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Jacqueline com as filhas Rafaela, Fernanda e Thaynara: incentivo para seguir em frente. Foto Arquivo Pessoal
Quando uma mãe solo desiste, o fracasso é do sistema
Números revelam o drama das mães solo que se sentem culpadas por um fracasso que não é delas
“Eu tinha o sonho de ser professora de História”. Assim como inúmeros estudantes brasileiros, Jacqueline Santos Modesto, de 44 anos, também resolveu dar o primeiro passo na busca do sonho de concluir uma universidade, em 2017, aos 36 anos, quando se matriculou no curso de História na Estácio, em modalidade EAD. Ela relembra essa decisão como uma forma de recomeço e auto reconciliação, após a separação de seu ex-marido, cujo complexo processo de divórcio ainda corria na justiça. “Eu só queria fazer tudo aquilo que o casamento me impedia”. Naquele momento, sua rotina se dividia entre o trabalho em escala 6×1 como gerente de joalheria, os estudos à noite e a maternidade solo — em meio ao pouco tempo que lhe restava. As filhas Rafaela, Fernanda e Thaynara tinham, então, 2, 12 e 18 anos, respectivamente, e vivenciaram todas as adversidades dessa nova etapa de vida da mãe, que acabariam culminando em uma desistência do curso de História, após apenas um período cursado.
Leu essa? Pena maior por ser mãe
No Brasil, a realidade de mães solo sempre foi uma questão estrutural. Cerca de 11 milhões de mulheres cuidam de seus filhos sem a presença de um parceiro, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Destas, aproximadamente 1,3 milhão são universitárias. Ainda que a taxa de conclusão do ensino superior entre mulheres seja maior que a de homens, de acordo com o último censo de 2022 do IBGE (60,3% de mulheres em relação aos homens), entre mães com filhos de até 17 anos, apenas 17% concluem a graduação. Já entre mulheres sem filhos, a chance de concluir o curso é mais do que o dobro, segundo o Datafolha (2023).
Por mais que fosse barato, eu estava sozinha, pagando aluguel, luz, condomínio, comida, com três filhas. Comecei a atrasar as mensalidades. Chegou uma hora em que eu tinha que escolher: ou pagava a mensalidade, ou pagava a luz
A pesquisa ainda revela que a probabilidade de uma mulher, sem filhos, completar o ensino superior é 112% maior do que entre mães de crianças. No que tange à evasão, segundo levantamento da Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), em 2022, aproximadamente 3,5 milhões de estudantes deixaram as universidades. Desse total, 41% eram mulheres. Entre mães solo, a situação é mais crítica, pois, além da ausência de apoio estrutural, elas lidam com uma renda anual 32% menor em comparação com outras mulheres, de acordo com a plataforma Diversitrack, da Diversitera, que coleta e analisa dados sobre representatividade, diversidade e equidade no mercado de trabalho. A evasão, nesses casos, não costuma ser uma escolha, mas o resultado direto de um esgarçamento progressivo das condições de permanência dessas mulheres.


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Veja o que já enviamosAlguns anos depois, conheceu Renato, homem com quem viria a ter as suas outras duas filhas, Fernanda e Rafaela. Confiante em recomeçar, contou que conheceu o ex-marido durante a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), em 2003 — ele era um dos fiscais da prova. “Fiquei na praça de alimentação da faculdade onde fazia a prova, ele veio conversar comigo e a gente trocou telefone.” O relacionamento com Renato perdurou por 14 anos. Ela conta que saiu de casa e foi morar com ele em Vila Isabel, bairro onde vive até hoje com as filhas. No entanto, encontrou forte resistência justamente quando expressava seus próprios desejos. “Ele achava um absurdo quando eu falava em fazer faculdade”, relembra.
Mãe com três filhas e o desafio da faculdade
Em outubro de 2016, Jacqueline se separou. O processo foi desgastante e arrastado, o divórcio ainda corria na Justiça quando ela decidiu, no ano seguinte, aos 36 anos, se matricular no curso de História, na Estácio, em modalidade a distância (EAD). “Foi a forma que eu encontrei de começar de novo. Fiz minha matrícula numa faculdade particular porque sabia que não ia conseguir fazer o Enem. Fiquei muito tempo sem estudar, né?”, explica.
A nova fase, marcada por expectativas e vontade de retomada, logo esbarrou na realidade. Na época, Jacqueline morava de aluguel e era a única responsável pelas três filhas: uma criança de dois anos, uma pré-adolescente e uma jovem quase adulta. Trabalhava como gerente em uma joalheria no Shopping Rio Sul, abrindo e fechando a loja diariamente. “Eu chegava em casa por volta das onze da noite. Dava uma horinha de atenção para as meninas até dormirem, e começava a estudar depois da meia-noite para, no dia seguinte, acordar às seis”, relembra. O cansaço não demorou a aparecer. Físico e emocional. “Começava a assistir e já estava batendo cabeça, dormindo”.
Ainda me sinto fracassada como mãe. Será que elas são mesmo assim porque têm um dedinho meu? Ou elas são assim porque são? Será que, se eu fosse diferente, elas seriam melhores? Ou não seriam? Eu não sei. Eu faço essas perguntas: se eu sou, ou fui, uma boa mãe
Ainda assim, resistiu. Ela conta que chegou a concluir o primeiro período com desempenho excelente. “Eu fiquei muito feliz porque fui fazer as provas que eram presenciais. Não tive uma nota abaixo de oito.” Ela destaca a questão da presença nas aulas, pois foi um dos aspectos dos quais mais sentiu falta durante a experiência de ensino à distância. “A aula online é boa, é legal, mas não tem a troca que tem na sala de aula, um ambiente muito enriquecedor.”
As dificuldades financeiras, porém, tornaram-se inegociáveis. “Por mais que fosse barato, eu estava sozinha, pagando aluguel, luz, condomínio, comida, com três filhas. Comecei a atrasar as mensalidades. Chegou uma hora em que eu tinha que escolher: ou pagava a mensalidade, ou pagava a luz.” Além das barreiras materiais, Jacqueline também sentia o peso do tempo fora dos estudos.
Voltar a estudar quase duas décadas depois do ensino médio exigia readaptação, esforço e coragem. “Eu já estava com 37 quando voltei. Era muito tempo longe da escola.” A decisão de interromper os estudos não foi apenas prática, mas emocionalmente dolorosa. O sonho da graduação, que por tantos anos foi adiado por causas externas, foi novamente deixado de lado, desta vez, por um conjunto de fatores que nenhuma força de vontade individual poderia superar sozinha: “Tranquei e nunca mais voltei”.


Questão de saúde mental
A evasão da universidade foi apenas a primeira de uma série de rupturas que Jacqueline enfrentaria nos anos seguintes. Ela recorda a sensação de fracasso com o abandono do curso, mas que não vinha, segundo ela, apenas da desistência em si, mas de um acúmulo de inúmeras frustrações durante a vida. “Por mais que eu saiba que a culpa não é minha, você não conseguir concluir uma coisa que você quer muito dá aquela sensação de ‘fracassei de novo’. Eu já vinha de uma sensação de fracasso no casamento, de um ciclo de fracassos”, lamenta. Mas o maior dos medos, desde sempre, era fracassar como mãe. Essa progressiva deterioração na sua saúde mental era mais um dos preços que ela teria que pagar.
De acordo com Halinson Souza, psicólogo graduado pelo Centro Universitário Unifacisa, ex-membro da equipe de psicologia da maternidade do Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (ISEA) em Campina Grande-PB e que hoje atua como psicólogo na Secretaria Municipal de Assistência Social de Pedra Lavada-PB, esse sentimento de fracasso é um dos mais comuns quando se trata de mães solo em situação de vulnerabilidade social. Entretanto, ele enfatiza um aspecto ainda mais devastador, que, de certa forma, surge como uma consequência prática da sensação de culpa e fracasso, a auto retaliação. “Quando você entra nesse ciclo de ter que sacrificar pedaços da sua vida para poder suprir outros locais, você começa a mutilar simbolicamente coisas que não deveria estar mutilando. Você começa a elencar o que é importante para você, e às vezes você se coloca por último. Sacrifica seu lado de indivíduo para se colocar somente como mãe.”
A gente vive num país muito conservador, em que a família afirma que estará com você até você se casar. Depois do casamento, os problemas passão a ser seus e da sua família. É o velho ditado de que em briga de marido e mulher não se mete a colher
No que tange aos impactos psíquicos da maternidade solo, Halinson afirma que eles podem ir muito além de uma ansiedade pontual ou de cansaço físico. “A gente vê muitos casos de transtorno de ansiedade generalizada (TAG), muitos quadros de depressão mista com ansiedade, ou até episódios psicóticos. Algumas mulheres desenvolvem depressão pós-parto e acabam carregando esse sofrimento por anos. Não com os mesmos sintomas, mas com consequências duradouras.” Ele alerta ainda para a gravidade de casos extremos: “Existem mulheres que passam a vida sem nenhum transtorno diagnosticado, mas que, ao engravidar, entram em surtos psicóticos momentâneos, que podem evoluir para quadros de psicose duradoura ou até mesmo transtornos esquizofrênicos.”
O cenário descrito por Jacqueline e embasado teoricamente por Halinson dialoga com uma realidade compartilhada por milhões de mulheres no país. Um levantamento recente conduzido pela plataforma “De Mãe em Mãe”, idealizada pela pesquisadora da Faculdade de Medicina da USP Giliane Belarmino, revelou que 66% das mães classificam sua saúde mental como péssima, ruim ou regular. A pesquisa, realizada com 872 participantes de todas as regiões do Brasil, aponta ainda que 97% relataram sentir sobrecarga que varia de cinco dias a todos os dias no mês, e 94% mencionaram esgotamento no mesmo período. Sentimentos de tristeza (91%), insatisfação (91%) e culpa após comportamentos explosivos (75%) também foram amplamente relatados.
Para além dos dados e dos relatos, experiências traumáticas de mães solo em sofrimento psíquico também impõem desafios específicos à prática clínica. Segundo Halinson, o primeiro passo no acompanhamento psicológico desse público é enxergar a mulher como um indivíduo para além da função materna. “A primeira coisa essencial é entender que ela é um ser humano fora da maternidade, pois é exatamente o que não acontece com as outras pessoas. As pessoas veem aquela mulher apenas como alguém que cuida dos filhos sozinha”, afirma.
Para ele, o trabalho terapêutico precisa começar pela humanização dessa figura que, socialmente, é frequentemente reduzida à responsabilidade pelos filhos e à obrigação de dar conta de tudo sozinha. Essa redução simbólica também afeta a escuta clínica, sendo, portanto, também necessário partir do princípio de que a narrativa de uma mãe solo pode acessar vivências traumáticas a qualquer momento. “Durante a conversa sobre a gravidez e todo o contexto, pode aparecer um trauma. Quando ela for falar sobre a família e os entornos, pode aparecer um trauma. Ou seja, é preciso ter o ponto de vista de que a qualquer momento pode surgir uma situação traumática”, explica.
No caso de Jacqueline, o tempo que passou longe da universidade coincidiu com os anos em que mais se distanciou de si mesma e dos outros. “Eu não queria me fazer de vítima, mas era a sensação que eu tinha. Minha mãe foi embora, meu pai também. O pai da Thay foi meu primeiro namorado, me casei, deu errado. Me dediquei à empresa, e nunca fui reconhecida”, ela conta com a força de alguém cuja dor já lhe escapava pelos olhos e lhe obstruía a voz. Quando perguntada se o sentimento de fracasso vinha de um lugar de abandono, ela respondeu que sim.
