Saberes tradicionais foram historicamente marginalizados da educação formal. O Programa Nacional Escola Nego Bispo busca inverter esse quadro a partir da inspiração no quilombola Nêgo Bispo e diversos outros mestres e mestras. A ideia envolve trabalhar conhecimentos quilombolas, afro-brasileiros e indígenas em cursos de formação de professores.
“Papai nos ensinou que, enquanto a gente repassa o que aprendeu, mesmo enterrado, ele continua vivo. Por isso dizemos que ele nasceu para a ancestralidade”, afirma Joana Maria de Oliveira Santos, filha do mestre quilombola.
Joana participou da elaboração da Escola Nêgo Bispo pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), do Ministério da Educação (MEC). A intenção é dar visibilidade para diferentes mestres e mestras de saberes tradicionais.
Leu essa? Cursos sobre saberes tradicionais transformam educação em institutos federais
O edital da Escola Nego Bispo foi lançado no final de 2025 e selecionou 100 cursos de extensão de institutos federais espalhados por diversas regiões. Cada projeto recebeu R$41,6 mil para realizar formações com estudantes de licenciatura de educação superior e educação profissional e tecnológica.
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Veja o que já enviamos“A ideia é que o Brasil compreenda a emergência dos saberes tradicionais e que possa aproximá-los da educação formal através dos institutos federais”, explica Cláudia Santos, professora do Instituto Federal da Bahia (IFBA) e coordenadora do programa.
Como funcionam os cursos
A Escola Nacional Nego Bispo possui três eixos principais, divididos em saberes tradicionais afro-brasileiros, quilombolas ou indígenas. Há ainda quatro subeixos: artes e ofícios; línguas e narrativas; memórias e oralidade; e cosmociências. Um dos critérios obrigatórios em todos os cursos é a atuação de mestres ou mestras de saberes tradicionais.
As formações têm duração prevista de 60 horas e seguem um modelo aberto, ou seja, os conteúdos são elaborados em diálogo com os mestres e as mestras. Cada projeto aprovado pode selecionar 25 bolsistas, assim, a previsão é de 2.500 pessoas impactadas nesta primeira edição.
“Nós delimitamos os eixos, mas não o conteúdo. É um desafio imenso, porque conhecemos os saberes tradicionais no Brasil, mas não sabíamos o que seriam os detalhes de cada curso”, comenta Cláudia. Para a professora do IFBA, o programa permite lidar com temas como identidade, resistência e ancestralidade desde a base de formação de futuros professores e professoras.
Educação antirracista
“Os nossos mestres compartilham o saber e fazem isso de um lugar que esse saber não é mercadoria”, pontua Joana Maria. Uma das características da iniciativa é valorizar as trajetórias, os sujeitos e os territórios. Por isso, parte dos projetos conta com encontros em terreiros, aldeias e quilombos.
Cláudia destaca que a Escola Nego Bispo é parte de um esforço para efetivar a Lei 10.639/2003 e a Lei 2.645/2008. As normas estabelecem a obrigatoriedade do ensino das histórias e das culturas afro-brasileiras e indígenas na educação básica, porém, esses temas seguem ausentes de muitos currículos escolares.
O programa também integra a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (Pneerq). Entre as diretrizes dessa política está a realização de ações e programas voltados às relações étnico-raciais e ao combate do racismo em ambientes de ensino.
“Não existe uma única alternativa para transformar a educação no Brasil. É preciso que a gente tenha várias formas de saber, de aprender e de conhecer”, enfatiza Cláudia, sobre a rede de saberes e educadores que a iniciativa conecta. A previsão do MEC é de investir R$7,5 milhões nos cursos de extensão até 2027.
Inspiração em Nêgo Bispo
“Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio. Ao contrário: ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece. Quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente”.
O trecho acima é da obra A Terra dá. A Terra Quer de Nêgo Bispo. Liderança do Quilombo Saco-Curtume, sobreposto ao município de São João do Piauí (PI), Antônio Bispo dos Santos construiu uma trajetória a partir das vivências com o território e cultivando a oralidade e a ancestralidade quilombola.
Para Joana Maria, ter o nome do pai como referência para essa iniciativa é uma forma de materializar a sua luta de contracolonização. “E contracolonizar a educação é colocar quem de fato detém os saberes do nosso povo nesses espaços para falar e para nos ensinar”.
Embaixadora da Pneerq, Joana enfatiza a importância de uma educação antirracista que alcance todas as pessoas e escolas. “A educação escolar quilombola não é apenas para os quilombos, é uma educação que o Brasil inteiro precisa saber. A história contada do nosso jeito, pelo nosso povo”, acrescenta.
Pedagogia do envolvimento
Para a educadora quilombola, o programa é uma forma de confluência com a academia para incentivar a ocupação desses espaços. Um outro diferencial para esse modelo é a possibilidade de trabalhar a educação ambiental pela via do relacionamento com a natureza e não da preservação.
“A Terra dá. A Terra Quer é um convite para a gente se relacionar com a natureza. É um saber que vem do lugar de cuidar, de se relacionar e de envolvimento. Entendemos que isso é muito necessário nas escolas”, explica Joana.
Em resumo, trata-se de uma pedagogia do envolvimento e de manter sempre “um pé dentro e um pé fora”. Essa perspectiva e esse modo de aprender faz recordar constantemente que somos também natureza.
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