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Seremos transumanos imortais?

Enquanto os defensores do transumanismo fazem apologia de uma raça superior, Steve Jobs nos deixa uma lição: ‘A morte é o agente de mudança da vida’

O sonho de criar o homem novo já forneceu belas obras épicas e grandes tragédias. Foto VHB / Science Photo Library
O sonho de criar o homem novo já forneceu belas obras épicas e grandes tragédias. Foto VHB / Science Photo Library

O segredo da eterna juventude finalmente está sendo revelado e a morte pode deixar de ser a única certeza da vida. As pessoas serão capazes de atingir a imortalidade e o ser humano pode deixar de ser humano e se transformar em um ser superior: o transumano imortal. Quem diz tudo isso são os teóricos da singularidade tecnológica, que acreditam na vida eterna e na criação de uma raça mais avançada, que seria formada pela junção biônica de homens e máquinas. O novo ser, transumano imortal, seria fruto dos avanços científicos e tecnológicos da Revolução 4.0, potencializados pela Inteligência Artificial (IA). Realmente há quem acredite nessas ideias futuristas e na transformação profunda e disruptiva na capacidade do corpo e da mente. Mas também há aqueles que, com temor, veem com preocupação os passos que estão sendo tentados nesta direção.

Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – cai diante da morte, deixando apenas o que é importante. (…) a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo

Steve Jobs
Criador da Apple

Aumento da esperança de vida

Primeiro vejamos alguns dados e fatos históricos. Durante milênios as pessoas morriam cedo “como mariposas”, mas segundo Angus Maddison (2008), o tempo médio de vida da maior parte da população mundial, que estava em torno de 24 anos no início do século XIX, subiu para 30 anos em 1900 e ultrapassou 70 anos no início do século XXI. Houve uma duplicação da esperança de vida ao nascer, nos últimos 100 anos. Sem dúvida, foi uma conquista espetacular.

O que possibilitou essa duplicação inédita na esperança de vida ao nascer foi a extraordinária queda da mortalidade infantil. Num espaço de cerca de 100 anos a taxa de mortalidade infantil que estava acima de 300 mortes por mil nascimentos caiu para menos de 30. Portanto, o aumento da esperança de vida da população mundial ocorreu devido à maior sobrevivência das crianças e nem tanto pelo aumento da longevidade.

Jeanne Calment, falecida em 1997, com a idade recorde de 122 anos, teve a vida mais longa já registrada. Foto Georges Gobet/AFP
Jeanne Calment, falecida em 1997, com a idade recorde de 122 anos, teve a vida mais longa já registrada. Foto Georges Gobet/AFP

O número de supercentenários (indivíduos com mais de 110 anos) tem crescido no mundo. Mas pouquíssimas pessoas ultrapassam os 115 anos. A francesa Jeanne Calment, falecida em 1997, com a idade recorde de 122 anos, teve a vida mais longa já registrada. Na história, somente 10 pessoas (todas mulheres), comprovadamente, ultrapassaram a idade de 117 anos e apenas 17 ultrapassaram os 116 anos.

A ideia de que existe um teto máximo para a vida foi referendada por um artigo recente publicado na prestigiosa revista científica Nature (Dong, Milholland e Vijg, 05/10/2016). O estudo mostra que os avanços médicos têm aumentado a esperança de vida ao nascer, mas a longevidade quase sempre se esbarra no teto de 115 anos. Segundo os autores, para superar este limite seria preciso mudar toda a estrutura genética da espécie humana. Porém, o processo de envelhecimento é tão complexo que não seria possível mudar substancialmente as bases biológicas da constituição do ser humano.

A Divisão de população da ONU estima que a esperança de vida ao nascer da população mundial será de 82,6 anos em 2100. A ONU não trabalha com a hipótese da imortalidade, pois a possibilidade de vida eterna não passaria de uma miragem.

Viver mil anos

Mas não é o que pensa o biogerontologista inglês Aubrey de Grey, que discorda da ideia de que a morte e o envelhecimento serão sempre, no limite, imperativos fatais. Para ele, o envelhecimento é uma doença que pode ser curada. Com o avanço da ciência e da tecnologia, em pouco tempo, qualquer pessoa que consiga evitar um acidente ou homicídio poderá viver, pelo menos, mil anos.

