Programa inspirado em Nêgo Bispo inclui saberes tradicionais na formação de professores

Escola Nacional Nego Bispo promove cursos sobre saberes de povos quilombolas, afro-brasileiros e indígenas

Por Micael Olegário | ODS 4
Publicada em 18 de março de 2026 - 09:05  -  Atualizada em 18 de março de 2026 - 09:54
Tempo de leitura: 8 min

Escola homenageia Nego Bispo e valoriza saberes de mestres e mestras na educação formal (Foto: Murilo Alvesso/Itaú Cultural)

Saberes tradicionais foram historicamente marginalizados da educação formal. O Programa Nacional Escola Nego Bispo busca inverter esse quadro a partir da inspiração no quilombola Nêgo Bispo e diversos outros mestres e mestras. A ideia envolve trabalhar conhecimentos quilombolas, afro-brasileiros e indígenas em cursos de formação de professores. 

“Papai nos ensinou que, enquanto a gente repassa o que aprendeu, mesmo enterrado, ele continua vivo. Por isso dizemos que ele nasceu para a ancestralidade”, afirma Joana Maria de Oliveira Santos, filha do mestre quilombola.

Joana participou da elaboração da Escola Nêgo Bispo pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), do Ministério da Educação (MEC). A intenção é dar visibilidade para diferentes mestres e mestras de saberes tradicionais.

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O edital da Escola Nego Bispo foi lançado no final de 2025 e selecionou 100 cursos de extensão de institutos federais espalhados por diversas regiões. Cada projeto recebeu R$41,6 mil para realizar formações com estudantes de licenciatura de educação superior e educação profissional e tecnológica. 

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“A ideia é que o Brasil compreenda a emergência dos saberes tradicionais e que possa aproximá-los da educação formal através dos institutos federais”, explica Cláudia Santos, professora do Instituto Federal da Bahia (IFBA) e coordenadora do programa. 

Joana Maria, filha de Nego Bispo, ao lado do presidente Lula e da reitora do IFBA, Luzia Mota, durante lançamento do programa (Foto: Arquivo Pessoal)

Como funcionam os cursos

A Escola Nacional Nego Bispo possui três eixos principais, divididos em saberes tradicionais afro-brasileiros, quilombolas ou indígenas. Há ainda quatro subeixos: artes e ofícios; línguas e narrativas; memórias e oralidade; e cosmociências. Um dos critérios obrigatórios em todos os cursos é a atuação de mestres ou mestras de saberes tradicionais.

As formações têm duração prevista de 60 horas e seguem um modelo aberto, ou seja, os conteúdos são elaborados em diálogo com os mestres e as mestras. Cada projeto aprovado pode selecionar 25 bolsistas, assim, a previsão é de 2.500 pessoas impactadas nesta primeira edição.

“Nós delimitamos os eixos, mas não o conteúdo. É um desafio imenso, porque conhecemos os saberes tradicionais no Brasil, mas não sabíamos o que seriam os detalhes de cada curso”, comenta Cláudia. Para a professora do IFBA, o programa permite lidar com temas como identidade, resistência e ancestralidade desde a base de formação de futuros professores e professoras.

Educação antirracista

“Os nossos mestres compartilham o saber e fazem isso de um lugar que esse saber não é mercadoria”, pontua Joana Maria. Uma das características da iniciativa é valorizar as trajetórias, os sujeitos e os territórios. Por isso, parte dos projetos conta com encontros em terreiros, aldeias e quilombos.

Cláudia destaca que a Escola Nego Bispo é parte de um esforço para efetivar a Lei 10.639/2003 e a Lei 2.645/2008. As normas estabelecem a obrigatoriedade do ensino das histórias e das culturas afro-brasileiras e indígenas na educação básica, porém, esses temas seguem ausentes de muitos currículos escolares.

O programa também integra a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (Pneerq). Entre as diretrizes dessa política está a realização de ações e programas voltados às relações étnico-raciais e ao combate do racismo em ambientes de ensino.

“Não existe uma única alternativa para transformar a educação no Brasil. É preciso que a gente tenha várias formas de saber, de aprender e de conhecer”, enfatiza Cláudia, sobre a rede de saberes e educadores que a iniciativa conecta. A previsão do MEC é de investir R$7,5 milhões nos cursos de extensão até 2027. 

Edital da Escola Nego Bispo foi lançado em setembro do ano passado. Projeto prevê investimento de R$7,5 milhões até 2027 (Foto: Moacir Evangelista/Conif – 17/09/2025)

Inspiração em Nêgo Bispo

“Um  rio  não  deixa  de  ser  um  rio  porque  conflui  com  outro  rio.  Ao  contrário:  ele  passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece. Quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente”. 

O trecho acima é da obra A Terra dá. A Terra Quer de Nêgo Bispo. Liderança do Quilombo Saco-Curtume, sobreposto ao município de São João do Piauí (PI), Antônio Bispo dos Santos construiu uma trajetória a partir das vivências com o território e cultivando a oralidade e a ancestralidade quilombola.

Para Joana Maria, ter o nome do pai como referência para essa iniciativa é uma forma de materializar a sua luta de contracolonização. “E contracolonizar a educação é colocar quem de fato detém os saberes do nosso povo nesses espaços para falar e para nos ensinar”.

Embaixadora da Pneerq, Joana enfatiza a importância de uma educação antirracista que alcance todas as pessoas e escolas. “A educação escolar quilombola não é apenas para os quilombos, é uma educação que o Brasil inteiro precisa saber. A história contada do nosso jeito, pelo nosso povo”, acrescenta.

Pedagogia do envolvimento

Para a educadora quilombola, o programa é uma forma de confluência com a academia para incentivar a ocupação desses espaços. Um outro diferencial para esse modelo é a possibilidade de trabalhar a educação ambiental pela via do relacionamento com a natureza e não da preservação.

“A Terra dá. A Terra Quer é um convite para a gente se relacionar com a natureza. É um saber que vem do lugar de cuidar, de se relacionar e de envolvimento. Entendemos que isso é muito necessário nas escolas”, explica Joana. 

Em resumo, trata-se de uma pedagogia do envolvimento e de manter sempre “um pé dentro e um pé fora”. Essa perspectiva e esse modo de aprender faz recordar constantemente que somos também natureza.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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