Quer ver um céu estrelado? Vá ao Planetário

Céu de Los Angeles, cidade de 4 milhões de habitantes: muita luz artificial, poucas estrelas (Foto: Patrick T. Fallon/AFP – 22/12/2020)

Uso intensivo e exagerado de luz artificial reduz visibilidade das estrelas e faz mal à flora, à fauna e também à saúde humana

Por José Eduardo Mendonça | ODS 12ODS 15 • Publicada em 15 de fevereiro de 2021 - 10:20 • Atualizada em 15 de fevereiro de 2021 - 10:50

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Céu de Los Angeles, cidade de 4 milhões de habitantes: muita luz artificial, poucas estrelas (Foto: Patrick T. Fallon/AFP – 22/12/2020)

Se você mora em uma cidade grande, como São Paulo, e quiser ver um céu coalhado de estrelas, vá ao planetário. Nem precisa ser um local com uma população tão grande. Graças ao uso intensivo e exagerado de luz artificial, a visão da Via Láctea desapareceu e as estrelas visíveis, mesmo em uma noite clara, são por vezes contadas em dúzias, se tanto. O fenômeno não apenas nos furta de ver uma rara beleza. Pode causar danos à flora e à fauna e, agora se descobre, também a saúde humana.

Esta distopia nem passava pela imaginação das pessoas quando, em 1879, as lâmpadas incandescentes de Thomas Edison iluminaram pela primeira vez uma rua de Nova York, inaugurando a era da iluminação elétrica.

Hoje, muito mais potentes, lâmpadas – bilhões e de todos os tipos – estão nas ruas, estacionamentos, parques, painéis publicitários, milhões de edifícios comerciais nos quais as luzes permanecem acesas 24 horas por dia, estádios, fachadas do comércio. De avião, pode se avistar o brilho das luzes de Los Angeles a mais de 300 quilômetros de distância, e, quando ocorreu um blackout na cidade por conta de um terremoto, em 1994, muitas pessoas buscaram informações sobre uma nuvem enorme prateada que surgira de repente. Era a Via Láctea.

As luzes elétricas não são inerentemente ruins. Beneficiaram a sociedade estendendo o tempo de trabalho, oferecendo mais iluminação não apenas para esta tarefa, mas também para atividades recreacionais. Mas, quando a luz artificial fora de casa se torna ineficiente, perturbadora e desnecessária, damos a isto o nome de poluição de luz.

Muitos pesquisadores ambientalistas, naturalistas e médicos consideram esta poluição uma das formas de mais rápido crescimento e mais ubíquo do fenômeno. E um número crescente de pesquisas científicas sugere que a poluição de luz pode ter efeitos duradouros para a saúde humana quanto dos animais e plantas.

Richard Stevens, professor de epidemia do câncer da Universidade de Connecticut, diz que os fótons de luzes precisam atingir a retina para que haja efeitos biológicos. “No entanto”, diz ele, “quando há muita luz artificial em um ambiente noturno, há muito mais oportunidade de exposição da retina pelos fótons, que podem prejudicar o ritmo circadiano.

Quase todos nós acordamos durante a noite durante um período de tempo. E a menos que tenhamos blackouts para as janelas, alguma luz elétrica as atravessa. Ainda não está claro quando o muito é demais, mas os efeitos adversos são sentidos por insetos, tartarugas, pássaros, peixes, répteis e outras espécies de vida animal, podendo alterar comportamentos, dietas e ciclos de acasalamento e não apenas em centros urbanos, mas também em áreas rurais.

Luzes brilhantes ainda podem prejudicar o comportamento de pássaros. Cerca de 200 espécies de pássaros voam em seu período de migração sobre a América do Norte, e se confundem durante a passagem por edifícios, torres de comunicação e outras estruturas. Elas os atraem e os desorienta. As estimativas do números de pássaros que morrem por estas circunstâncias vão desde 98 milhões até perto de 1 bilhão.

A desorganização do ritmo circadiano está ligado a diversas desordens em humanos, incluindo depressão, insônia, doenças cardiovasculares e câncer. O ciclo circadiano é o período de cerca de 24 horas no qual se baseia o ciclo biológico de quase todos os seres vivos, e é influenciado principalmente pela variação de luz, temperatura, marés e ventos durante o dia e a noite.

Um número cada vez maior de pesquisadores acredita que a melatonina pode ser a chave para entender a associação entre a luz excessiva e a melatonina . Hormônio produzido pela glândula pineal, a melatonina é liberada durante a noite e sabe-se que ajuda a controlar o relógio biológico. Ela dispara uma série de atividades biológicas, incluindo possivelmente uma redução noturna do estrogênio. Com a exposição à luz, seus níveis são reduzidos drasticamente.

Não vai melhorar. Cientistas estimam que o planeta está ficando dois por cento mais brilhante a cada ano, o que resulta em sérias consequências.

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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