Massacre de Eldorado de Carajás, 30 anos: emoção no velório das vítimas do massacre, em Curionópolis (Fotografia de Ripper / Imagens Humanas - abril/1996)

Fiocruz começa a disponibilizar Acervo João Roberto Ripper

Imagens de Eldorado dos Carajás marcam o começo da etapa de disseminação do acervo do fotógrafo consagrado por sua atuação pelos direitos humanos

Por Oscar Valporto | ODS 16 • Publicada em 15 de abril de 2026 - 09:36 • Atualizada em 15 de abril de 2026 - 11:03

Massacre de Eldorado de Carajás, 30 anos: emoção no velório das vítimas do massacre, em Curionópolis (Fotografia de Ripper / Imagens Humanas – abril/1996)

Massacre de Eldorado de Carajás, 30 anos: emoção no velório das vítimas do massacre, em Curionópolis (Fotografia de Ripper / Imagens Humanas – abril/1996)

Imagens de Eldorado dos Carajás marcam o começo da etapa de disseminação do acervo do fotógrafo consagrado por sua atuação pelos direitos humanos

Por Oscar Valporto | ODS 16 • Publicada em 15 de abril de 2026 - 09:36 • Atualizada em 15 de abril de 2026 - 11:03

(Fotos de João Roberto Ripper / Imagens Humanas) – Da perícia, velório e sepultamento das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás à vida e à resistência dos indígenas Guarani Kaiowá, das denúncias de trabalho escravo aos retratos do cotidiano de favelas, periferias e comunidade tradicionais. Durante mais de 50 anos, o fotógrafo João Roberto Ripper vem desenvolvendo um trabalho dedicado à defesa dos direitos humanos e da memória do Brasil. Esse rico acervo está sendo disponibilizado em acesso aberto, de forma acessível e sustentável, através da Fundação Oswaldo Cruz, com objetivo de servir como recurso valioso para pesquisa, educação e conscientização pública.

Especial: O massacre de Eldorado dos Carajás pelo olhar de João Roberto Ripper

O projeto ‘Preservação, Acesso e Disseminação do Acervo João Roberto Ripper’ foi desenvolvido pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), com a colaboração de fotógrafos Breno Lima e Sara Gehren que trabalharam com Ripper ao longo dos anos. Para marcar a disponibilização e divulgação do acervo, os organizadores escolheram exatamente outro marco: os 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, em abril de 1996, quando tropas da PM do Pará atacaram uma marcha de trabalhadores sem terra e mataram 21 camponeses. Ripper fotografou o drama vivido por parentes e sobreviventes, ajudando a sensibilizar sociedade e autoridades sobre a violência no campo.

Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.

Veja o que já enviamos

O #Colabora une-se a essas duas homenagens – à memória das vítimas de Eldorado de Carajás e à trajetória de João Roberto Ripper, que já emprestou suas fotos a reportagens publicadas pelo site. O acervo passou por uma fase de estruturação, com mapeamento do conteúdo e processos de higienização, acomodação e digitalização do material: são aproximadamente 148 mil fotogramas e dezenas de terabytes e arquivos digitais, que serão, aos poucos, disponiblizados na Fiocruz Imagens, plataforma de imagens para pesquisa da fundação que também passa por um processo de reestruturação. As imagens estão sendo digitalizadas (quando necessário), tratadas e catalogadas e, além de ficarem disponíveis em acesso aberto ao público, também ficarão à disposição para uso de entidades de direitos humanos e de trabalhadores e das comunidades tradicionais.

João Roberto Ripper fotografando no Maranhão: olhar humanista e foco nos direitos humanos (Foto: Ana Mendes / Imagens Humanas)
João Roberto Ripper fotografando no Maranhão: olhar humanista e foco nos direitos humanos (Foto: Ana Mendes / Imagens Humanas)

João Roberto Ripper é uma referência no fotojornalismo brasileiro. Ele iniciou sua carreira no jornal Luta Democrática, passando em seguida pelas redações de Última Hora e O Globo, antes de se tornar um dos fundadores da agência F4, em 1985, passando a se dedicar a temas relacionados aos direitos humanos, particularmente a pessoas e comunidades vulneráveis. “A fotografia, a comunicação em geral, é tão direitos humanos”, comentou Ripper, que, aos 73 anos, tem tido sua atuação limitada pelo tratamento da doença de Parkinson, no lançamento do projeto pelo Icict/Fiocruz, há pouco mais de um ano.

