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Veja o que já enviamosMadonna ensina a lutar batalhas que não são nossas porque é o certo a se fazer
Aos 67 anos, e desde sempre, estrela usa sua voz global para trazer pautas marginalizadas para o centro da cultura pop
Outro dia, depois de encontrar e abraçar vários amigos gays, uma amiga disse para outra: “Você não sabia? A Júlia é a Madonna de Juiz de Fora”. Ri alto, nunca ganhei título melhor. Pode guardar diploma, certificado, medalha, tudo na gaveta. Se um dia eu representar um fiapo pra alguém do que Madonna representa para tanta gente, já vai ter valido a pena. Porque não existe artista pop que tenha comprado tanta briga que não era dela simplesmente porque era a coisa certa a fazer.
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É fácil esquecer o tamanho da coragem que foi escolher ficar ao lado da população LGBTQIA+ quando isso significava perder dinheiro, contratos e prestígio. Hoje todo mundo quer colocar uma bandeira de arco-íris na logomarca durante o mês do Orgulho. Nos anos 1980, enquanto chamavam a AIDS de “câncer gay”, deixavam milhares de pessoas morrerem e tratavam homens gays como descartáveis, Madonna usou a maior vitrine do planeta para fazer o contrário.
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Levou informação sobre HIV no encarte de Like a Prayer, viu amigos morrerem enquanto governos lavavam as mãos e mostrou que a fama podia servir para muito mais do que vender discos. Eu nem era nascida e a danada já ensinava uma lição que continuo tentando aprender: algumas batalhas passam a ser nossas quando a injustiça escolhe alguém como alvo. .
Talvez seja por isso que ela continue despertando tanto ódio, porque é uma mulher que jamais aceitou obedecer. Que nunca pediu autorização para envelhecer, para desejar, para ocupar espaço, para ser rica, poderosa, sexualmente livre e politicamente inconveniente ao mesmo tempo.
Madonna sempre foi um problema para essa confraria bolorenta que sonha em congelar o mundo no instante em que homens mandavam, mulheres obedeciam, gays se escondiam e todo mundo fingia felicidade dentro da própria prisão. O escândalo sempre foi a liberdade.
Também nunca foi coincidência ela desafiar instituições religiosas, brincar com símbolos considerados sagrados e misturar santidade, erotismo, culpa e resistência feminina no mesmo palco. Madonna sempre entendeu que controlar o corpo das mulheres é um dos instrumentos favoritos de quem quer controlar a sociedade inteira. Por isso ela perturba tanto quem acredita que existe uma idade para desejar, uma roupa adequada para cada mulher e uma única forma aceitável de viver.
E talvez seja justamente por isso que ela tenha escolhido revisitar Confessions on a Dance Floor, de 2005. Muita gente ouviu aquele disco apenas como uma sequência impecável de hits para dançar. E era isso também. Mas era uma carta de amor às pistas de dança que, durante décadas, serviram de abrigo para quem o mundo insistia em expulsar. Antes de muitos direitos chegarem à lei, eles chegaram ali. Gays, lésbicas, pessoas trans, mulheres e tantos outros corpos marginalizados encontravam, na pista, uma liberdade que ainda não existia do lado de fora.
Agora ela volta a esse universo com Confessions II. E não poderia haver momento mais simbólico. Em 2005, apesar de todas as contradições do mundo, havia uma sensação de que algumas conquistas caminhavam para frente. Vinte anos depois, Donald Trump voltou ao centro da política americana embalado por um discurso que alimenta ataques a imigrantes, pessoas LGBTQIA+, políticas de diversidade e direitos civis. A extrema direita se reorganizou ao redor do planeta, o fascismo voltou a desfilar com roupa nova e os velhos pânicos morais ganharam fôlego outra vez.


É nesse cenário que Madonna afirma que a pista de dança é um espaço político. Porque dançar junto, ocupar espaço, envelhecer sem desaparecer, desejar livremente e celebrar a própria existência nunca foi só entretenimento para quem passou a vida inteira ouvindo que deveria ter vergonha de ser quem é.
Madonna nunca foi perfeita. Já defendeu posições das quais discordo profundamente e, como qualquer figura pública que atravessa cinco décadas de carreira, carrega contradições. Ainda bem. Eu desconfio muito de quem nunca se contradiz. O lado de lá é que gosta de fabricar mitos infalíveis.
É um privilégio viver na mesma época que Madonna. Que mudou a cultura antes que a cultura aceitasse mudar, e segue mudando. Porque ensinou zilhões de pessoas, inclusive eu, que vale a pena lutar por batalhas que nunca serão diretamente nossas simplesmente porque é o certo a fazer. E que mostra, além do próprio corpo de 67 anos, que solidariedade também pode ser um ato de rebeldia. Aluna aplicada que sou, seguirei me rebelando, em Juiz de Fora e na vida, com meus gays.
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