A epidemia dos cigarros eletrônicos preocupa Anvisa

Consumo de dispositivos cresce entre jovens, apesar de importação e comercialização serem proibidas no Brasil desde 2009

Por Camila Iglesias | ODS 3 • Publicada em 10 de janeiro de 2020 - 08:07 • Atualizada em 7 de abril de 2020 - 11:13

Manifestante consome cigarro eletrônico em protesto contra a possível proibição do produto nos EUA (Foto deManifestante consome cigarro eletrônico em protesto contra a possível proibição do produto nos EUA (Foto de Jose Luis Magana / AFP/9-11-2019))

Manifestante consome cigarro eletrônico em protesto contra a possível proibição do produto nos EUA (Foto deManifestante consome cigarro eletrônico em protesto contra a possível proibição do produto nos EUA (Foto de Jose Luis Magana / AFP/9-11-2019))

Consumo de dispositivos cresce entre jovens, apesar de importação e comercialização serem proibidas no Brasil desde 2009

Por Camila Iglesias | ODS 3 • Publicada em 10 de janeiro de 2020 - 08:07 • Atualizada em 7 de abril de 2020 - 11:13

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cigarros eletrônicos
Manifestante consome cigarro eletrônico em protesto contra a possível proibição do produto nos EUA (Foto deManifestante consome cigarro eletrônico em protesto contra a possível proibição do produto nos EUA (Foto de Jose Luis Magana / AFP/9-11-2019))

O Brasil tem leis rigorosas sobre o uso de cigarros e, por isso, pode parecer improvável que o consumo de tabaco volte a se tornar uma epidemia no país. Apesar de os malefícios do cigarro à saúde, porém, a tecnologia aliada à desinformação faz com que o tabaco volte à moda em diversos países do mundo, principalmente entre os jovens. São os cigarros eletrônicos, também conhecidos como e-cigs ou vapes, que já movimentam milhões de dólares no mercado internacional. Sua comercialização é proibida no Brasil, mas o produto é vendido clandestinamente. 

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Os dispositivos parecem pen-drives e produzem um vapor inalável de nicotina quase sem odor, compatível com refil de diversos sabores. A líder do setor é Juul Labs, que, desde 2017, vem revolucionando o mercado de produtos de tabaco, atraindo jovens abaixo de 25 anos, com investimento em publicidade e flavorizantes que mascaram o gosto do tabaco. A empresa esperava lucrar US$ 3,4 bilhões em vendas em 2019, quase o triplo do ano anterior. A expectativa é ambiciosa, já que a Juul vem sofrendo com diversos processos, alertas e proibições em diversos países do mundo, como Israel, Índia e Estados Unidos, por meio do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Em janeiro, a Agência de Drogas e Alimentos de Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) anunciou que a partir de fevereiro não serão permitidas as vendas dos refis com outros aromas que não o tabaco e o mentol, a menos que tenham obtido uma autorização específica das autoridades.

Está tão fácil o acesso no Brasil que as pessoas não sabem que é proibido. Nos Estados Unidos pode, na Europa é liberado, e eles acham que aqui também é

Adriana Gioda
Professora PUC-Rio

Os Estados Unidos é o país mais afetado pela nova epidemia. Autoridades do CDC já registraram, no mínimo, 12 mortes e 800 internações por doenças pulmonares causadas pelo fumo dos cigarros eletrônicos. O crescimento é recente e rápido: uma pesquisa do governo americano, publicada em outubro de 2018, mostrou o aumento de 641% nas vendas de produtos Juul, de 2,2 milhões para 16,2 milhões de dispositivos vendidos de 2016 para 2017. 

O levantamento mostra também que 3,6 milhões dos usuários americanos ainda estão na fase escolar. Para atender melhor os pacientes que chegam aos hospitais, médicos americanos estão sendo orientados a mudar as perguntas feitas na anamnese. “Se perguntam para um jovem se ele fuma, ele vai responder que não. Eles se consideram vapers, e o ato de fumar estaria relacionado somente ao cigarro tradicional”, conta Gisele Birman Tonietto, doutora em química e professora da PUC-Rio.

cigarros eletrônicos
O dispositivo da marca Juul e o aviso de que o produto causa danos à saúde (Foto de divulgação)

Dispositivo chega a custar R$ 300

No Brasil, a comercialização e importação dos produtos é proibida desde 2009 quando foi publicada a RDC Nº 46 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Porém, é possível encontrar os dispositivos à venda em contas de Instagram e em sites como Mercado Livre. Um Juul, que custa US$ 15 nos Estados Unidos, chega a ser vendido por R$ 300 em comércios brasileiros. Além do vape em si, o usuário ainda precisa comprar um carregador e os refis.

“Está tão fácil o acesso no Brasil que as pessoas não sabem que é proibido. Nos Estados Unidos pode, na Europa é liberado, e eles acham que aqui também é”, diz Adriana Gioda, também professora de química da PUC-Rio. A Anvisa orienta que denúncias sobre a venda ou propaganda de produtos contrabandeados podem ser feitas aos seus canais de atendimento. Porém, segundo o órgão, os estabelecimentos físicos são fiscalizados pelas vigilâncias sanitárias estaduais e municipais, que também podem receber denúncias. Sobre os sites e páginas que comercializam os produtos, a Anvisa afirma que monitora a internet regularmente e que, desde 2017, já retirou 727 anúncios de Dispositivos Eletrônicos para Fumar do ar. 

