Em busca de sonhos e conhecimento: geração 50+ ocupa as universidades cearenses

Foto colorida de Graça Alves, segurando placa que diz "finalmente formei!!!". Ela é uma mulher branca, com cabelos loiros na altura do pescoço. Ela sorri e usa óculos, vestindo um blazer preto e uma blusa bege. Ao fundo, banner com logo da Uninassau
Foto colorida de Graça Alves, segurando placa que diz "finalmente formei!!!". Ela é uma mulher branca, com cabelos loiros na altura do pescoço. Ela sorri e usa óculos, vestindo um blazer preto e uma blusa bege. Ao fundo, banner com logo da Uninassau
Graça Alves decidiu enfrentar seu receio e se descobriu nas aulas de psicologia (Foto: Arquivo Pessoal)

Histórias de estudantes acima dos 50 anos revelam como a graduação se tornou um caminho para recomeços, ascensão profissional e envelhecimento ativo

Por Heron Enzo | Inclusão e Diversidade, ODS 4

Publicado em 09/10/2026 - 09h41 (Atualizado há 10 minutos)

Tempo de leitura: 15 min

Com a ampliação do acesso ao ensino superior no Brasil, mais estudantes acima de 50 anos estão ingressando nas universidades. Essas pessoas procuram conhecimento para aprimoramento profissional, transição de carreira ou realização de um sonho em ter um diploma. 

Marivan Ferraro, 77 anos, descreve a experiência de retornar aos estudos com 74 anos. Graduada em Design pela Universidade de Fortaleza (Unifor), ela defendeu seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na presença da mãe de 98 anos, Maria Augusta, sobre um livro infantil, que as duas fizeram juntas.

O trabalho foi elaborado em tecido bordado, no qual é recontada a história bíblica da Arca de Noé. O TCC ganhou sentido especial porque nasceu a quatro mãos. Marivan levou a ideia para a mãe e pediu ajuda para bordar o livro. Maria Augusta aceitou. As duas pesquisaram referências, pensaram em desenhos e começaram os bordados juntas. Marivan ia à casa da mãe para trabalhar no projeto. 

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Para a designer, conviver e compartilhar a aprendizagem na sala de aula com diferentes gerações foi enriquecedor e rejuvenescedor ao mesmo tempo. “A receptividade por parte dos alunos e dos professores não poderia ter sido melhor. Éramos unidos, compromissados, interessados e ansiosos por aprender sem distinção de idade e de capacidade, todos aprendizes e artistas, diga-se de passagem”, ressalta Marivan. 

Marivan é aposentada da Secretaria da Educação do Ceará (SEDUC – CE) e também possui graduação em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), e pós-graduação na mesma área pela UFC (Universidade Federal do Ceará).

A designer conta que os maiores desafios ao retornar ao estudo de graduação foram passar no vestibular da instituição e nas disciplinas do primeiro semestre, como computação gráfica, representação gráfica, comunicação e marketing estratégico e introdução ao design. 

Foto colorida que mostra o livro bordado feito por Marivan Ferraro em seu TCC do ensino superior. Na imagem, Marivan aparece ao fundo, sentada. Ela é uma mulher branca, com cabelo preto curto e usa uma blusa florida.
TCC em tecido bordado por Marivan Ferrado e por sua mãe, Maria Augusta (Foto: Arquivo Pessoal)

Graça Alves e o início com a psicologia

Graça Alves, 55 anos, decidiu cursar psicologia no Centro Universitário Maurício de Nassau (Uninassau). Ela conta que os maiores desafios foram as crenças que desenvolveu sobre idade e capacidades, além de ter de conciliar o tempo dedicado ao trabalho e aos estudos.

“Via desvantagem e me comparava com as demais pessoas jovens da sala. Desvantagens sobre tecnologia, comunicação e desempenho. Aos poucos fui vendo que essa forma de pensar eram crenças preconceituosas construídas e que eu estava a cada dia construindo meu caminho e com muita superação”, reflete Graça.

A psicóloga comenta que idade é apenas um número. Ela revela que o dia a dia foi essencial para enfrentar as dificuldades tecnológicas, para a adaptação ao ritmo de estudo e a convivência com os colegas de classe.

“Vi que idade é somente números e que nós temos o poder de se transformar e se superar a cada desafio. E foi assim que aconteceu eu consegui vencer esses desafios e está entre os melhores estudantes da minha sala”, conclui Graça.

Novo perfil do Ensino Superior cearense

Professora do Programa de Pós-graduação em Educação da UECE e doutora em UFC, Eloísa Vidal explica que pessoas com mais idade procurando o ensino superior é importante, não só por criar um ambiente mais diverso, com a convivência de gerações distintas, como também representa um ganho social, em termos de fomento ao respeito e às diferenças. 

Durante décadas, o cenário predominante das instituições de ensino era de jovens recém-saídos do ensino médio, iniciando a graduação como primeiro passo para a vida profissional. Transformações sociais, mudanças no mercado de trabalho e a expectativa de vida no Ceará acima da média nacional geraram uma nova realidade nas universidades cearenses. 