Mãe: abandono e falta de redes de apoio
Dificuldades materiais e extrema sobrecarga são consequências normalmente imediatas de uma maternidade conturbada, porém, a ausência de uma rede de apoio nem sempre está nos planos de mulheres que passam por essa fase da vida, ainda que ela se manifeste, inclusive, em outros momentos da vida. Quando Jacqueline, por exemplo, decidiu compartilhar com o então marido a decisão de iniciar a faculdade, sua expectativa era de incentivo. “Pelo contrário. Quando falei que ia fazer faculdade, ele respondeu: ‘Tá de sacanagem? Faculdade uma hora dessa?’”, relembra. Ela caracteriza a reação como um balde de água fria, pois estava envolvida com alguém que eu achava que dava muito valor à educação. “Quando contei que me matriculei, achei que ia ficar feliz. Ele falou: ‘É sério começar faculdade nessa altura da vida? Você tem que trabalhar, tem as meninas para sustentar.’” Ela conta que a única fonte de apoio afetivo real veio das próprias filhas. “A Thay e a Fernanda disseram: ‘Ai, mãe, que legal’. A Fernanda ainda brincava: ‘Imagina você sendo minha professora?’”.
Para Halinson, essa realidade está longe de ser um caso isolado. “A gente vive num país muito conservador, em que a família afirma que estará com você até você se casar. Depois do casamento, os problemas passão a ser seus e da sua família. É o velho ditado de que em briga de marido e mulher não se mete a colher”, analisa. Ele explica que o impacto da falta de apoio vai além do abandono escolar e enfatiza que esse conservadorismo está diretamente relacionado a situações de dependência emocional e à perpetuação de vínculos tóxicos, por exemplo. “Isso é crucial para o desenvolvimento de casos de dependência emocional. A gente vê casos extremos disso. E quando isso acontece, torna-se um ciclo vicioso de toxicidade que não é visto pela sociedade, muito menos pela família. Essa mulher certamente se vê numa posição de isolamento, ainda que a família esteja presente apenas fisicamente.”
No caso de mães solo, esse isolamento assume contornos ainda mais complexos. “O sentimento de solidão vem de uma forma diferente. Às vezes, o relacionamento acabou, mas não foi bem resolvido. A família está ali, mas não oferece amparo. É um paradoxo: a sensação de que sua família não está com você, mesmo estando”, observa Halinson.
Eu amo minhas filhas, falo isso para elas todos os dias. Não consigo imaginar minha vida sem elas. Só que eu não quero que elas sejam mães. Não quero que passem por essa experiência. Sonho um monte de coisas junto com elas. Mas não acho a maternidade uma experiência boa. Acho uma prisão, uma cobrança. É muito difícil
Jacqueline viveu isso de forma concreta. Não pôde contar com familiares, amigos ou parceiros para dividir a rotina ou os custos, também não encontrou na faculdade a compreensão necessária para a sua realidade. “É muito mais fácil encontrar mães solo na faculdade particular do que na pública, porque nenhuma delas tem condição de estudar o dia inteiro pra passar”, ela afirma. A escolha pela universidade privada foi, portanto, menos por opção e mais por ausência de alternativas, o tempo disponível era curto demais para apostar na preparação exigida por vestibulares concorridos, dentro do contexto de sobrecarga em que ela estava inserida.
“A universidade poderia ter um papel de apoio integral a essas mulheres. Existem plantões psicológicos em algumas instituições, mas será que eles dão conta das complexidades de uma mãe solo?”, questiona Halinson. Ele lembra de uma experiência positiva em sua antiga instituição de ensino, que firmou uma aliança com uma maternidade pública local. “A proposta era levar estudantes para lá, para que pudessem entender as particularidades da maternidade. Seria muito benéfico se as universidades abraçassem esse público, que é muito maior do que se pensa. Esse tipo de ação não pode se restringir apenas à conscientização.”
Nesse cenário, as universidades públicas, por outro lado, demonstram ações mais numerosas com relação às mães estudantes. Embora pontuais, algumas iniciativas caminham nessa direção. A Universidade Federal do Pará (UFPA), por exemplo, passou a oferecer o “Auxílio Primeira Infância”, voltado a estudantes responsáveis por crianças de até cinco anos e em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A Universidade Estadual do Piauí (UESPI), por sua vez, anunciou, em junho de 2025, uma parceria com o “Pacto pelas Crianças do Piauí”, iniciativa do governo estadual que visa promover o desenvolvimento integral e o bem-estar das crianças, com foco na primeira infância. O programa prevê o pagamento de R$ 300 mensais por até dois anos para universitários com filhos pequenos.


