O Brasil entrou neste março – consagrado como Mês Internacional da Mulher – acompanhando, chocado e horrorizado, o caso da estudante de 17 anos, vítima de um estupro coletivo, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, um dos mais famosos bairros do mundo. Os autores do estupro são igualmente jovens – um de 17 anos, ex-namorado da adolescente, dois de 18, dois de 19. Já seria horrível e chocante se fosse único: mas não é. Levantamento de um grupo de ONGs identificou 961 casos de mulheres vítimas de violência sexual ou estupro em nove estados brasileiros em 2025, um aumento de 56,6% em relação a 2024.
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A disparada dos casos de violência sexual/estupro alarma os pesquisadores da Rede de Observatórios da Segurança, que reúne organizações de nove estados em torno da pauta dos direitos humanos e da segurança pública. “Isso significa o fracasso da rede de proteção para as mulheres, uma negligência do estado, que torna a violência uma rotina, principalmente para meninas e jovens”, afirma a cientista social Fernanda Naiara, integrante do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), do Ceará, que participa da pesquisa
Mais ainda que o aumento dos casos, a pesquisadora chama a atenção para outra realidade devastadora e cruel, que, mais uma vez remete ao chocante e horrível estupro coletivo de Copacabana. Nos casos de violência sexual e estupro registrados no levantamento, 56,5% das vítimas eram crianças e adolescentes de 0 a 17 anos. “É uma barbaridade que não pode ser normalizada. São meninas as mais vulneráveis, alvos desse avanço do ódio e da misoginia”, desabafa Fernanda Naiara, doutoranda em sociologia pela Universidade Federal do Ceará.
É uma escalada de violência que não pode ser normalizado pela sociedade e pelo poder público
A sexta edição do boletim ‘Elas Vivem: a urgência da vida’, divulgado nesta sexta, 6 de março, às vésperas do Dia Internacional das Mulheres indica que, a cada 24 horas, ao menos 12 mulheres foram vítimas de violência em 2025, nos nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança (Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo). “É uma escalada de violência que não pode ser normalizado pela sociedade e pelo poder público”, acentua a pesquisadora.
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Veja o que já enviamosAo todo, foram registradas 4.558 mulheres vitimadas, um aumento de 9,0% em relação a 2024, de acordo com o documento. “O descaso com a pauta distorce a percepção da realidade: impacta no aumento de casos, encoraja agressores, inibe a denúncia, compromete a eficácia das políticas públicas e o entendimento da gravidade em territórios específicos, perpetuando o ciclo de impunidade”, destaca o texto do boletim de 28 páginas, divulgado pelas organizações.
A cientista social Fernanda Naiara alerta ainda para o alarmante número de casos de violência contra meninas e adolescentes nos estados da Região Norte. “Os números do Amazonas são estarrecedores”, afirma a pesquisadora, destacando que o estado teve o maior número de vítimas de violência sexual e estupro. Mais: das 353 vítimas de violência sexual, 78,4% tinham de 0 a 17 anos. “É um fenômeno que acreditamos ter ligação com o avanço do crime organizado e do narcotráfico”, acrescenta. As 353 vítimas de ataques sexuais são quase o dobro das 191 vítimas de São Paulo, estado mais populoso do país.
No vizinho Pará, o levantamento da rede aponta também alta de 167,4% nos casos de violência sexual e/ou estupro, com 62,8% das vítimas com idades até 17 anos. No total de mulheres vitimas de violência, o Amazonas (com 1023 vitimadas) e o Pará (com 683) ficam atrás apenas de São Paulo (1177, mas com uma população quase 10 vezes maior).
Para além dos registros policiais, os dados da Rede de Observatórios da Segurança são produzidos a partir de um monitoramento diário do que circula nas mídias sobre violência e segurança. As informações coletadas de diferentes fontes são confrontadas e registradas em um banco de dados que posteriormente é revisado e consolidado.
Essa metodologia explica também porque o número de vítimas (4.558) é menor que o número de casos (5.538). “Lamentavelmente, a mesma mulher pode ser vítimas de mais um caso de violência”, afirma Fernanda Naiara, lembrando que, muitas vezes, os criminosos passam da agressão verbal à violência sexual, chegando por vezes ao feminicídio.
Nos nove estados monitorados pela rede, foram contabilizadas 546 vítimas de feminicídio e transfeminicídio em 2025, aumento de 8,9% em relação a 2024. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em todo o Brasil, forma registrados, em 2025, o maior número de feminicídios da última década: foram 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, aumento de 4,7% em relação a 2024, quando houve 1.492 casos, com base nos registros das polícias.
Os suspeitos de sempre da violência contra mulheres
Para não deixarmos de voltar ao estupro coletivo de Copacabana, onde um dos criminosos e o responsável pela atração da vítima ao local do crime foi o ex-namorado, o levantamento da rede aponta que 78,5% das violências contra mulheres e meninas, com autores informados, foram cometidas por companheiros e ex-companheiros. “Este é um padrão que se repete. A violência contra a mulher está sempre próxima; nem mesmo em sua própria casa, ela está segura”, lembra a pesquisadora Fernanda Naiara.
O boletim ‘Elas vivem” destaca que o perfil dos agressores reforça que o perigo para elas reside na proximidade, “em quem deveria oferecer proteção e confiabilidade”. O ambiente doméstico foi responsável por 56,1% das violências em geral – cometidas não apenas por parceiros ou ex-parceiros, mas também por pais, filhos e outros parentes. “Os níveis de proximidade extrapolaram os limites do lar e penalizaram as mulheres pelas mãos de conhecidos (345 casos) e vizinhos (59 casos)”, acrescenta o documento da rede.
As organizações criticam a falta de “dados capazes de subsidiar políticas públicas efetivas” e a negligência na produção de informações sobre as vítimas e seus agressores. “Sem números refletindo a dimensão fiel da barbárie, as ações de prevenção e acolhimento tornam-se reativas e superficiais, falhando em proteger aquelas que, por estarem invisibilizadas pelo sistema, continuam à mercê dos autores dos crimes”, denuncia o boletim ‘Elas Vivem: a urgência da vida’, em sua introdução.
Os pesquisadores do estudo concluem que estados e União precisam de campanhas estruturais de prevenção, para além do modelo de resposta imediata. “Não é mais aceitável limitar o papel do Estado ao acolhimento de vítimas, que não param de ser produzidas. Embora as medidas policiais e judiciais sejam indispensáveis, elas operam apenas quando danos físicos e psicológicos já foram consumados”, aponta o documento.
As organizações cobram ações na educação de base para inserir debates sobre equidade de gênero e resolução não violenta de conflitos nos currículos escolares desde a infância; na desconstrução cultural com a promoção de iniciativas que desafiem os estereótipos de masculinidade tóxica, responsáveis por alimentar o ciclo de dominação e posse; e no engajamento social para mobilizar as áreas de saúde e as redes sociais para identificar precocemente comportamentos de risco, tratando a violência como um problema de saúde pública e não apenas de polícia.
A Rede de Observatórios é uma iniciativa liderada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), do Rio de Janeiro e integrada ainda pelo Coletivo de Pesquisa e Extensão Ilhargas, do Amazonas; a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política de Drogas, da Bahia; o Laboratório de Estudos da Violência (LEV), do Ceará; a Rede de Estudos Periféricos (REP), do Maranhão; o Grupo de Pesquisa Mãe Crioula, do Pará; o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), de Pernambuco; o Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (NUPEC), do Piauí; e o Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP), de São Paulo.
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