Em palestra para o Ted Talk (2005), De Grey argumenta que o corpo humano, assim como uma máquina, sofre desgastes em função dos efeitos colaterais naturais de seu metabolismo. Esses desgastes se acumulam ao longo do ciclo de vida, provocando doenças e incapacidades. Mas esse processo pode ser revertido. Ele propõe uma terapia para rejuvenescer o corpo humano, a partir de um conjunto de técnicas chamadas de “Estratégias para Programar um Envelhecimento Mínimo” (SENS, em inglês). De Grey diz que a pessoa que vai viver 150 anos já nasceu.

Em entrevista recente ao jornal Folha de São Paulo (05/04/2017), De Grey reafirma que a medicina regenerativa permitirá a substituição de órgãos, de células e moléculas. A bioengenharia possibilitará intervenções a nível microscópico para aumentar a sobrevida humana e reduzir a senescência. Num futuro não muito distante, viver mil anos pode se tornar um fato corriqueiro.

Nessa direção, a revista científica Nature (julho de 2017) publicou um artigo relatando a descoberta de que a velocidade do envelhecimento do corpo é controlada por um conjunto de células-tronco neurais do hipotálamo. O hipotálamo é a região do cérebro que regula o crescimento, a reprodução e o metabolismo do corpo. A descoberta, feita em camundongos, possibilitará o tratamento de doenças relacionadas ao envelhecimento, permitindo aumentar o tempo de vida (ou prolongá-la indefinidamente).

Alcançar a vida eterna

Este tipo de descoberta reforça os sonhos do cientista Raymond Kurzweil, que prevê a possibilidade de se alcançar a vida eterna. Ele escreveu o livro, “A medicina da imortalidade”, onde defende a ideia da miscigenação entre o ser humano e as máquinas, o que possibilitará um aumento exponencial da longevidade. Kurzweil prevê o desenvolvimento de três grandes revoluções sobrepostas, agrupadas na denominação “GNR”: Genética, Nanotecnologia e Robótica. Cada uma delas propiciaria aumentos dramáticos da longevidade humana.

Para ele, a biotecnologia ofereceria os meios para alterar os genes, rejuvenescendo todos os tecidos e órgãos do corpo, transformando as células da pele em versões jovens de qualquer outro tipo de célula. A nanotecnologia e a robótica permitiriam superar os limites da biologia e substituir bionicamente partes do corpo com um substancial aperfeiçoamento do organismo.

No livro “The Singularity Is Near” (2005) Kurzweil defende a ideia da junção da Inteligência Artificial (IA) com a biotecnologia, a genética, a nanotecnologia, a revolução digital e a robótica para modificar completamente a vida e a forma de convivência no Planeta. Ele considera que haverá um ponto de mutação definido como “Singularidade”, termo emprestado da física, que corresponde a um ponto em que acréscimos finitos no tempo irão conduzir a um potencial científico e tecnológico infinito.

A imortalidade seria viabilizada pela “clonagem terapêutica”, por meio do desenvolvimento e aperfeiçoamento das próprias células, tecidos e até órgãos inteiros. Um dos maiores benefícios desta técnica seria viabilizar a medicina do rejuvenescimento, utilizando células tronco. Para Kurzweil, seria possível criar novas células do coração a partir da pele e reintroduzi-las no corpo, através da corrente sanguínea. Com o passar do tempo, as células do coração seriam substituídas pelas novas células, resultando em um coração rejuvenescido com o próprio DNA.

Transumano

Portanto, para Ray Kurzweil, o rápido desenvolvimento da ciência e da tecnologia da Revolução 4.0, em especial nas áreas de nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciências cognitivas (NBIC, na sigla em inglês), estão antecipando os cenários da ficção científica, prometendo eliminar as doenças, o envelhecimento e até a morte.

Desfrutando de maior “liberdade morfológica”, as NBICs poderiam viabilizar a transformação da condição humana, por meio de próteses, engenharia genética e novas capacidades cognitivas. As interfaces cérebro-computador poderiam se conectar à inteligência artificial avançada. Nanobots (robôs à escala de um nanômetro) poderiam percorrer a corrente sanguínea para monitorar a saúde e melhorar as propensões emocionais de alegria, amor ou outras emoções pessoais. Os avanços nas diferentes áreas se reforçariam, possibilitando uma convergência que poderá trazer mudanças radicais na condição humana.

