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O capitalismo pode salvar o capitalismo?

Novo modelo econômico tornaria o mundo menos desigual e mais sustentável

Rifkin aposta que o epicentro de uma revolução mundial é a China, entre razões está o investimento em energia renovável. Foto Chang kong /Imaginechina
Rifkin aposta que o epicentro de uma revolução mundial é a China. Entre as razões está o investimento em energia renovável. Foto: Chang kong /Imaginechina

A economia mundial vai dando sinais de desaquecimento, a produtividade diminui em cada região do mundo e o desemprego continua alto em todo canto. E a previsão é que teremos mais 30 anos de baixa produtividade e crescimento lento.

Depois de duas revoluções industriais, houve conquistas. Cerca de 50% da população mundial se encontra muito melhor do que antes delas. O problema é que o restante não está. Cerca de 40% dela ainda recebe dois dólares por dia, ou menos. E a desigualdade entre ricos e pobres se encontra em seu mais alto ponto na história da humanidade. Hoje, a fortuna de 62 pessoas mais ricas do planeta equivale à metade da riqueza acumulada dos outros humanos que nele habitam.

Precisamos de uma nova visão econômica do mundo. Ela tem de ser atraente e ter um mapa que seja navegável. E precisamos de rapidez tanto nas nações em desenvolvimento quanto naquelas desenvolvidas. Temos de cortar todo o carbono em 30 anos

Jeremy Rifkin
Economista

As políticas de austeridade impostas pelo neoliberalismo em sua face mais severa, como as praticadas no momento no Brasil, apenas aprofundam esse fosso.

Agora, à beira de uma Terceira Revolução Industrial, as soluções para a sobrevivência do capitalismo parecem ineficazes, se observados os paradigmas de costume. Mas, argumenta-se, as mesmas ferramentas que tornam possível esta revolução bastam para salvar o sistema de um desastre?

No centro desta mudança está a internet. Comunicações, energia, transportes e logística digitais, já em acelerado estado de implantação, forneceriam a estrutura para um novo modelo econômico, no qual a desigualdade seria diminuída, e dentro do qual a humanidade se sentiria mais realizada.

Utopia? Não para Jeremy Rifkin, economista americano presidente da Fundação de Tendências Econômicas, baseada em Washington, e autor de 20 livros sobre o impacto de mudanças científicas e tecnológicas na economia. Rifkin trabalha como conselheiro para a liderança do Parlamento Europeu e foi assessor de diversos chefes de estado, incluindo Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. Toda esta bagagem o credencia como principal arquiteto do plano de longo prazo de sustentabilidade da Terceira Revolução Industrial, para fazer frente ao triplo desafio: crise econômica global, segurança energética e mudança do clima. (Um filme sobre o trabalho de Rifkin estreou este ano no Tribeca Film Festival).

A mudança do clima acelera a perda de espécies na Terra, e no final do século pelo menos uma em cada seis delas estará em risco de extinção. A ameaça é mais pronunciada em certas áreas sensíveis. Alguns cientistas já chamam o fenômeno de sexta extinção em massa, e ele deverá ter impactos ainda não calculados sobre a economia, mas certamente de grande magnitude.

A tecnologia 5G está na base desse novo desenho de futuro. Foto Zhu lan / Imaginechina
A tecnologia 5G está na base desse novo desenho de futuro. Foto: Zhu lan /Imaginechina

Seu plano vem sendo aplicado nas regiões metropolitanas de Amsterdã e Haia, na Holanda, em um projeto de colaboração que envolve 300 representantes de diversos setores econômicos, entidades profissionais, institutos de pesquisa e organizações da sociedade civil. O processo colaborativo resultou em um estudo de 534 páginas divulgado em novembro passado.

E não só lá. Inspirada nele a União Europeia divulgou recentemente o plano “Europa Inteligente”, que enfatiza uma nova estrutura de internet 5G, energia renovável e transporte automatizado sem motorista, tudo rodando na chamada Internet da Coisas. Regiões da França e Luxemburgo já começaram a fazer a transição e há mesmo um projeto semelhante sendo implantado na China.

Como nos recorda a história, a primeira revolução industrial começou no final do século 19 na Grã-Bretanha, com a mecanização da indústria têxtil. A segunda veio no começo do século 20, quando Henry Ford inaugurou a linha de montagem, abrindo caminho para a produção em massa.