Com seu precioso e variado material fotográfico, Ripper, é uma das principais referências no cenário da fotografia documental brasileira. “Quando a gente fala de direitos humanos, a gente tem que ter o poder e a força das denúncias mas a gente não pode deixar de mostrar a beleza: a beleza dos fazeres, dessas histórias, dessas pessoas que vivem na favela, que são, na esmagadora maioria, pessoas boas, que teimam em ser feliz”, disse o fotógrafo no evento de apresentação do projeto Preservação, Acesso e Disseminação do Acervo João Roberto Ripper. “Se você vai para dentro desse Brasil fantástico, se você vai nas comunidades tradicionais, você vai ver novamente a deliciosa teimosia de ser feliz”, acrescentou.

Como diretor da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro, do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro e da Federação Nacional dos Jornalistas, o fotógrafo liderou e coordenou as campanhas pela obrigatoriedade do crédito na fotografia e contratos de direito autoral. Ripper publicou os livro “Imagens Humanas” (2009) e, com Sergio Carvalho, “Retrato Escravo” (2010), livro, com versão digital, elaborado pela Organização Internacional do Trabalho.

João Roberto Ripper também criou a ONG Imagens da Terra, que teve como proposta colocar a fotografia a serviço dos direitos humanos, e foi o idealizador do Projeto Imagens do Povo, uma Agência-Escola de Fotógrafos Populares do Observatório de Favelas, localizada no complexo de favelas da Maré. “Meu sonho é que esse acervo vá além meu acervo particular, que vá aos fotógrafos populares. Não se conta a história do Brasil sem os fotógrafos populares”, disse Ripper no evento da Icict/Fiocruz. Hoje, são mais de 40 fotógrafos oriundos de espaços populares que estão vivendo de fotografia a partir do Imagens do Povo.

Desde 2011, Ripper também desenvolve a oficina Bem Querer onde analisa o trabalho de fotógrafos humanistas e sua importância na quebra de estereótipos e no uso da fotografia como ferramenta de transformação social. Foi a partir desse trabalho que começou a alimentar a ideia de disponibilizar seu acervo através de uma plataforma pública. “Agradeço a Fiocruz por apoiar esse projeto. É uma forma de dizer que venham mais, que se contem mais histórias que não são contadas. Porque as imagens são muito boas, muito fortes, mas imagens com belas histórias fazem as pessoas acreditarem muito mais”, disse Ripper no Icict/Fiocruz, onde repetiu um conselho que repete aos jovens fotógrafos em suas oficinas. “Fotografe sempre com amor e fique com o legado da luta porque você tem que resistir”.

Ripper no #Colabora

Como os temas de fotógrafo e os focos do #Colabora sempre foram comuns, o site publicou várias reportagens, a maioria em parceria com a repórter Lígia Coelho, com fotos de João Roberto Ripper. Em 2019, o #Colabora promoveu uma exposição das imagens de Ripper sobre trabalho escravo na antiga Casa Pública, no Rio de Janeiro.

Outra preocupação do fotógrafo – com as comunidades tradicionais – também foi trazida ao #Colabora, em reportagem mostrando comunidades do Norte de Minas – os quilombolas de Lapinha, no município de Matias Cardoso, os geraizeiros de Riacho dos Machados e populações tradicionais de Grão Mogol e Padre Carvalho – ameaçadas pela grilagem de terras, pela exploração da monocultura do eucalipto, pelas barragens de mineradoras e outros grandes empreendimentos.

No seu objetivo de não ficar apenas na denúncia e mostrar sempre a beleza dessas comunidades, Ripper ajudou a divulgar a atividade das apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, que recebeu o reconhecimento da FAO, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, como Sistema de Patrimônio Agrícola de Importância Global, um título de guardiãs da biodiversidade.

O #Colabora também publicou matéria sobre o livro documental, produzido pela Ação da Cidadania, sobre a fome em tempos de pandemia, com material fotográfico – centrado em 12 comunidades pobres do Rio de Janeiro e Região Metropolitana, entre favelas, bairros de periferia e assentamentos – de João Roberto Ripper e de seus colegas Breno Lima e Sara Gehren, hoje envolvidos diretamente do projeto de preservação e disseminação de acervo de Ripper.

Apoie o #Colabora.

Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Newsletter do #Colabora

A ansiedade climática e a busca por informação te fizeram chegar até aqui? Receba nossa newsletter e siga por dentro de tudo sobre sustentabilidade e direitos humanos. É de graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *