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Veja o que já enviamosInstituto Papo Reto, no Alemão: 12 anos dando a letra sobre as formas de ativismo
Com apoio da Open Society Foundations, documento publicado pelos ativistas sistematiza trajetória que transformou trauma em inteligência política
A força de um território não se mede pela espessura das fardas que o ocupam, mas pela densidade das redes que o sustentam. No Complexo do Alemão, um dos conjuntos de favelas mais emblemáticos do país, a sustentação atende pelo nome de Papo Reto. O que o Estado e o asfalto frequentemente rotulam como “improviso”, os moradores batizaram de reconhecimento: uma tecnologia ancestral de sobrevivência que agora ganha rigor e método no documento “12 anos dando o Papo Reto: formas de ativismo no Complexo do Alemão”.
Lançado com o apoio da Open Society Foundations, o texto sistematiza uma trajetória que transformou o trauma em inteligência política. Para entender como o coletivo se tornou o Instituto Papo Reto sem perder o pulso das ruas, o #Colabora conversou com Lana de Souza e Raull Santiago, vozes que há mais de uma década pautam o debate público a partir do “saber de cria”.


Do barro à Instituição: a gestão como resistência
A gênese dessa história remete à mobilização das chuvas de 2013. Naquela época, o grupo percebeu que a “potência no improviso” era o único recurso disponível diante de um Estado inerte. Em 2024, a transição para Instituto formalizou a capacidade, onde a estrutura jurídica é, acima de tudo, um escudo estratégico. “A mudança para Instituto foi um movimento para mostrar à sociedade que a favela tem planejamento e gestão. Mas o Papo Reto se entende como movimento mesmo sendo instituição. Nossa autonomia nasce de não depender da validação externa e de manter os pés no território. A memória de cada beco segue viva porque nossa equipe tem raiz periférica e uma rede local que nos dá o ‘papo reto’ sempre que necessário”, afirma Raull Santiago.
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Veja o que já enviamosSe no início registrar violações era o ato básico de denúncia, o avanço da vigilância tecnológica e do controle armado exigiu uma sofisticação tática. O conceito de “comunicação de guerrilha” evoluiu de um ato reativo para uma metodologia de proteção digital e física. “Hoje, comunicação de guerrilha não é só sobre filmar; é sobre proteger quem filma”, explica Raull. “A leitura de risco precede o registro. Não basta gravar, é preciso proteger dados, fontes e identidades. Entendemos que resistência também é estratégia: a imagem vira prova e pressão, mas não existe narrativa sem quem esteja vivo para contá-la. O cenário mudou, e a nossa inteligência também”.
O pioneirismo do Calendário de Tiros provou que o monitoramento feito por quem vive o cotidiano é mais preciso que qualquer sensor externo. Esse “olhar de dentro” foi capaz de pautar o STF na ADPF 635, transformando a vivência em prova técnica incontestável.
“Sempre soubemos que nosso olhar era diferente pelo compromisso com a comunidade, e não pelo espetáculo da violência”, pontua Lana. “Ver esses dados pautando o Supremo e a Corte Interamericana confirma que a favela não é objeto de estudo, mas sujeito político. Mostramos que quem vive a realidade também produz dados fundamentais para qualquer política pública funcionar de verdade.”
Foi em outro momento de crise – durante a pandemia – em que criaram um Gabinete de Crise do Alemão, provando que a favela conseguia operar logísticas que o próprio Estado falhou em executar.
Lana recorda o aprendizado desse período: “O Gabinete consolidou nossa capacidade de atuação em rede com parceiros como o Voz das Comunidades e o Mulheres em Ação. Tivemos que combater o vírus, a fome e as operações policiais ao mesmo tempo. Isso provou que a organização da favela é o que garante a dignidade quando o poder público se omite. É essa força organizada que levamos para os espaços de decisão agora.”
O nexo entre o fuzil e a lama: racismo ambiental
Recentemente, o Instituto levou essa discussão para a COP 30, conectando a falta de saneamento básico e as enchentes à violência armada. Para o Papo Reto, o racismo ambiental é o fio condutor de um projeto de negligência. Raull é enfático ao conectar as agendas: “No Alemão, o esgoto a céu aberto e a presença do fuzil não são problemas separados, são expressões da mesma lógica de controle sobre corpos periféricos. A crise climática na favela já chegou faz tempo. Ela vem na forma da água que invade a casa e da infraestrutura que nunca chega. O racismo ambiental nomeia o que a favela sempre soube: a ausência do Estado mata, às vezes com bala, às vezes com lama.”
Mesmo sob o peso de tragédias recentes, como a chacina de outubro de 2025 — a maior da história do Rio —, o Instituto vislumbra um futuro onde a favela não seja apenas o cenário da tragédia, mas o escritório das soluções. “A incidência política periférica passou a ser estratégia de sobrevivência”, conclui Raull. “O papel do Papo Reto agora é transformar o que documentamos em pressão concreta sobre o Estado. Não dá mais para a favela ser apenas pauta de crise; precisamos ser sujeitos de decisão. Enquanto decidirem sobre nós sem nós, a violência vai seguir se repetindo.”
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