Desastre ambiental tem efeitos imprevisíveis

Voluntários retiram o óleo da praia no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Foto Jean Nunes / BRAZIL PHOTO PRESS

Contaminação já afetou 233 localidades de 88 municípios do Nordeste, mas tamanho do impacto na natureza e na sociedade ainda é difícil de mensurar

Por Elizabeth Oliveira | ODS 14 • Publicada em 24 de outubro de 2019 - 13:54

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Voluntários retiram o óleo da praia no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Foto Jean Nunes / BRAZIL PHOTO PRESS
Voluntários retiram o óleo da praia no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Foto Jean Nunes / BRAZIL PHOTO PRESS
Voluntários retiram o óleo da praia no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Foto Jean Nunes / BRAZIL PHOTO PRESS

A origem do vazamento de petróleo cru que há mais de 50 dias se espalha pelo litoral do Nordeste segue desconhecida, enquanto avançam os impactos desse desastre ambiental, já considerado o maior do Brasil, pela sua extensão (2.250 quilômetros já foram atingidos). Potencializada pela falta de informações precisas e pela demora de uma ação planejada da gestão pública, a contaminação já afetou 233 localidades de 88 municípios dos nove estados da região, segundo dados do último boletim atualizados pelo Ibama na quarta-feira (23).

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Parte dos danos é imediata e visível a olho nu, como a mortandade de animais marinhos e a contaminação das faixas de areia de balneários de grande importância ecológica, social e econômica como os parrachos de Maracajaú, no Rio Grande do Norte; as praias de Maragogi, em Alagoas; Canoa Quebrada, no Ceará; Carneiros e Porto de Galinhas, em Pernambuco; Morro de São Paulo, Boipeba e Arembepe, na Bahia, além das orlas urbanas de Salvador e Fortaleza, entre outros. Mas há os efeitos de longa duração, ainda imprevisíveis e incalculáveis, segundo pesquisadores ouvidos pelo #Colabora.

No primeiro momento, uma grande quantidade de óleo causará enorme mortalidade, mas sem perdurar por muito tempo. No segundo, a exposição é mais longa, porém, a uma concentração menor de óleo. Nesse caso, a mortalidade é bem menos intensa, mas funções básicas como crescimento, alimentação e reprodução são comprometidas

Miguel Mies
Projeto Coral Vivo

Como a região Nordeste é reconhecida pela riqueza dos seus ambientes marinhos, geradores de equilíbrio ecológico, além de trabalho, renda e reprodução cultural para uma grande quantidade de comunidades, pesquisadores alertam que há muitos danos que um desastre como esse poderá causar no curto, médio e longo prazos. Nesse contexto, não se pode desconsiderar a importância dos corais e os riscos associados à morte desses ecossistemas, segundo o oceanógrafo Miguel Mies, coordenador de Pesquisas do Projeto Coral Vivo e pesquisador do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).

O óleo nas areias de Barra Grande, em Alagoas. Foto Nadson Souza
O óleo nas areias de Barra Grande, em Alagoas. Foto Nadson Souza

Mies alerta que há dois principais cenários de impactos em áreas de recifes de corais afetadas pelo desastre, sendo um agudo e o outro crônico. “No primeiro, uma grande quantidade de óleo causará enorme mortalidade, mas sem perdurar por muito tempo. No segundo, a exposição é mais longa, porém, a uma concentração menor de óleo. Nesse caso, a mortalidade é bem menos intensa, mas funções básicas como crescimento, alimentação e reprodução são comprometidas,” observa. Ele acrescenta que ambos são preocupantes.

“Os corais são os construtores desse tipo de ambiente, proporcionando áreas de abrigo, reprodução e alimentação para inúmeras espécies de peixes e invertebrados. Se os corais morrem, essas espécies perdem seu habitat e lentamente desaparecem”, explica Mies. Estabelecendo outras conexões, o pesquisador reforça que, dessa forma, a pesca é afetada diretamente porque nesse tipo de situação os peixes desaparecem. O turismo também é impactado sem a presença de corais e da beleza dos organismos vivos que atraem visitantes.

Em um contexto político-institucional de grandes perdas de recursos financeiros para as instituições de pesquisa, Mies reconhece que são grandes os desafios que tendem a ser enfrentados para o monitoramento dos impactos causados por esse desastre no litoral do Nordeste. “Como recifes são diversos, para avaliar os impactos sofridos é necessária uma atuação integrada de especialistas,” explica.

Apesar da gravidade do desastre que tem afetado o litoral do Nordeste, o pesquisador opina que ainda é preciso ampliar a disseminação de informações sobre a importância dos recifes de coral e os prejuízos econômicos que as comunidades e o próprio governo podem enfrentar diante da perda desses ecossistemas. “Isso não parece estar claro ainda. Aprendendo isso, talvez a sociedade entenda que a preservação desse tipo de ambiente é algo prioritário. Espero que esse tipo de situação pelo menos abra alguns olhos”, conclui o oceanógrafo.

