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Tragédia em Juiz de Fora: ocupação urbana em áreas de risco triplicou no Brasil


Estudo do MapBiomas aponta que avanço em áreas mais suscetíveis a deslizamentos foi concentrado em regiões de Mata Atlântica, como a Zona da Mata de Minas


As áreas urbanizadas em altas declividades aumentaram mais de 3 vezes nas últimas quatro décadas, indica levantamento do MapBiomas: em 1985 eram 14 mil hectares; em 2024, 43,4 mil hectares. Desse total, 40,5 mil hectares destas áreas de risco estão em territórios urbanos da Mata Atlântica, como a região de Juiz de Fora e Ubá – na Zona da Mata mineira – onde 72 pessoas morreram após os temporais nos últimos dias de fevereiro.
Leu essa? Adaptação ou cada vez mais mortes com a crise climática
Dados atualizados sobre o mapeamento anual das áreas urbanizadas no Brasil entre 1985 e 2024, que o MapBiomas lança nesta quarta-feira (04/03) mostram que esta rápida e recente urbanização do Brasil ocupou muitas áreas que podem estar sujeitas a riscos – seja pela declividade acentuada, que favorece a erosão e deslizamentos, seja pela proximidade a áreas de drenagem, onde a probabilidade de ocorrência de enchentes é mais alta.
O processo de urbanização de Minas Gerais, o segundo estado com maior área urbanizada do Brasil, desafia permanentemente a geografia. O avanço da urbanização sobre relevos acentuados é um padrão muito forte na Zona da Mata, onde se localiza Juiz de Fora
Nas últimas quatro décadas, as áreas urbanas no Brasil em geral cresceram 2,5 vezes, passando de 1,8 milhão de hectares em 1985 para 4,5 milhões de hectares em 2024, ou 0,5% do território nacional – um aumento médio de cerca de 70 mil hectares ao ano. “A expansão das cidades tem que ser pensada no contexto do risco e das mudanças climáticas, que afetam a todos, mas, em especial, incidem de forma mais dramática em áreas mais sensíveis e vulneráveis, onde a ocupação tem acontecido de forma mais acelerada do que o ritmo da urbanização total”, destaca a urbanista e arquiteta Mayumi Hirye, uma das coordenadoras do mapeamento de áreas urbanas do MapBiomas.
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Veja o que já enviamosEm Juiz de Fora, a tragédia causada pela chuva na última semana de fevereiro deixou 65 mortos – a maioria vítimas de desabamentos e deslizamentos em áreas de encostas – e mais de 8,5 mil desabrigados e desalojados. A vizinha Ubá registrou sete vítimas fatais. “O processo de urbanização de Minas Gerais, o segundo estado com maior área urbanizada do Brasil, desafia permanentemente a geografia. O avanço da urbanização sobre relevos acentuados é um padrão muito forte na Zona da Mata, onde se localiza Juiz de Fora”, aponta a também urbanista Talita Micheleti, da equipe de mapeamento de áreas urbanizadas do MapBiomas.
Minas Gerais é o estado com a maior área urbanizada em alta declividade no Brasil. Entre 1985 e 2024, essa área triplicou, chegando a praticamente 14,5 mil hectares. Juiz de Fora, por sua vez, é a terceira cidade com maior área de urbanização em terrenos acima de 30% de inclinação no país, atrás apenas das cidades de Rio de Janeiro e São Paulo. Entre 1985 e 2024, essa ocupação aumentou 2,3 vezes: eram 547 hectares, chegando a 1.256 hectares em 2024. “Os dados mostram que Juiz de Fora reflete esse problema de forma extrema: embora seja uma cidade média, hoje já é a terceira cidade do país com maior ocupação urbana em áreas de encostas e risco potencial”, acrescenta Micheleti.
