Saúde do brasileiro já depende bastante da China

As vacinas da Sinovac Biotech, uma das 11 empresas chinesas aprovadas para realizar testes clínicos de vacinas contra o coronavírus, são exibidas em uma entrevista coletiva durante um tour pela nova fábrica construída em Pequim. Foto Wang Zhao/AFP. Setembro/2020

Além da Coronavac e da vacina de Oxford, conheça outros medicamentos usados no Brasil que são fabricados com matéria-prima chinesa

Por Agostinho Vieira | ODS 3 • Publicada em 18 de fevereiro de 2021 - 13:07 • Atualizada em 24 de fevereiro de 2021 - 08:32

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As vacinas da Sinovac Biotech, uma das 11 empresas chinesas aprovadas para realizar testes clínicos de vacinas contra o coronavírus, são exibidas em uma entrevista coletiva durante um tour pela nova fábrica construída em Pequim. Foto Wang Zhao/AFP. Setembro/2020

Rio de Janeiro, Salvador, Campo Grande, Cuiabá e algumas outras cidades brasileiras suspenderam esta semana a vacinação contra a covid-19. O motivo? Faltam vacinas. Até o momento, o confuso plano de imunização do Ministério da Saúde distribuiu apenas 11,8 milhões de doses, sendo 9,8 milhões da chinesa Coronavac, produzida no Brasil pelo Instituto Butantan; e 2 milhões da vacina de Oxford/AstraZeneca. Na próxima semana, se tudo correr bem, começa a ser distribuída nos municípios uma nova leva dos imunizantes chineses. Os mesmos que foram fortemente criticados pelo presidente Jair Bolsonaro nos últimos meses e que são rejeitados por parte da população. A última pesquisa DataFolha sobre vacinação no país mostrou que 39% dos brasileiros ainda insistem em dizer que não tomariam uma vacina fabricada na China.

Esse inusitado desejo manifestado por um grupo de brasileiros na pesquisa enfrenta três problemas básicos para ser concretizado. Todos ligados à epidemia da desinformação. O primeiro é que a Coronavac, produzida no Butantan, é tão eficaz e segura quanto qualquer outra. Por isso foi aprovada pela Anvisa. A segunda questão é que tanto a Coronavac quanto a vacina de Oxford são produzidas a partir de IFAs (Ingredientes Farmacêuticos Ativos) fabricados na China. Logo, ser vacinado hoje, no Brasil e em quase todas as partes do mundo, é sinônimo de receber uma substância química produzida em solo chinês. O terceiro problema é que, muito provavelmente, a maior parte dessas pessoas já consumiu algum remédio feito a partir de matéria-prima chinesa.

Dados de um relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), publicado em outubro de 2020, mostram que 35% dos ingredientes de medicamentos básicos importados pelo Brasil vêm da China. O país asiático só perde para a Índia, que hoje responde por 37% desses insumos. Em entrevista para o jornal o Estado de S. Paulo, o presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini, explicou: “Hoje, quase todo antibiótico que a gente toma é chinês. Anti-inflamatório, remédio para hipertensão, protetor gástrico, medicamento para asma. Tudo isso tem ingrediente vindo da China”.

A China e a Índia se transformaram nas fábricas do mundo, para o bem e para o mal. Eles produzem desde bugigangas, que não servem para nada e só aumentam o volume de lixo, até insumos absolutamente fundamentais. O Brasil, assim como vários outros países, recebe os IFAs (princípios ativos) da China e da Índia e faz a formulação final dos medicamentos, o envase, a embalagem, os testes etc. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abifiqui), somente 5% dos insumos utilizados pela indústria farmacêutica para a produção de remédios prontos são produzidos no Brasil, o outros 95% são importados.

O #Colabora preparou uma lista com nove Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs) que são produzidos na China e utilizados no Brasil para a preparação de remédios prescritos, por exemplo, no tratamento de pressão alta, insuficiência cardíaca, tromboses e diabetes. São anti-inflamatórios, antiácidos, antibióticos, broncodilatadores etc. As chances são grandes de encontrar alguns deles na dispensa da sua casa. Vamos lá:

1 – Valsartana – Recomendado no tratamento de hipertensão arterial e insuficiência cardíaca. Valsartana melhora a morbidade nesses pacientes, principalmente através da redução da hospitalização por insuficiência cardíaca. Nome fantasia: Diovan, Brasart

2 – Felodipino – Também usado no combate à hipertensão arterial e no tratamento da angina do peito estável. Nome fantasia: Selozok

3 – Losartana Potássica – É indicado para reduzir o risco de morbidade e mortalidade cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais e infarto do miocárdio em pacientes hipertensos. Nome fantasia: Cozaar

4 – Heparina Sódica – Indicada na prevenção da formação de trombos no circuito de hemodiálise. Na prevenção de fenômenos tromboembólicos em pacientes com insuficiência renal em programa de hemodiálise.  Nome fantasia: Liquemine

5 – Cloridrato de Metformina – Agente antidiabético, associado ao regime alimentar para o tratamento de diabetes tipo 2, não dependente de insulina. Ou do tipo 1, dependente de insulina, e na prevenção da diabetes. Nome fantasia: Formyn

6 – Ibuprofeno – Anti-inflamatório não esteroide, utilizado no tratamento de dores, febre e inflamação. Pode provocar o alívio sintomático de enxaquecas, dores musculares e artrites. Nome fantasia: Advil, Motrin, Nurofen

7 – Sucralfato – Antiácido e antiúlcera gástrica. Protege o estômago contra o ataque do ácido gástrico. Nome fantasia: Sucrafilm

8 – Sulfato de Salbutamol – Usado no tratamento e prevenção do broncoespasmo. Fornece ação broncodilatadora das vias áreas devia à asma e bronquite crônica. Nome fantasia: Aerolin, Aerogreen

9 – Penicilina – A Benzilpenicilina Benzatina ou só penicilina é um antibiótico indicado no tratamento de infecções causadas por microrganismos.  Nome comercial: Benzetacil

A lista, certamente, poderia continuar, com mais dez, vinte ou cem exemplos. Esse é o resultado do trabalho sério de um país que investe em pesquisa científica. Diferentemente o Brasil que, neste momento, está propondo novos cortes nos investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Como explica o professor João Batista Calixto, titular de Farmacologia da Federal de Santa Catarina e Vice-presidente da Academia Brasileira de Ciência, a tendência é que a China assuma cada vez mais a liderança desse mercado: “O governo chinês investiu pesadamente em ciência básica, na formação de recursos humanos e na inovação tecnológica. Isto resultou na melhoria da qualidade da sua ciência, na criação de empresas globais de alta tecnologia e em um aumento expressivo no depósito de patentes que já ultrapassa os Estados Unidos. Nos próximos dez anos, com certeza, eles vão liderar, juntamente com os EUA, a descoberta de novos medicamentos, novas vacinas e insumos farmacêuticos ativos”. #VacinaJá

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

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