Assim, o transumanismo defende a ideia de que os seres humanos podem transcender seu estado natural atual, superando suas limitações por meio do uso da tecnologia e da evolução autodirigida. Se a história do progresso tecnológico pode ser vista como a tentativa da humanidade de domar a natureza para melhor atender suas necessidades, o transumanismo seria a continuação lógica, ou seja, a revisão da natureza da humanidade para melhor servir suas fantasias.

Segundo David Pearce, um dos principais proponentes do transumanismo e cofundador da “Humanidade+” (Humanity Plus), os avanços tecnocientíficos vão permitir modificar o corpo e a mente do homem, indefinidamente, deixando em segundo plano a evolução biológica. Ele diz que, se quisermos viver no paraíso, teremos que fazer uma reengenharia em nós mesmos. Se queremos a vida eterna, precisaremos reescrever o código genético e transformar-nos em uma raça superior. Para Pearce, a compaixão por si só não é suficiente para construir um mundo melhor. Somente as adequadas soluções de alta tecnologia poderão erradicar o sofrimento do mundo.

A distopia do transumanismo

Desta forma, os transumanistas apostam na superação dos limites da constituição física do ser humano e nas possibilidades infinitas da pós-humanidade. Eles defendem o aperfeiçoamento científico das características biológicas humanas para criar um ser mais feliz, saudável, poderoso e longevo. Acreditam no prolongamento contínuo da esperança de vida, no aperfeiçoamento dos circuitos do cérebro e no uso da robótica, nanotecnologia, inteligência artificial e de outras técnicas para aperfeiçoar a espécie humana.

Assim como foram criados os alimentos geneticamente modificados, teríamos o humano geneticamente modificado, acrescido de uma inteligência superior e imortal. Para os professores da Universidade da Singularidade (Singularity University), o transumano será, necessariamente, melhor do que o humano.

Porém, existe sempre o perigo de uma utopia virar distopia. O Dr. Victor Frankenstein, há 200 anos, tentou “brincar de Deus” e dar vida a um novo ser, mas acabou criando um “monstro” que foi rejeitado pela humanidade e gerou muito sofrimento para todas as pessoas envolvidas na experiência do estudante da Universidade de Ingolstadt, como mostrado na ficção de Mary Shelley.

Dadas as complexidades técnicas para se alterar a constituição física e mental do ser humano, as possibilidades de erros e de resultados indesejáveis são enormes. Em geral, é sempre muito difícil prever todos os efeitos colaterais da aplicação da alta tecnologia e da química. Os desafios para se chegar ao transumanismo imortal seriam excepcionais e os problemas inimagináveis.

Outro questionamento é sobre a elite tecnocrática esclarecida que terá o poder de manipular os valores e o caráter das pessoas, por meio de alterações genéticas, com finalidades nem sempre transparentes. A possibilidade de manipulação e intrusão da privacidade é enorme. Por exemplo, governos autoritários podem criar exércitos de super-homens transumanos com finalidade bélica. Ou, então, podem instituir mecanismos de supercontrole, numa reedição pós-moderna do Panóptico (penitenciária ideal, que permite a um único vigilante observar todos os prisioneiros), tal como já analisado por Michel Foucault.

Mesmo no caso de sucesso, a experiência transumana não está livre de questionamento, pois ressuscita a ideia de “eugenia positiva”, que é a melhoria das qualidades raciais das atuais e das futuras gerações, em termos físicos e mentais. Evidentemente, este processo poderá abrir diversas fissuras sociais e colocar os problemas raciais na ordem do dia dos conflitos.

Se no Ocidente existem muitos pruridos em relação às tecnologias de edição de genoma, como CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats), no Oriente é diferente, pois os centros de fertilidade da China estão promovendo grandes investimentos para aumentar o diagnóstico genético de pré-implantação (PGD, na sigla em inglês), que é um procedimento utilizado pelos médicos para editar os genes dos embriões fornecidos pelos casais submetidos a fertilização in vitro, como mostra a revista Nature (16/08/2017).

O filósofo “bioconservador”, Francis Fukuyama, é um crítico ferrenho do transumanismo e da “eugenia positiva”, pois considera que as tecnologias de melhoramento humano são desumanizantes. Para ele, a preservação da natureza do Homo sapiens é uma condição essencial da defesa da dignidade humana e dos direitos humanos. Alterar a natureza biológica e mental, modificaria drasticamente o estatuto ontológico humano, colocando em risco todo o arcabouço prático e jurídico da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e de seus desdobramentos jurídicos e sociais. Além disso, a criação de uma “raça superior” (transumana) feriria a ordenação liberal e a ordem internacional e multilateral, colocando em xeque o princípio universal de que todos os indivíduos são iguais perante a lei.