A China tem três ativos que a podem posicionar, junto com a Europa, como líder. Possui as mais amplas reservas de recursos para energia renovável no mundo, com o grau mais alto de radiação solar, e o índice mais alto de ventos em suas costas

Jeremy Rifkin
Economista

A terceira revolução, em curso, se dá pela convergência de diversas tecnologias: softwares mais inteligentes, novos materiais, novos processos, notadamente a impressão em três dimensões, e uma ampla gama de serviços baseados na web. Ford dizia que compradores de carro poderiam comprá-los em qualquer cor, desde que fossem pretos. Hoje, eles são totalmente customizáveis.

A velha maneira de fabricar coisas dependia de aparafusar ou soldar peças. Agora, um produto pode ser desenhado por computador e “impresso” em uma impressora de três dimensões, que cria um objeto sólido ao aplicar camadas sucessivas de materiais. A impressora funciona sozinha, e faz muitas ações complexas demais para uma fábrica tradicional. Em breve, se poderá criar quase tudo em quase qualquer lugar.

Rifkin quer um plano que fuja dos atrasos de políticas federais e que dê ao público, negócios e autoridades locais o poder que possa efetuar mudanças na economia real.

O economista chamou a atenção da China no ano passado, depois de a agência de notícias chinesa Xinhua ter revelado que o premier Li Keqiang é um fã de seus escritos, e instruíra aos especialistas em planejamento econômico do país que os lessem também. A edição de A Terceira Revolução Industrial vendeu lá 300 mil cópias.

E Rifkin aposta que o epicentro de uma revolução mundial é a China, por diversas razões. “O país tem três ativos que o podem posicionar, junto com a Europa, como líder. Possui as mais amplas reservas de recursos para energia renovável no mundo, com o grau mais alto de radiação solar, e o índice mais alto de ventos em suas costas. Além disso, tem quantidades maciças de calor geotérmico sob o solo e imensas quantidades de biomassa de suas áreas rurais”, justifica ele.

Além disso, a China tem uma economia social de mercado como a Europa, um requisito para grandes investimentos em infraestrutura. E, afirma o economista, o mercado não cria bens públicos, e é absurdo pensar que empresas o farão. Não se pode criar a terceira revolução industrial se empresas, investimentos e a comunidade financeira estiverem focados em resultados trimestrais. Ele acredita ainda que a China tem o DNA cultural para a mudança por estar à frente ao enxergar, depois de décadas de predação, a necessidade urgente de conservação dos recursos naturais.

Rifkin prevê décadas de crescimento potencial de empregos para a implementação de seus planos. E pensa que o resultado final apresentará grades de energia descentralizadas que conhecem os padrões de consumo de famílias e empresas, com a geração de energia de pequenas unidades com custo marginal zero. Transporte inteligente, com veículos sem motorista, que apanharão os passageiros e os levarão aos locais de destino. Caminhões de carga cruzando países enquanto coletam dados de condições da estrada e do tempo. Wi-fi de alta velocidade em todos os lugares. E modos de minimizar ou reverter as causas e efeitos da mudança do clima.

“Precisamos de uma nova visão econômica do mundo”, afirma ele. “Ela tem de ser atraente e ter um mapa que seja navegável. E precisamos de rapidez tanto nas nações em desenvolvimento quanto naquelas desenvolvidas. Temos de cortar todo o carbono em 30 anos”.

O “guru” não menciona sobre qual pano de fundo tudo isso vai se desenrolar, com questões importantes como a segurança alimentar, os fluxos de capital, o redesenho das relações de capital e trabalho, ou a necessária desmontagem da desregulamentação do setor financeiro.  Ou como irá se resolver o problema da desigualdade de renda.  Ou mesmo como evitar a financeirização que poderá ocorrer com os créditos de carbono, que fatalmente se tornariam novos derivativos e ocasionariam uma bolha financeira de proporções jamais vistas, e com a possibilidade de fragilizar este sonhado futuro, ou de nem deixar que ele comece a se tornar real.

E mais uma vez, ele repete a velha ladainha do liberalismo: deixem o estado arcar com a infraestrutura e o financiamento de novos setores da economia, para que depois o “mercado” cuide de tudo com maior eficiência. As visões de outros economistas de maior peso acadêmico sobre uma nova forma de capitalismo serão examinadas em um post a seguir.

Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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