Blandine Umuziranenge em curso para confeccionar absorventes: novas narrativas para unir menstruação e informação em Ruanda (Foto: Divulgação)

Blandine Umuziranenge em curso para confeccionar absorventes: novas narrativas para unir menstruação e informação em Ruanda (Foto: Divulgação)

Blandine: narrativas reescritas para unir menstruação e informação em Ruanda

Blandine: narrativas reescritas para unir menstruação e informação em Ruanda

Por Camila Batista ODS 3ODS 4

Como cultura e diálogo estão ajudando a quebrar tabus e ampliar o acesso à saúde menstrual no país africano

Publicada em 27 de abril de 2026 - 10:14 • Atualizada em 27 de abril de 2026 - 11:59

“Minha mãe andava descalça, mas conhecia cada centímetro da terra.”  – Scholastique Mukasonga

Quem já encontrou nas palavras de Scholastique Mukasonga um retrato de Ruanda feito de memória, dor e resistência? Foi através das histórias narradas por ela que nasceu em mim uma grande curiosidade de conhecer melhor o país. 

As personagens que ela cria, tão vívidas e encantadoras, me fizeram pensar imediatamente em Blandine, cuja própria trajetória parece pedir para ser transformada em livro. 

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Ruanda é um país de colinas: pequeno em extensão territorial, mas profundo em complexidade. Sem saída para o mar e localizado próximo à linha do equador, surpreende pelo clima ameno, resultado de sua elevada altitude. O território é marcado por uma paisagem cativante, com montanhas, vulcões e o Lago Kivu, que desenha parte da fronteira com a República Democrática do Congo.

É um lugar onde saberes ancestrais seguem vivos, ao mesmo tempo em que ainda ecoam as marcas do Genocídio Tutsi, massacre ocorrido em 1994, no qual cerca de 800 mil pessoas, em sua maioria pertencentes à minoria tutsi, foram brutalmente assassinadas em um período de aproximadamente 100 dias. A reconstrução do país, nesse contexto, vai além da infraestrutura: ela se dá sobretudo no campo das relações e das experiências humanas.

Blandine (à direita) com estudantes de escola em Ruanda e absorventes distribuídos pela Kosmotive: enfrentamento da pobreza menstrual (Foto: Divulgação)
Blandine (à direita) com estudantes de escola em Ruanda e absorventes distribuídos pela Kosmotive: enfrentamento da pobreza menstrual (Foto: Divulgação)

Nesse processo, as mulheres desempenham um papel central: são guardiãs do passado, agentes de cura e protagonistas na reconstrução do tecido social.

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Nesse contexto, não posso deixar de mencionar Esther Mujawayo, socióloga e escritora ruandesa, que ampliou minha compreensão do que significa sobreviver e reconstruir em Ruanda. Ela é uma voz central no pensamento sobre o pós-genocídio, transformando o testemunho das viúvas de 1994 em escuta e elaboração social. Em sua obra, a reconstrução da vida não é individual, mas coletiva, sustentada por redes de apoio entre mulheres que enfrentaram juntas perda, trauma e reinvenção do cotidiano. 

Nosso trabalho envolve meninas, mas também meninos. Inclui pais, escolas e comunidades. Cria espaços seguros para perguntas, inclusive anônimas, por meio de plataformas digitais. E utiliza ferramentas inesperadas: filmes traduzidos para a língua local, poesia, humor e arte. Tudo para tornar possível o que antes era impensável: falar sobre o corpo sem vergonha

Blandine Umuziranenge
Empreendedora social e profissional de tecnologia da informação

Blandine Umuziranenge nasceu e cresceu em meio a deslocamentos forçados, retornos e reconstruções. Sua infância foi atravessada pelo Genocídio contra os Tutsi em Ruanda de 1994. Entre perdas e recomeços, cresceu em um país onde os traços do tempo e reconstrução caminham lado a lado, e onde cada trajetória pessoal também carrega a história coletiva do país. 