Centro especializado reabilita animais de vários estados

A preocupação com os riscos enfrentados pela biodiversidade marinha e suas consequências para a sociedade também é parte das reflexões da veterinária Jociery Einhardt Vergara Parente, diretora-presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), instituição que vem buscando ampliar as contribuições nesse cenário de crise. Ela relata que, desde a identificação do primeiro animal afetado pelo óleo no litoral de Sergipe, têm sido intensificados os esforços de monitoramento e resgate para pronto atendimento, considerando a estrutura física destinada à reabilitação de fauna silvestre. Como esse recurso especializado ainda é escasso na região Nordeste, a fundação passou a atender não somente os animais atingidos pelo desastre no estado de Sergipe, mas também em Alagoas e no norte da Bahia.

A veterinária explica que nas últimas semanas o estado de Sergipe não enfrentou a mesma intensidade de novas manchas, como já ocorreu, anteriormente. Com isso, o número de registros locais de animais oleados reduziu. Mas como o desastre tem efeitos imprevisíveis, não há segurança de que a estabilidade se mantenha nas próximas semanas.

Além disso, houve deslocamento da contaminação para o litoral de Alagoas, resultando em mais animais afetados que foram transferidos para o Centro de Reabilitação e Despetrolização da FMA, localizado na região metropolitana de Aracaju. Para lá já foram encaminhados 33 animais resgatados desse acidente, incluindo tartarugas-marinhas, aves e peixes. Desse total, 11 estão em reabilitação.

Diferentemente de outros episódios envolvendo derramamento de petróleo no Brasil, nesse desastre, especificamente, as incertezas são maiores pelo desconhecimento da sua origem e pela falta de informações sobre a magnitude e a duração da contaminação, segundo analisa a especialista. “Embora ainda não esteja dimensionada a intensidade desse impacto, organismos menores e não tão perceptíveis estão sendo acometidos e seus efeitos nos manguezais e coralíneos poderão trazer consequências por um período indeterminado”, alerta.

Manchas de óleo se transformam em barreiras para o deslocamento de tartarugas do Projeto Tamar. Foto Divulgação
Manchas de óleo se transformam em barreiras para o deslocamento de tartarugas do Projeto Tamar. Foto Divulgação

Como lições aprendidas com esse desastre, a especialista observa que situações como essa demandam o envolvimento de várias instituições para que seja possível mobilizar expertises complementares e assegurar respostas rápidas e ordenadas. “Esse momento demonstra o quanto precisamos estar preparados para eventos de grandes proporções, com potencial de comprometer, de forma irreparável, os nossos ecossistemas”, conclui.

Orientações da FMA

  • Se encontrar manchas de óleo na praia, não toque nelas. Caso tenha entrado em contato com a substância, limpe as áreas afetadas com gelo e óleo de cozinha;
  • Se ao tocar, teve reação alérgica ou se chegou a ingerir o óleo, procure a unidade básica de saúde mais próxima;
  • Ao encontrar algum animal com óleo na praia, não o toque e nem o devolva à água. Se quiser ajudar, o proteja do sol e entre em contato com a Polícia Ambiental da região.

Manchas de óleo são barreiras ao deslocamento de tartarugas

A bióloga Luciana Medeiros, assessora da Coordenação Nacional de Pesquisa e Conservação do Projeto Tamar, explica que as principais preocupações em relação às tartarugas marinhas começam pela barreira física ao deslocamento, causada pelas manchas de óleo, principalmente dos filhotes. “Altas concentrações de óleo também podem ocasionar quadros de intoxicação aguda, desestabilizando as funções metabólicas do animal, com risco de ocasionar óbito”, acrescenta.

Os primeiros registros de óleo em praias do Nordeste são do início de setembro, mas nas áreas monitoradas pelo Projeto Tamar/Fundação Pró-Tamar, a bióloga informa que as primeiras ocorrências foram registradas a partir da última semana do mês passado, no estado de Sergipe, onde há a maior concentração de desovas de tartaruga-oliva.

Altas concentrações de óleo também podem ocasionar quadros de intoxicação aguda, desestabilizando as funções metabólicas do animal, com risco de ocasionar óbito

Luciana Medeiros
Bióloga

Como o encalhe de óleo nas praias do Nordeste tem se alterado todos os dias, a bióloga ressalta que o levantamento das áreas atingidas é feito pelo Ibama, com o apoio das prefeituras, sendo a Petrobras acionada para auxiliar na limpeza das praias. “Por essa razão, estamos alinhando nossas ações no dia-a-dia, com base nas informações dos órgãos competentes, aliadas ao panorama das áreas reprodutivas retratado por nossa equipe.” Segundo acrescenta, nesse processo se levam em conta as ocorrências de desova, além do número de ninhos e de nascimentos. “No momento, a atenção maior está voltada aos filhotes que estão nascendo. Estamos trabalhando ativamente para proteger as ninhadas e buscar locais adequados para a soltura.”

