“A cultura também é fundamental para a preservação dos espaços geográficos”, destaca Carlos Magno, coordenador do Centro de Desenvolvimento Ecológico Sabiá, organização responsável pela Caatinga Climate Week, em conjunto com o Instituto Socioambiental (ISA). Neste ano, o tema escolhido foi: “A Caatinga falando para o mundo”. 

Desafios e oportunidades na Caatinga

As secas cada vez mais longas e severas indicam a intensidade das mudanças climáticas no presente da Caatinga. Estudos do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) indicam que cerca de 62% das áreas do bioma estão suscetíveis à desertificação, processo que possui ligação com a degradação do solo e do ciclo hidrológico.

Para Sérgio Leitão, advogado e diretor-executivo do Instituto Escolhas, o caminho para preservar o bioma passa pela restauração produtiva, ou seja, por um processo que inclua as pessoas e comunidades. Segundo ele, isso é essencial tanto para garantir o abastecimento de água para diversas cidades do Nordeste quanto para enfrentar desigualdades socioeconômicas históricas.

“Fortaleza recebe água do Açude de Castanhão, que fica no sertão. Salvador, recebe água da barragem de Pedra do Cavalo, que bebe água do Rio Paraguaçu, que vem do sertão. Então, a Caatinga é suporte ecológico para as atividades econômicas, para a agricultura familiar e para a vida de povos indígenas e quilombolas”, explica Sérgio.

O Instituto Escolhas participou de todo o processo de formulação e aprovação da Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga. “É a primeira vez que no Brasil existe uma lei dedicada à recuperação de um bioma”, pontua Sérgio. Neste caso, trata-se de uma norma que vai além da proteção ou preservação.

Temos um olhar para a questão do recaatingamento, com plantas frutíferas e também medicinais

Romana Kambiwá
Educadora indígena e engenheira agrônoma

Estudo feito pelo Instituto Escolhas, lançado em 2024, mostra que cerca de 1 milhão de hectares já poderiam estar sendo restaurados na Caatinga, isso apenas em áreas de reserva legal e proteção permanente (APPs). Para isso, seria necessário um investimento estimado em R$15,1 bilhões, valor distante dos R$90 milhões anunciados no final de 2025, por exemplo.

Por outro lado, a pesquisa revela que o investimento pode trazer um retorno de até R$29,7 bilhões para os territórios da Caatinga, além da geração de 465,8 mil empregos e produção de 7,4 milhões de frutas, verduras e hortaliças. Os dados incluem ainda 702 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO²) removidas da atmosfera ao longo desse processo de restauração ou de “recaatingar”.

Programa Recaatingar e COP17

Além da Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) também lançou em junho passado o Programa Recaatingar. 

A iniciativa prevê financiar projetos que combinam recuperação ambiental, segurança hídrica e alimentar e inclusão socioeconômica de povos tradicionais e agricultores familiares. O edital do programa prevê um investimento inicial de R$60 milhões para projetos em áreas degradadas no bioma.

O Recaatingar tem como meta recuperar 10 milhões de hectares até 2045. A base da iniciativa é o conceito de “recaatingamento”, um modo de convivência com o Semiárido que inclui práticas, como adubação verde, compostagem e plantio direto, além da implantação de sistemas agroflorestais.

Diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE), órgão vinculado ao MMA, Alexandre Pires enfatiza a importância do “recaatingar” em valorizar as soluções que nascem dos territórios. O programa também está vinculado à Política Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca. 

Presente na Caatinga Climate Week, Alexandre foi cobrado por um posicionamento maior do Brasil nas discussões da COP17 da Desertificação, marcada para agosto, na Mongólia. Questionado sobre a possibilidade do país sediar a conferência (o evento acontece a cada dois anos e a seguinte deverá ser no Egito), ele respondeu que isso depende de um processo longo de construção.

Foto colorida de painel de abertura da Caatinga Climate Week. Na imagem, Romana Kambiwá aparece com o microfone. Ela é uma mulher indígena, com cabelo preto e usa óculos. Ela está sentada ao lado de Antônio Crioulo e Marcele Oliveira
Romana Kambiwá (com o microfone), ao lado de Antônio Crioulo e Marcele Oliveira; líder indígena descreveu trabalho de recuperação do território (Foto: @domarrrrrrr / Caatinga Climate Week)

Exemplo prático: TI Kambiwá

Caatinga significa “mata-branca” em tupi. Com um ecossistema diverso que ocupa mais de 840 mil km² e cerca de 11% do território nacional, a Caatinga abriga uma biodiversidade singular e adaptada aos regimes de chuva e seca do bioma, isso inclui também as comunidades e povos tradicionais, como indígenas, camponeses e quilombolas.

“A mulher sertaneja aprende a ser resiliente desde o nascimento”, disse Romana Kambiwá, durante o painel “Modos de vida e clima”. Na Caatinga Climate Week, a educadora indígena e engenheira agrônoma apresentou parte do trabalho feito pelo povo Kambiwá na recuperação socioprodutiva do semiárido.

Localizada entre os municípios de Inajá, Ibimirim e Floresta, no Sertão do Moxotó, em Pernambuco, a Terra Indígena Kambiwá possui cerca de 31 mil hectares e abriga mais de 3 mil indígenas. No território, a Associação Caboaman reúne mulheres em um projeto de beneficiamento de frutas nativas da Caatinga.

A iniciativa conta com um viveiro para produzir mudas de espécies como murici e umbu no território. “Temos um olhar para a questão do recaatingamento, com plantas frutíferas e também medicinais”, explica Romana. O projeto “Sabores e Saberes com Frutas da Caatinga” transforma as plantas em doces, geleias e licores, o que contribui com a autonomia das mulheres Kambiwá.

*O repórter Micael Olegário viajou para a Caatinga Climate Week a convite do Instituto Socioambiental (ISA)

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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