Ainda criança, viveu o exílio com sua família, retornando posteriormente a Ruanda. Foi no norte do país, na região hoje conhecida como o Distrito de Gicumbi, que iniciou sua educação e desenvolveu um olhar atento para o mundo ao redor.

Sua trajetória foi marcada pela busca de um compromisso com áreas que oferecessem propósito e perspectivas concretas. De um lado, a família sempre enfatizou a importância de uma formação em campos técnicos. Foi nesse contexto que ela decidiu estudar matemática e física e, posteriormente, encontrou na tecnologia da informação um caminho para se especializar.

Por outro lado, sua vivência prática a conduzia em outra direção: menos voltada ao universo quantitativo e exato, e mais ao contato direto com pessoas e suas histórias.

Seus primeiros passos profissionais acabaram se desenvolvendo em um caminho intermediário: ela entrou na rádio e televisão nacionais, atuando na interface com tecnologia. Ainda assim, nesse ambiente de códigos e sistemas, sentia um chamado diferente: o desejo de criar algo que promovesse conexão, compreensão e cuidado, especialmente entre famílias, mulheres e crianças.

“Curioso esse chamado”, eu disse para ela. 

A resposta começou de forma simples. 

Criando. 

Decidiu lançar uma revista digital.

Poucos meses depois, já estava imprimindo. O projeto, inicialmente focado em parentalidade, cresceu rapidamente para temas mais amplos: saúde materna, saúde infantil, bem-estar das mulheres.

Mas de onde veio essa ideia tão “inusitada” de produzir uma revista?, perguntei. 

“Em 2017, durante um programa de formação em escrita, recebi um exercício aparentemente simples: escrever mil palavras. Naquele dia, meu ponto de partida foi uma memória. Algo simples que nem eu sabia que tinha me marcado tanto. Na adolescência, houve um momento que não tive acesso a absorventes. Não por falta de recursos,  mas por negligência, desinformação e ausência de prioridade. Lembro de pedir ajuda para uma pessoa da família e ouvir que aquilo podia esperar. Fiquei muito constrangida, e essa lembrança permaneceu comigo.”

Por isso, naquela atividade do curso, ela quis escrever mil palavras sobre essa experiência. 

“Na época, cheguei a perguntar para minha irmã: Existe uma forma de parar a menstruação?”

Era uma pergunta nascida da vergonha e da falta de informação.

Um sentimento de urgência, impotência e tristeza a atravessava, ainda mais por se tratar de algo que recaía, de forma desigual sobre um grupo específico. 

Blandine na distribuição de absorventes para meninas: cultura e diálogo estão ajudando a quebrar tabus e ampliar o acesso à saúde menstrual em Ruanda (Foto: Divulgação)
Blandine na distribuição de absorventes para meninas: cultura e diálogo estão ajudando a quebrar tabus e ampliar o acesso à saúde menstrual em Ruanda (Foto: Divulgação)

Ao transformar essa experiência em texto, algo maior emergiu. No processo, Blandine se deparou com pesquisas que indicavam uma realidade impressionante: cerca de 18% das meninas e mulheres em Ruanda faltavam à escola ou ao trabalho durante o período menstrual por não terem acesso a produtos de higiene. 

Sua história não era um caso isolado.

Era um sistema.

“Como profissional da tecnologia, eu entendia de sistemas. Eles precisam ser codificados. Por isso a ideia da revista, eu queria falar sobre temas que ninguém tinha falado comigo”. 

A revista nasceu e atuou como um espaço seguro de troca. No entanto, como não tinha um modelo claro de sustentabilidade, ao longo do tempo acabou ficando em segundo plano.

Nesse processo, ela passou a se posicionar também como empreendedora, atuando em outras frentes, ainda dentro do universo de mulheres e famílias. Chegou a trabalhar com moda para gestantes, entre outros projetos relacionados. 