“O acesso ao ensino superior no Brasil ainda não é um direito de todos. Embora a Constituição do Brasil assegure a educação como um direito social, o ensino superior ainda enfrenta problemas de ofertas de vagas e limites territoriais. Ou seja, como sociedade privamos muitos cidadãos de oportunidades de crescimento individual e inserção social e laboral”, afirma Eloísa Vidal, 

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Tânia Maria, professora adjunta da UECE e também doutora em Educação pela UFC, destaca que as condições políticas e pedagógicas da última década do século XX, sob o lema “satisfação das necessidades básicas de aprendizagem”, recolocam na agenda global as necessidades prioritárias da inclusão do público 50+.

A gente vive em uma sociedade que coloca prazo para tudo: idade para estudar, casar, ter filhos, principalmente para as mulheres. Então, quando alguém decide seguir um caminho diferente, também está exercendo sua autonomia e mostrando que não existe um tempo certo para realizar um sonho

Adriana Gino
Psicóloga, specialista em neuropsicologia

Segundo a docente, isso ocorre por essas pessoas trazerem para a sala de aula vivências profissionais, familiares, comunitárias e culturais, que dinamizam os processos pedagógicos, e, ao mesmo tempo, enriquecem e atualizam os debates e ampliam a relação teoria e prática. 

“As relações envolvendo esse público também corroboram com a percepção e análise das trajetórias de vida, ao mesmo tempo em que desafiam a superação de estereótipos relacionados ao envelhecimento, demonstrando que o desejo de aprender, reinventar-se e contribuir com mudanças na sociedade permanece presente em todas as etapas da vida”, afirma Tânia Maria.

Joaquim e o jornalismo

Joaquim Honório, 73 anos, é outro exemplo de que a busca por conhecimento independe de idade. Egresso de outras três graduações: direito, psicologia e agronomia, Joaquim decidiu cursar jornalismo na Universidade de Fortaleza (Unifor).

“Em 2021, eu ingressei no curso de Jornalismo, da Unifor, porque tinha vontade de aprender, além de gostar muito de história. Foi uma grande surpresa participar, retomar os estudos, retornar a sala de aula e conhecer novos colegas, pessoas que tive trocas e networking interessante”, disse Joaquim Honório. 

Joaquim afirma que a conquista do novo diploma representou a realização de um grande sonho. Para ele, a graduação em jornalismo lhe proporcionou não apenas a formação profissional, mas também a segurança para expressar suas opiniões com propriedade e compartilhar a experiência acumulada ao longo da vida. 

Ao relembrar sua trajetória, o empresário destaca que pertence a uma geração que estudou no antigo ginásio do Liceu do Ceará, contexto que marcou sua formação antes de ingressar no ensino superior.

Joaquim explica que a diferença de idade não foi um fator de exclusão, já que desenvolveu amizades com os colegas do curso que mantém até hoje. 

Foto colorida de Joaquim Honorio, vestido com toga, ao lado de banner que diz "Memórias e afetos: 100 anos de Edson Queiroz". Ele é um homem branco, de cabelos grisalhos curtos e usa óculos
Joaquim decidiu cursar jornalismo como uma forma de desenvolvimento pessoal; geração 50+ contribui para diversidade na educação superior (Foto: Arquivo Pessoal)

O que mostram os dados

Segundo dados do Censo da Educação Superior de 2024, ao todo, no Ceará, 11.267 estudantes com mais de 50 anos estavam matriculados em cursos de graduação, distribuídos em 209 instituições de ensino superior.

Pelo último levantamento de 2024, 4.782 novos estudantes dessa faixa etária ingressaram na educação superior e 1.571 concluíram seus cursos, encerrando uma trajetória que, para muitos, levou anos, ou até décadas, para ser realizada.

“Ao ingressarem na universidade, essas pessoas são portadoras de valiosa bagagem de conhecimentos e saberes comuns, atravessados e ampliados pelas experiências de vida, de trabalho e de superação, contribuindo para o avanço de conquistas no ambiente acadêmico, sobretudo materializando a educação como um direito de todos sem prazo de validade”, explica Tânia Maria.

A professora acrescenta que “ampliar e democratizar o acesso ao ensino superior beneficia o indivíduo, fortalece a sociedade, por meio da promoção da inclusão, desenvolvimento humano e transformação social”.

A dificuldade dos estudantes 50+ no acesso ao ensino

Eloísa Vidal relata que muitas vezes, uma pessoa conclui a jornada laboral, se aposenta e se sente ainda com potencialidades para desenvolver outras habilidades e, por isso, procura fazer um curso superior. 

Outro ponto importante são as exigências econômicas e do próprio mercado de trabalho. “Esse mix de demandas se encontra nos bancos das universidades e isso é enriquecedor, especialmente para as novas gerações”, pontua Eloísa.

Segundo Tânia Maria, quando uma pessoa precisa esperar décadas para realizar o sonho de cursar uma graduação, toda a sociedade perde. “As pessoas 50+ perdem em conhecimentos, competências, habilidades e atitudes que poderiam ter contribuído para o desenvolvimento científico, social, cultural e econômico do país”.

A especialista destaca ainda o prejuízo em termos de enfrentamento às desigualdades socioeconômicas. “O desenvolvimento laboral e a produção qualificada nos diversos setores da indústria, comércio e serviços também perdem”, aponta Tânia.

O impacto psicológico dos estudantes de meia-idade

Para Adriana Gino, psicóloga e especialista em neuropsicologia, os estudantes de meia-idade procuram estudar como uma forma de envelhecimento ativo. Outro fator que explica esse movimento é a busca por autonomia.

“A gente ainda tem uma visão muito ligada ao idadismo de que, depois dos 50 anos, a pessoa deveria desacelerar e parar de construir novos projetos. Mas, psicologicamente, o desenvolvimento não termina na vida adulta. As pessoas continuam aprendendo, mudando, desejando, construindo vínculos e estabelecendo novos objetivos ao longo de toda a vida”, pontua Adriana Gino.

Segundo a psicóloga, se fazer uma nova graduação realmente é um sonho para essa pessoa, não é apenas sobre entrar na universidade. É realizar um desejo que, por diversos motivos, ficou adiado e também sobre ressignificar a própria história.

“A gente vive em uma sociedade que coloca prazo para tudo: idade para estudar, casar, ter filhos, principalmente para as mulheres. Então, quando alguém decide seguir um caminho diferente, também está exercendo sua autonomia e mostrando que não existe um tempo certo para realizar um sonho”, enfatiza Adriana. 

Bolsas de estudos para 50+

Com o objetivo de estimular a aderência e continuação dos estudos, a Unifor desenvolveu um programa de bolsas de estudos para pessoas com mais de 50 anos de idade. O projeto chama-se UNIFOR 50+. 

As diretrizes do programa UNIFOR 50+ dialogam com a teoria da atividade do envelhecimento, proposta pelo sociólogo Robert Havighurst, que defende que manter-se ativo é essencial para um envelhecimento saudável e bem-sucedido.

Segundo a teoria, continuar desempenhando papéis sociais, como estudar, trabalhar ou participar de atividades em grupo, promove autoestima, saúde mental e qualidade de vida na maturidade.

Adriana Gino ressalta que o programa de bolsa é importante para a inclusão e o incentivo dos alunos de meia-idade. “Para algumas, esse retorno aos estudos pode ser justamente uma forma de descobrir novas possibilidades para a própria vida”, comenta a neurologista. 

Empregos formais entre de 50 a 64 anos

Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2024, as pessoas com idades entre 50 a 59 anos acumularam 418,6 mil vagas de emprego. Enquanto a faixa etária de 60 a 64 anos registraram mais de 153 mil funções de trabalho. Já os de mais de 65 anos possuíram mais de 97 mil inserções empregatícias.

A Rais mede o acumulado até o final de cada ano. O estudo capta não apenas trabalhadores registrados em carteira, mas também outros tipos de vínculos empregatícios formais, como estatutários ou funcionários provisórios ou por tempo determinado.

Especialista em RH, Gestão de Carreira e CEO da Gomentor, Tiago Luz conta que esse crescimento está diretamente ligado a uma mudança de comportamento. Muitos profissionais entre 50 e 64 anos perceberam que, para continuarem competitivos em um mercado de trabalho cada vez mais exigente, é preciso investir em qualificação. 

“O aumento da expectativa de vida e a necessidade de permanecer economicamente ativos por mais tempo fazem com que o Ensino Superior deixe de ser visto apenas como uma etapa da juventude e passe a ser encarado como um investimento de carreira em qualquer idade”, diz o especialista em RH.

Outro estudo, realizado pela Fundação Instituto de Administração (FIA), mostra que os profissionais com mais de 50 anos são mais fiéis, estáveis e satisfeitos com seus cargos. A pesquisa, feita com mais de 200 mil funcionários de 293 empresas, afirma que apenas 1% dessa faixa etária está à procura de um novo cargo, enquanto os trabalhadores com até 39 anos apresentam uma taxa de 3%.

“Hoje, muitas organizações já reconhecem o valor da experiência desses profissionais de meia-idade, e a formação acadêmica complementa esse diferencial, tornando-os ainda mais preparados para assumir novos desafios ou até mesmo mudar de área. A universidade tem se consolidado como uma importante ferramenta para aumentar a empregabilidade e a permanência dos profissionais 50+ no mercado”, aponta Tiago Luz. 

O aumento de empregos formais para a faixa etária de 50 a 64 anos no Brasil reflete o envelhecimento populacional, a busca por complementação de renda e a valorização da chamada “geração prateada”. 

*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Heron Enzo, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.

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Heron Enzo

É repórter colaborador do #Colabora no Ceará. Atua na cobertura de temas relacionados ao Ceará. Formado em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza (Unifor). Vencedor do 1º lugar na categoria Webjornalismo Universitário do 2º Prêmio Sintaf de Jornalismo, em 2024

Heron Enzo

É repórter colaborador do #Colabora no Ceará. Atua na cobertura de temas relacionados ao Ceará. Formado em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza (Unifor). Vencedor do 1º lugar na categoria Webjornalismo Universitário do 2º Prêmio Sintaf de Jornalismo, em 2024

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