As incertezas sobre os riscos que podem afetar a reprodução das espécies no futuro também são mencionadas pela bióloga. “Não há como fazer esta avaliação exata neste momento. Para isso, serão necessários estudos científicos para mensurar o impacto deste acidente na costa brasileira. O petróleo é um poluente que pode causar inúmeros danos aos organismos e aos ecossistemas e o impacto deste cenário requer uma avaliação qualificada para que sejam aplicadas medidas de mitigação adequadas”, conclui.

A paisagem de Barra Grande tomada pela poluição causada pelo vazamento de petróleo cru. Foto Nadson Souza
A paisagem de Barra Grande tomada pela poluição causada pelo vazamento de petróleo cru. Foto Nadson Souza

Natureza arrasada gera choque emocional

A memória da última viagem do historiador Nadson Nei da Silva de Souza, professor do CEFET-RJ, ao litoral de Alagoas, há uma semana, ficará para sempre dividida entre a felicidade de um mergulho nas águas transparentes de Maragogi, com direito a muitos peixes coloridos como cenário, e o choque emocional sofrido na chegada à Barra Grande, onde se deparou com a paisagem já tomada pela poluição causada pelo vazamento de petróleo cru. Pela beira-mar, ele pretendia caminhar sete quilômetros até Antunes, mas o plano de realizar o passeio foi frustrado na metade do percurso, entre as duas praias, pelos impactos desse crime ambiental que assola o mar do Nordeste.

Diante de um grupo de turistas brasileiros e estrangeiros que conheceu no hostel e convidou para o passeio, ele conta que não conseguiu conter uma crise de choro ao ver várias tartarugas cobertas pelo óleo de origem ainda desconhecida, enquanto no mar de águas cristalinas era possível ver a grande quantidade de blocos de poluentes submersos.  “Abracei uma tartaruga e chorei muito. Aquela cena tocou muito forte em mim e nas minhas raízes indígenas”, conta o professor nascido em Roraima. Ele destaca que as comunidades tradicionais amazônicas têm uma forte ligação com as tartarugas e que aprendeu a amá-las com a mãe e a avó. “Expliquei isso para os colegas, mostrando uma tartaruga tatuada no meu braço e eles ficaram muito comovidos”, acrescenta.

Abracei uma tartaruga e chorei muito. Aquela cena tocou muito forte em mim e nas minhas raízes indígenas

Nadson Souza
Historiador

Desse passeio marcante, não foi mais possível regressar caminhando. Com o avanço das ondas, o óleo pesado foi se espalhando pela areia e grudando nos pés dos visitantes que levaram dias para removê-lo, completamente, segundo o professor. Além disso, ele relata que foi triste também ver o desespero das comunidades locais, cuja sobrevivência depende diretamente do turismo e dos recursos do mar. “Elas trabalharam arduamente para limpar tudo e sofreram muito com toda essa situação que afetou a pesca e afastou os turistas. Ficamos sabendo que em Maragogi o óleo foi retirado de madrugada (do dia 16) pelas próprias comunidades”. Ao chegar no dia seguinte e encontrar o ambiente limpo nessa localidade, onde se hospedou, ele não tinha ideia de que não muito longe dali e, em curto espaço de tempo, outras praias estavam passando por aquela situação dramática.

Nos dois dias que se seguiram a essa forte experiência pessoal, o professor esteve reunido no Quinto Encontro Nacional de Núcleos de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (Neabis), representando o Neabis do CEFET-RJ do qual é coordenador.  O evento foi realizado no Instituto Federal de Alagoas, campus Satuba, a cerca de vinte minutos de Maceió. Os participantes desse fórum de debates, representantes de instituições educacionais federais de todo o Brasil, foram fortemente impactados diante da situação enfrentada pela população do litoral de Alagoas, naquela semana, segundo relata Souza.

“Vimos muitas raízes de manguezais tomadas pelo óleo, caranguejos correndo para escapar daquele ambiente tomado pela poluição e tartarugas agonizando. Temos certeza de que esse episódio trará muitas consequências danosas para a biodiversidade e para as populações que dependem diretamente desses recursos”, conclui o professor. Ele está desenvolvendo uma pesquisa de doutorado no Programa Eicos de Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social, vinculado ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Eicos/IP/UFRJ), pela qual discute a relação sociedade-natureza com enfoque em turismo indígena.

Elizabeth Oliveira

Jornalista apaixonada por temas socioambientais. Fez doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED), vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ, e mestrado em Ecologia Social pelo Programa EICOS, do Instituto de Psicologia da UFRJ. Foi repórter do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro e colabora com veículos especializados, além de atuar como consultora e pesquisadora.

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