Houve um período em que trabalhou com muitas frentes ao mesmo tempo, mas percebeu que não era mais possível abraçar tudo. Era preciso escolher o que era mais urgente, e em seu coração, essa urgência estava ligada ao texto que havia escrito anos antes. Esse tema, inclusive, já tinha um nome específico no debate público e nas ausentes políticas sociais: pobreza menstrual.

A partir de 2018, decidiu concentrar toda sua energia na criação de soluções concretas. Fundou a Kosmotive, empresa social com a missão de melhorar a saúde reprodutiva, materna e infantil em Ruanda. Desenvolveu produtos menstruais reutilizáveis, construiu uma cadeia de produção local e passou a trabalhar diretamente com comunidades.

O crescimento veio acompanhado de grandes desafios: produção, financiamento, acesso e distribuição. A organização chegou a produzir milhares de absorventes por dia, com equipes dedicadas tanto à fabricação quanto à distribuição comunitária.

Mas o maior aprendizado veio de algo essencial: o produto, sozinho, não resolve. Era preciso mais que acesso. 

Era preciso diálogo.

Era preciso transformar tabu em conversa. 

Nesse momento a ideia da revista retornou como um caminho potente. 

“Falar sobre menstruação, em muitos contextos, ainda é um tabu profundo. Em inglês, o tema pode até parecer mais direto e habitual. Mas, nas línguas locais, ele carrega muito mais peso cultural e, muitas vezes, é envolto em silêncio, vergonha ou eufemismos que dificultam uma conversa aberta.”

Por isso, ela percebeu que seu trabalho deveria ir além do acesso físico. Era fundamental atuar também na construção de uma nova narrativa.

Blandine em evento de poesia no dia da higiene menstrual em Ruanda: reescrevendo narrativas para meninas deixarem de se sentir sozinhas (Foto: Divulgação)
Blandine em evento de poesia no dia da higiene menstrual em Ruanda: reescrevendo narrativas para meninas deixarem de se sentir sozinhas (Foto: Divulgação)

Ruanda é um país de alta densidade populacional, com uma população majoritariamente jovem; mais de 40% dos habitantes têm de 14 a 35 anos. Além disso, há uma forte tradição oral. Isso significa que transformar a percepção sobre um tema passa, necessariamente, por mudar a forma como as conversas acontecem ao redor dele.

Nesse contexto, Blandine, hoje com 36 anos, decidiu desenvolver uma resposta interdisciplinar ao tema. “Nosso trabalho envolve meninas, mas também meninos. Inclui pais, escolas e comunidades. Cria espaços seguros para perguntas, inclusive anônimas, por meio de plataformas digitais. E utiliza ferramentas inesperadas: filmes traduzidos para a língua local, poesia, humor e arte. Tudo para tornar possível o que antes era impensável: falar sobre o corpo sem vergonha.”

Como escreve Natacha Muziramakenga, artista ruandesa, “Meu corpo é também um arquivo do que não foi dito.” Nesse sentido, a memória não é apenas aquilo que se recorda, mas aquilo que permanece inscrito no corpo, nas palavras e nos gestos cotidianos, mesmo quando a violência tentou produzir silêncio.

Blandine reforça que o impacto do seu trabalho não se mede apenas em números.

Se mede em presença.

Meninas que voltam para a escola.

Meninas que deixam de sentir medo antes do período menstrual.

Meninas que passam a entender o próprio corpo.

“E, talvez o mais importante: meninas que deixam de se sentir sozinhas.”

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Camila Batista

Camila Batista Pinto, advogada e ativista pelos direitos das mulheres, é uma empreendedora social brasileira e COO da Migraflix, organização que promove a inclusão social e econômica de migrantes e refugiados na América Latina por meio do empreendedorismo; também preside o Conselho Consultivo da Migration Youth and Children Platform (MYCP), plataforma global oficial de participação juvenil em processos intergovernamentais e no sistema das Nações Unidas, e é conselheira da organização Palhaços Sem Fronteiras Brasil

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