De acordo com o MapBiomas, em termos proporcionais, Rio Grande Sul e Santa Catarina foram os estados com maior crescimento de urbanização em alta declividade Rio de Janeiro e São Paulo também tiveram crescimentos expressivos. Em 1985, os municípios com mais áreas urbanizadas em regiões de alta declividade eram Rio de Janeiro (1,16 mil hectares), Belo Horizonte (900 hectares) e São Paulo (730 hectares). Em 2024, a liderança continua com o Rio de Janeiro (1,7 mil hectares), porém São Paulo assumiu a vice-liderança (1,5 mil hectares) e Juiz de Fora subiu para a terceira posição (1,3 mil hectares), à frente de Belo Horizonte (1,2 mil hectares).


Áreas urbanizadas próximas a drenagens aumentam 145%
Outro indicador de exposição a risco ambiental é a diferença vertical entre a superfície do terreno urbanizado e a linha de drenagem natural mais próxima, ou seja, um curso d’água (um rio ou um regato, por exemplo). O MapBiomas analisou as áreas com diferença de até três metros, que podem indicar áreas de risco, mais vulneráveis a enchentes, alagamentos e inundações e descobriu que elas aumentaram 145% nos últimos 40 anos, passando de 493 mil hectares em 1985 para 1,2 milhão de hectares em 2024.
O caso do Rio de Janeiro é lente de aumento sobre o padrão brasileiro: os dados indicam que a expansão das favelas ocorreu de forma expressiva em áreas topograficamente e hidrologicamente sensíveis, com crescimento proporcionalmente elevado tanto em encostas quanto em cotas muito próximas à drenagem
Rio de Janeiro e São Paulo respondem pelo primeiro e segundo lugares no ranking dos municípios com maior área urbanizada com até três metros de altura da drenagem mais próxima, tanto em 1985 (18,18 mil hectares e 17,03 mil hectares, respectivamente) como em 2024 (25,62 mil hectares e 19,11 mil hectares).
Na análise, com áreas com até 3 metros de altura da drenagem mais próxima em comparação com o território do estado, a liderança é de Roraima, onde 46,4% da área urbanizada está em situação de vulnerabilidade a enchentes. Em 2º lugar vem o Rio de Janeiro, com 43%, seguido pelo Amapá, com 37,6%. “Historicamente, as cidades se estabeleceram junto a corpos d’água. Diante do aumento do número de eventos extremos e do conjunto de funções cumpridas por áreas de várzea e planícies alagáveis, é importante monitorar a expansão de áreas urbanizadas em margens fluviais buscando conservar o ambiente e a qualidade de vida da população”, aponta Edimilson Rodrigues, da equipe de mapeamento de áreas urbanizadas do MapBiomas.


Favelas em áreas de risco
O MapBiomas também calculou a área de favelas que se encontram em terrenos com alta declividade. Eram 2.266 hectares em 1985 e 5.704 hectares em 2024 – um aumento de mais de 150% (3.438 hectares). Rio de Janeiro lidera, com 1.730 hectares, seguido por São Paulo (1.061) e Minas Gerais (1.057). Também cresceu a área de favelas em áreas a menos de 3 metros de distância vertical de áreas de drenagem. O aumento foi de mais de 200% entre 1985 e 2024 (+30.160 hectares). Em 1985 eram 15.847 hectares; em 2024, 45 mil hectares. Pará (7.450 hectares), Rio de Janeiro (5.260 hectares) e São Paulo (4.650 hectares) lideram o ranking dos estados com maiores áreas nessa condição.
O Rio de Janeiro se destaca por reunir uma das maiores proporções do país de áreas urbanizadas em cotas críticas – 43% até três metros – e, ao mesmo tempo, um dos maiores valores absolutos de área urbanizada nessa faixa de altura, com cerca de 1,1 milhão de hectares de urbanização próxima à drenagem em 2024. “O caso do Rio de Janeiro é lente de aumento sobre o padrão brasileiro: os dados indicam que a expansão das favelas ocorreu de forma expressiva em áreas topograficamente e hidrologicamente sensíveis, com crescimento proporcionalmente elevado tanto em encostas quanto em cotas muito próximas à drenagem”, ressalta o geógrafo Julio Pedrassoli, um dos coordenadores do mapeamento de Áreas Urbanizadas do MapBiomas.
Entre 1985 e 2024, as áreas de favelas cresceram mais de 2,75 vezes – mais que o ritmo de expansão das áreas urbanizadas (2,5 vezes) no Brasil. Eram 53,7 mil hectares de área urbanizada em favelas no Brasil em 1985; em 2024, 146 mil hectares. Os dados mostram o crescimento anual da área urbanizada dentro dos perímetros de favelas e comunidades urbanas, conforme a delimitação oficial do IBGE.
Existe um descompasso entre o crescimento das cidades e a disponibilidade de água. O fato de 1.325 municípios terem ampliado sua mancha urbana nessas condições revela que o problema é estrutural e nacional. Não é apenas uma questão de risco. A disponibilidade de água em escassez para consumo humano já é uma realidade em muitas épocas do ano nas grandes metrópoles brasileiras, como a cidade de São Paulo
Manaus lidera o ranking de áreas urbanizadas em favelas tanto em 1985 como em 2024, com um crescimento de 2,6 vezes no período. Ela é uma das capitais da região Norte que, junto com as do Nordeste, ocupam o topo do ranking das 10 maiores áreas urbanizadas em favelas no Brasil: 7 em 1985 e 8 em 2024, com a entrada de Teresina (10a posição). O Rio de Janeiro, que ocupava a vice-liderança em 1985, com 3,6 mil hectares, caiu para a quinta posição em 2024, com 5,3 mil hectares. Apesar disso, o aumento nesse município foi de quase 1,5 vezes. São Paulo, por sua vez, subiu da quarta posição (3,1 mil hectares) para a terceira (6 mil hectares) – um aumento de 1,9 vezes.
Os dados mostram que favelas são um fenômeno tipicamente metropolitano. Em 2024, as Regiões Metropolitanas abrigavam 82% de toda a área urbanizada em favelas no Brasil. Em 1985, essa concentração era ainda mais expressiva: apenas 13% estavam fora de regiões metropolitanas.
“O crescimento mais acelerado das áreas de favelas em comparação com a média nacional e sua forte concentração em regiões metropolitanas sugerem uma tendência conhecida e preocupante, onde as metrópoles concentram muita riqueza mas também intensificam problemas estruturais e, frente às mudanças climáticas em curso, se acende um sinal de alerta”, alerta Julio Pedrassoli.


Rovena Rosa / Agência Brasil – 09/12/2019)
Região Metropolitana de São Paulo lidera em área de favelas
Em 2024, a região metropolitana de São Paulo é a que possui maior área urbanizada em favelas: 11,8 mil hectares. As regiões metropolitanas de Manaus (AM) e Belém (PA) têm áreas ligeiramente menores (11,4 mil hectares e 11,3 mil hectares, respectivamente), porém que representam mais de um terço de toda a área urbanizada desses municípios.
Brasília, por sua vez, destaca-se por abrigar as favelas que mais cresceram nos últimos 40 anos. Das cinco favelas que mais expandiram sua área de ocupação entre 1985 e 2024, quatro delas estão na capital federal. Se estas quatro favelas do Distrito Federal somadas fossem um município, a sua área urbana expandida nas últimas quatro décadas seria superior ao crescimento de 95% de todas as áreas urbanizadas do Brasil.
Duas delas – Sol Nascente e 26 de Setembro – ocupam o primeiro e o segundo lugares das maiores favelas do Brasil, com 599 hectares e 577 hectares, respectivamente. “A concentração das maiores expansões recentes no Distrito Federal, associada à sobreposição com áreas classificadas como de menor segurança hídrica, aponta para uma dinâmica de crescimento territorial acelerado em contextos ambientalmente mais restritivos. Isso representa risco não apenas para as populações que ocupam estas áreas por falta de outra opção adequada, mas também para a população das cidades como um todo”, destaca Julio Pedrassoli.
De toda a expansão urbana brasileira sobre áreas naturais (670 mil hectares), 25% ocorreram em áreas de segurança hídrica crítica (mínimo mais baixo), afetando 1.325 municípios. Em cinco estados brasileiros, mais de 70% do crescimento da urbanização entre 1985 e 2024 ocorreu em áreas de segurança hídrica crítica: Alagoas, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe.
O município do Rio de Janeiro foi o que apresentou o maior crescimento absoluto de urbanização em condições mínimas de segurança hídrica: 7,6 mil hectares entre 1985 e 2024, equivalente a 11 mil campos de futebol. “Existe um descompasso entre o crescimento das cidades e a disponibilidade de água. O fato de 1.325 municípios terem ampliado sua mancha urbana nessas condições revela que o problema é estrutural e nacional. Não é apenas uma questão de risco. A disponibilidade de água em escassez para consumo humano já é uma realidade em muitas épocas do ano nas grandes metrópoles brasileiras, como a cidade de São Paulo”, lembra Julio Pedrassoli.
Brasil: 60% do crescimento urbano nos últimos 40 anos
Áreas urbanizadas caracterizam-se pela predominância de edificações (residenciais, comerciais, industriais) e infraestrutura (ruas pavimentadas, calçadas, redes de serviços). Elas tiveram um aumento médio de cerca de 70 mil hectares ao ano entre 1985 e 2024. Mais da metade (60%) do crescimento da área urbanizada no Brasil (2,75 milhões de hectares) se deu a partir de 1985. Mais de 680 mil hectares urbanizados em 2024 eram áreas naturais em 1985; outros 1,84 milhão de hectares já estavam antropizados, de uso agropecuário. O crescimento urbano sobre agropecuária foi 2,7 vezes maior do que o crescimento urbano sobre áreas naturais.
Todos os estados brasileiros, com exceção do Rio de Janeiro, mais que duplicaram sua área urbanizada nas últimas quatro décadas. Neste período Alagoas, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Sergipe, Rio Grande do Norte e Paraíba triplicaram sua área urbanizada. São Paulo, por sua vez, foi o estado com maior incremento de área urbanizada: 470 mil hectares. Em 1985, os municípios com maior área urbanizada eram São Paulo (77,6 mil hectares), Rio de Janeiro (44 mil hectares) e Belo Horizonte (24,1 mil hectares). Em 2024, São Paulo manteve a liderança (90,5 mil hectares), porém Brasília saiu do quinto lugar ocupado em 1985 (21,1 mil hectares) para o segundo lugar (62,7 mil hectares) do ranking, seguida pelo Rio de Janeiro (59,7 mil hectares).
Em 2024, quase a metade (49,7%) da área urbanizada do país (2,3 milhões de hectares) está em alguma das 84 regiões metropolitanas atualmente instituídas no país. A região metropolitana com maior crescimento percentual nas últimas quatro décadas é Palmas, no Tocantins: 414%. Em segundo lugar está a Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno, com 291%. Em 1985, mais da metade (55,2%) da área urbanizada brasileira (cerca de um milhão de hectares) estava concentrada em nove regiões metropolitanas instituídas àquele ano: Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.
A expansão urbana ocorrida nas quatro décadas entre 1985 e 2024 não reflete o crescimento demográfico registrado no período. Nos últimos 40 anos, o crescimento das áreas urbanizadas no Brasil (2,4% ao ano) foi mais que o dobro do crescimento populacional (1,1% ao ano). Predomina no país uma tendência de crescimento urbano espraiado com baixa densidade populacional. “Considerando a tendência brasileira de transição de população do meio rural para o urbano, iniciada ainda na segunda metade do século XX, a forma como as cidades se expandem para acomodar esse processo é crucial, tanto para a qualidade do espaço urbano, como para minimizar a conversão de áreas naturais para urbanizadas”, explica Talita Micheleti, da equipe de mapeamento de áreas urbanizadas do MapBiomas.
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Oscar Valporto
Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade






