“Todos os homens são mortais”

Simone Beauvoir, no livro “Todos os homens são mortais” escreveu sobre a angústia e o desespero do Rei de Carmona que bebeu um elixir da imortalidade, vivendo, ficcionalmente, mais do que os mil anos sonhados por De Grey. Narrando a vida de um imortal, Beauvoir questiona os temas inerentes à natureza humana, tais como a ambição, o poder, o prazer, o destino e a transcendência, mostrando que a imortalidade pode não ser tão boa quanto parece e a morte pode ser uma bênção.

Evidentemente, não se trata de idolatrar e antecipar o fim da vida. Sem dúvida, a mortalidade infantil é um mal. O óbito violento (homicídios, acidentes de trânsito, etc.) é um mal. Mas a morte natural deveria ser vista como um bem, que a natureza, inteligentemente, criou para renovar a vida. Sem a renovação não haveria evolução das espécies.

Na minha opinião, os adeptos do transumanismo imortal deveriam aprender, filosoficamente, com o grande inovador tecnológico e o gênio por trás da concepção do computador Macintosh e do iPhone que foi Steve Jobs (1955-2011), criador da Apple. Em discurso de formatura, para os alunos da Universidade de Stanford, em 2005, quando já estava diagnosticado com um câncer de pâncreas que lhe abreviaria a vida, Jobs disse:

“Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – cai diante da morte, deixando apenas o que é importante. (…) a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo”.

Um mundo mais desigual e dominado por super-homens transumanos?

O transumanismo é uma perspectiva de superação das limitações da natureza humana, por meio do melhoramento biotecnológico. É a tentativa da humanidade de transcender a si mesma e de criar homens superiores. Sonhos assim já desaguaram em pesadelos.

Friedrich Nietzsche defendia a ideia de super-homens capazes de vencer as doenças, a fraqueza e o medo. A vontade de poder era a força por trás da criação de grandes personagens, que deveriam se guiar pela “moral de mestres” e não pela “moral de escravos”. Porém, não por culpa de sua filosofia, os super-homens nietzschianos, na prática, desaguaram na calamidade nazista.

Como serão os super-homens transumanos imortais? Dá para imaginar o poder da biotecnologia genética nas mãos dos “supremacistas brancos”, que mostraram a cara na cidade norte-americana de Charlottesville? Como ficará o resto da humanidade, aquela parte que for excluída e a que não aceitar participar desta experiência frankensteiniana da singularidade da Inteligência Artificial?

Existem vários perigos, tais como o surgimento de um conflito racial de grandes proporções e um aumento ainda maior das desigualdades sociais. Provavelmente a capacidade de modificar os genes seria privilégio de uma classe com grande poder aquisitivo e que, por meio da segmentação genética, se reproduziria em uma elite de filhos mais inteligentes, mais saudáveis e mais longevos do que o resto da população. Mas, mesmo na hipótese de universalização do transumanismo imortal, os problemas não estariam eliminados.

Atualmente nascem cerca de 140 milhões de crianças no mundo. Se estas crianças viverem mil anos em média, a população mundial iria a 140 bilhões de habitantes. Se essas crianças forem imortais, o montante populacional cresceria exponencialmente. Em qualquer cenário, o modelo econômico teria que dar um salto na produtividade e haveria necessidade de mudança completa no sistema previdenciário. O impacto no meio ambiente seria incomensurável. Ou seja, mesmo que fosse possível criar transumanos imortais, as disjunções econômicas, sociais e ambientais colocariam desafios de difícil solução.

O sonho de criar o homem novo já forneceu belas obras épicas e grandes tragédias. A modernidade tecnocientífica está sempre testando os limites e as possibilidades do fogo prometeico. Mas, a prudência diz que criar uma nova raça de humanos – os transumanos imortais – é, literalmente, brincar com o fogo. E é grande a probabilidade de alguém se queimar seriamente nessa brincadeira.

O Jovem Frankenstein, filme de Mel Brooks,1974. Foto Gruskoff / Venture Films
O Jovem Frankenstein, filme de Mel Brooks,1974. Foto Gruskoff / Venture Films

Escrito por José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. Professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do IBGE.

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