Mileny ganha destaque com poesias que debatem justiça social, ancestralidade, combate ao preconceito e história

Bicampeã do Slam SP, poeta de 23 anos prepara EP Pindorama com uma narrativa educativa, contando a história do país a partir da afro-brasilidade

Por Nathalia Ferreira | ODS 10
Publicada em 11 de março de 2026 - 09:10  -  Atualizada em 11 de março de 2026 - 09:20
Tempo de leitura: 16 min

Mileny Vitória é bicampeã do Slam SP (2024 e 2025), campeã do Torneio dos Slams (2024) e bicampeã do circuito Guilhermina de Poesia, em 2023 e 2024 – (Foto: Arquivo pessoal)

“Pindorama é o nome desta terra dado pelos povos originários… a revolução é popular e precisa da nossa voz, um bom jeito de andar para frente é escutar aqueles que chegaram nessas terras bem antes de nós. Desordem e progresso. E que todo espírito de colonização entre em chamas. Brasil se escreve com ‘s’, mas essa Terra é Pindorama”, foi por intermédio desta poesia que Mileny Vitória, artista e educadora, viu sua arte ganhar destaque nas redes sociais a partir de 2025.

Com seu texto, Mileny despertou em diversas crianças o interesse pela ancestralidade do Brasil antes do “descobrimento”. Um ano depois, a multiartista vencedora nacional de Poesia Falada e bicampeã do Slam SP está prestes a lançar um EP com uma narrativa educativa, contando a história deste país a partir da afro-brasilidade, com o objetivo de ser mais um material didático nas escolas

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O EP terá cinco faixas que falam sobre o Brasil sob diferentes perspectivas e ritmos, como trap, samba e uma pegada de bossa/MPB. São ritmos afro-brasileiros com letras que evocam a ancestralidade. Elas têm um teor pedagógico; imagino professores colocando as músicas para os alunos ouvirem”, explica a artista. 

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A produção musical deve estar pronta até o final de abril de 2026. Produzido com baixo recurso e com parcerias, o projeto terá produções animadas e a participação de crianças que consomem sua arte. 

As origens na arte-educação

A poeta, que nasceu e vive em Mauá, município da Região Metropolitana de São Paulo, se descobriu na arte iniciando no teatro ainda na primeira infância, incentivada pela mãe e pela avó, que também eram do meio. A jovem tem trilhado seu caminho se expressando e contando as vivências pela ótica de uma mulher negra e periférica por meio das batalhas de poesia falada (Slam), dos palcos e nas salas de aula como arte-educadora. 

“Minha avó me inscreveu em um projeto social de oficinas culturais em Mauá e ali fiz teatro de vários tipos: de rua, palhaçaria, máscara, drama, comédia e musical. E quando eu fui me tornando adolescente e jovem adulta, comecei a olhar para minha trajetória no geral e comecei a perceber que o único interesse que eu tinha profissional envolvia a arte”, afirma. 

O ensinar surgiu na vida da atriz de uma forma natural. Como fazia um técnico de teatro paralelo ao ensino médio, sua professora de artes começou a pedir peças para implementar na escola como atividade curricular. “Começou com um grupo de dez alunos, só que aí as pessoas não sabiam fazer teatro. Aí eu falei: ‘Bom, eu sei. Eu acho que eu posso ensinar essa galera. Então, eu comecei a dar aulas de teatro ali na Etec, oficinas mesmo, durante os intervalos’.”.

Segundo a artista, aos poucos o grupo que era pequeno se tornou de 50 pessoas. Na época, com 15 para 16 anos, ela percebeu que, além de atriz e intérprete, gostava também de ensinar. “As pessoas estavam falando da oficina e participando porque estavam fazendo uma propaganda positiva das oficinas. E começou a ter termo de participação, entrega de sala e foi onde eu comecei a me interessar pela arte-educação”.

A profissional atuou dando oficinas de teatro por cerca de três anos em um Centro para Crianças e Adolescentes (CCA). “Teve um corte brusco na assistência social em 2022 para 2023. Muitos arte-educadores foram demitidos e eu fui uma delas. Nesse tempo que fiquei parada, fui estudar Palhaçaria no Doutores da Alegria”, relembra.

Quando minha poesia ficou conhecida, eu comecei a ir nas escolas recitar e falar sobre o gênero e incentivar a literatura. Eu sou convidada por diversas escolas para dar oficinas, palestras e aulas de escrita criativa a partir do meu próprio método de escrita”, conta Mileny. 

Segundo a educadora, foi algo novo, mas benéfico. “Para mim, foi muito gratificante poder transformar o meu processo criativo em material pedagógico. É muito bom mesmo saber que as pessoas têm esse interesse e hoje eu volto ao CCA, com oficinas semanais em uma turma fixa que são os meus ‘xodozinhos’. A gente cria junto, a gente faz poesia, faz música, faz artes plásticas e, durante o restante da semana, eu vou circulando as escolas do interior, São Paulo, fora do estado e fazendo oficinas de escrita”.