Screenshot de Jorge Fernando
Seguir em frente, porque sim
A vida de Jacqueline segue exigente. Ela ainda vive com as três filhas em idades e fases distintas e desde que se desligou da joalheria em que trabalhou por anos e afirma nunca ter sido valorizada, ela passou a investir em um pequeno negócio de marmitas congeladas, o “Alecrim”, que tem sido sua fonte de renda. A filha mais velha, Thaynara, formou-se em contabilidade e abriu também um pequeno negócio de doces. A filha do meio, Fernanda, cursa Farmácia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a caçula, com 10 anos, frequenta o ensino fundamental.
Mesmo diante das conquistas das filhas e da retomada de seus próprios planos, Jacqueline ainda carrega dúvidas profundas. “Ainda me sinto fracassada como mãe. Será que elas são mesmo assim porque têm um dedinho meu? Ou elas são assim porque são? Será que, se eu fosse diferente, elas seriam melhores? Ou não seriam? Eu não sei. Eu faço essas perguntas: se eu sou, ou fui, uma boa mãe.” Essa reflexão, de certa forma, revela como a maternidade se faz inseparável de questionamentos sobre identidade e responsabilidade numa sociedade já acostumada a sobrecarregar mulheres com incertezas sobre si mesmas desde os primeiros anos de idade.
Para Jacqueline, o nascimento de um filho redefine a vida de forma irreversível. “A sua vida nunca mais é só sua.” Parte dessa transformação se materializa de forma sóbria e relativamente paradoxal: um amor puro e incondicional, mas que não necessariamente compensa todo o sofrimento ao qual se submete para conquistá-lo. “Eu amo minhas filhas, falo isso para elas todos os dias. Não consigo imaginar minha vida sem elas. Só que eu não quero que elas sejam mães. Não quero que passem por essa experiência. Sonho um monte de coisas junto com elas. Fernanda quer ser pesquisadora, Thaynara tem os sonhos dela. Mas não acho a maternidade uma experiência boa. Acho uma prisão, uma cobrança. É muito difícil.” Por essa perspectiva, enxergamos como a maternidade, muitas vezes envolta em ideais de plenitude e realização, também pode significar renúncia, peso e cobrança.
Entretanto, em meio a esse novo momento, algo inesperado aconteceu. Um dia, ao chegar em casa, foi surpreendida por uma apresentação improvisada na televisão da sala. As três filhas haviam montado um slide com argumentos para convencê-la a embarcar em uma velha-nova jornada de vida: a volta aos estudos. Sensibilizadas com a história da mãe, elas tomaram a iniciativa de juntar dinheiro e pagar não só a matrícula no ENEM, como também num curso pré-vestibular para que ela pudesse estudar, com o objetivo de cursar Gastronomia na UFRJ.
A sugestão da área, inclusive, veio delas. Jacqueline confessa que jamais teria pensado nessa possibilidade. “Até o momento em que as meninas fizeram aquilo, eu não esperava voltar para a faculdade. Foi a iniciativa delas. Eu nunca nem tinha pensado em Gastronomia, elas que me mostraram essa possibilidade e eu fiquei encantada. Elas me inscreveram no Enem, num curso, e isso me deixou muito feliz. Saber que elas acreditam tanto no meu potencial. Agora eu estou tentando por mim e por elas.”
Jacqueline tenta reconstruir parte do que ficou pelo caminho. As filhas não apenas ofereceram incentivo, mas se dispuseram a reacender uma possibilidade até então esquecida. O sonho universitário do qual a mãe abriu mão. Com mais de duas décadas de interrupções e renúncias, ela decide tentar, mesmo com as limitações que o tempo impôs. E, talvez pela primeira vez, por um motivo simples e definitivo: porque sim.
(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.
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Jorge Fernando Benevides
Jorge Fernando é estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Morador, nascido e criado na Rocinha, é apaixonado por música, futebol, meio ambiente e cinema de gênero. Acredita no jornalismo como meio de eternizar histórias e pessoas.






