O mais comum é que jovens consigam os dispositivos e os refis por meio de amigos e conhecidos que viajam muito ao exterior e trazem para o Brasil. A estudante de Administração Beatriz Carvalho, de 20 anos conheceu o Juul por meio de seu ex-namorado, que estuda nos Estados Unidos e trouxe o produto quando veio de férias em 2018. Depois disso, Beatriz comprou seu próprio vape e consegue os refis no Brasil com um amigo que sempre traz de fora e revende. 

O maior mito sobre os cigarros eletrônicos é o de que eles não fazem mal

Gisele Birman Tonietto
Professora PUC-Rio

“Hoje eu fumo muito em casa quando vejo série, em festas e na faculdade porque não deixa cheiro. Depois que vi as notícias dos casos nos Estados Unidos, pensei em diminuir o uso, mas é muito difícil porque é uma coisa que já faz parte da minha rotina”, conta Beatriz.

“O maior mito sobre os cigarros eletrônicos é o de que eles não fazem mal”, alerta Gisele, que, junto com Adriana, já deu diversas entrevistas, palestras e organizou seminários para discutir os perigos do cigarro eletrônico e a epidemia que preocupa autoridades de saúde em todo o mundo. 

Os vapes são vendidos com a promessa de que são menos nocivos que o cigarro tradicional, com a intenção de serem usados por fumantes que querem um produto com nicotina que tenha menos toxinas. Porém, a própria Juul foi autuada pela Food and Drug Administration (FDA), órgão que regula e controla alimentos e medicamentos nos Estados Unidos, por fazer propaganda dos produtos dizendo que são completamente seguros, sem ter nenhuma pesquisa científica que prove a afirmação.

cigarro eletronico
Centenas de usuários de “vapers” protestam contra restrições à propagando do produto na Espanha (Foto Antonio Navia/NurPhoto)

Não há como comprovar segurança

Por ser uma epidemia muito recente e a tecnologia dos dispositivos mudar constantemente, ainda não há estudos que comprovem que os e-cigs ajudem a diminuir o consumo de nicotina. A última pesquisa feita pelo Ministério da Saúde, por meio do Instituto Nacional do Câncer (Inca), em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e a Anvisa em 2016, concluiu que não há como atestar a segurança dos dispositivos por falta de evidências científicas. 

A estudante de Direito Julia Lattouf fumava cigarro socialmente e começou a usar o Juul porque ouvia que fazia menos mal. “Quando percebi, estava fumando o vape em situações em que eu não fumaria cigarro tradicional, como quando estou sozinha em casa, porque eu acreditava que era mais seguro”, conta. A jovem diz que quando viu as notícias dos casos de morte e internação nos Estados Unidos, percebeu que era a mesma situação do cigarro há anos atrás. “Na época em que meus pais começaram a fumar, ninguém sabia das consequências. Só saberemos dos efeitos do cigarro eletrônico a longo prazo. Conheço muitas pessoas que nunca fumaram cigarro e, hoje, fumam Juul o dia inteiro”, afirma.

Anvisa avalia regulamentação

A proibição está em vigor no Brasil há dez anos, mas a Anvisa está realizando discussões sobre a regulamentação dos cigarros eletrônicos no país. Debates e audiências públicas já estão acontecendo, e são ouvidos médicos e pesquisadores e a indústria do tabaco. “Esse debate já estava na agenda da Anvisa há dois ou três anos, mas não estavam com muita pressa. Agora, eles viram que perderam o controle e aceleraram essa discussão pública”, diz Adriana. 

As duas professoras e pesquisadoras têm representado a PUC-Rio nos debates públicos e alertam para os perigos da falta de regulamentação dos produtos. “Enquanto não se regulamenta, se encontra de tudo. Problemas são mais prováveis com produtos de fundo de quintal, com baterias de procedência desconhecida, que podem explodir a qualquer momento, ou essências misturadas sem fiscalização. Quando não tem regulamentação, não há controle de qualidade”, enfatiza Adriana. 

A necessidade da regulamentação vai além do fim da compra e venda ilegal, já que dispositivos produzidos sem controle podem ser uma ameaça ainda maior para a saúde. A nicotina presente em ambos os cigarros tradicional e eletrônico pode não estar relacionada ao câncer, mas é importante entender que é uma droga psicoativa que causa dependência e danos ao corpo. 

Os vapes têm menos toxinas que cigarros os tradicionais, mas por causa da falta de pesquisas conclusivas não é possível afirmar o quanto mal fazem à saúde. “Quando não se sabe como aquilo vai ser queimado, gera uma infinidade de produtos químicos que podem ser cancerígenos”, explica Adriana. Por exemplo, dispositivos de alta voltagem que atingem altas temperaturas sem controle podem transformar os componentes propileno glicol e glicerol, presentes em quase todos os líquidos de vapes, em substâncias cancerígenas como o formaldeído. 

Em setembro de 2019, a Anvisa solicitou que 252 hospitais e profissionais de saúde, além do Conselho Federal de Medicina (CFM), relatassem problemas relacionados ao uso de cigarros eletrônicos, vaporizadores e cigarros de tabaco aquecido. Com a medida, a Agência pretende reunir informações para prevenir uma crise epidêmica no Brasil, como tem enfrentado os Estados Unidos.

Camila Iglesias

ornalista formada pela PUC-Rio. Com interesse em movimentos jovens, internet e atualidades, já desbravou o mundo da tecnologia e dos esportes eletrônicos. Agora, quer conhecer o mundo em busca de novos desafios.

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