Como arte-educadora, Mileny está presente em escolas levando oficinas, poesia e incentivando a literatura, escrita e arte (Foto: Arquivo Pessoal)

Poesia e relevância no Slam 

A história de Mileny com a poesia também começou cedo, mas seus poemas eram “coadjuvantes em sua vida”. Por ser tímida, a artista preferia divulgar os textos que escrevia abordando o cotidiano e sentimentos apenas em seu blog, onde poderia manter o anonimato. “Eu achava que o tipo de poesia que eu escrevia era interessante só para mim. Eu falava da minha vivência como uma mina preta e periférica, além de achar militante demais. Eu pensava: ‘Não sei se mais alguém vai querer ouvir’, então eu guardava para mim”.

Antes de conhecer o Slam, ela acreditava que seus textos não podiam ser considerados poemas; para ela, “poesia era Clarice Lispector”. “Não me entendia poeta, não entendia que o que eu fazia era poesia”, recorda. Ao ver poetas que são referência na poesia falada, como Tawane Teodoro, Naruna e Midria pela internet, Vitória começou a ver semelhanças entre os versos delas e os seus. 

“Eu vi a Midria recitando ‘A menina que nasceu sem cor’ e eu tinha uma poesia muito parecida. Vendo os demais slamers, eu percebi que eles escrevem algo parecido com o que eu escrevo, então eu escrevo slam”, recorda. Com a pandemia de Covid-19, a intérprete intensificou a escrita. Na época, ela tinha cerca de 200 seguidores e começou a registrar as produções nas redes sociais por considerar o ambiente seguro. 

A escritora decidiu expandir o alcance de seus textos ao ler um comentário em um vídeo que dizia: “Nossa, eu queria ver mais poetas aqui, não vejo poetas no TikTok”, lembrou. “Como eu tinha escrito muito, pensei em postar uma poesia por dia. Eu não imaginava que os seguidores iam subir tanto em 2021. Com 18 anos, as pessoas estavam vendo as minhas poesias e não é mais algo que está só no meu bloco de notas”, descreve Mileny. 

Foi com o incentivo de seus alunos que a arte-educadora começou a recitar em uma batalha de Slam. “Os meus projetos com teatro não estavam dando certo, estava em uma crise financeira e psicológica muito forte. A batalha foi um espaço onde comecei a ser ouvida falando das dores que sentia e, de tanto ser ouvida, comecei a me escutar mais”.

De acordo com ela, “o slam é pertencimento”. Mileny explica que, como atriz periférica, nem sempre cabia em todos os espaços do teatro, mas no Slam consegue criar o seu próprio lugar. A primeira vitória veio em Paraty (RJ). “Fui recitar e tirei dez. Na segunda e terceira poesias, dez também. Fui a única da noite com três notas 10 em uma edição especial do Slam da Guilhermina com o Slam da Retomada. Foi muito simbólico”.

Mileny venceu diversas batalhas desde 2022, incluindo o Slam SP e o Campeonato Nacional de Poesia Falada. Por meio de sua arte, ela conheceu o Acre e a Argentina. Em setembro de 2026, a poeta fará um intercâmbio na Inglaterra, na Poetry Foundation, premiação conquistada no Slam BR do ano passado.

Criadora e Slammaster do Slam ABC, Mileny já esteve presente em diferentes competições gritando que “No ABC tem poeta!” (Foto: Arquivo pessoal)

Nasce o Slam ABC 

A criação do Slam ABC surgiu de um incômodo com a solidão de ter que se deslocar para São Paulo sempre que fosse participar dos slams, apesar de haver bastante movimento cultural e de hip-hop no ABC. 

“Abriu um edital da Lei Aldir Blanc aqui em Mauá, em 2023, que era um edital de literatura que permitia a criação de slam e sarau. Isso já era uma vontade que eu tinha, mas com fomento é melhor para que eu consiga pagar poeta, fazer eventos, comprar uma caixa de som e luz; já é um diferencial”, explicou Mileny. 

O projeto foi aprovado em primeiro lugar no edital, recebendo R$ 10 mil para a realização de oito edições. Para estruturar o projeto, a até então competidora aprendeu sobre a função de Slam Master consultando outros organizadores. “Eu sempre tive muita referência em dois slams: o da Guilhermina e o 13”, revela. 

“Assim surgiu o Slam ABC na Praça do Relógio, que fica no centro de Mauá. Fiz questão de que fosse aqui, porque Mauá é uma cidade onde a cultura pulsa de várias formas”. A primeira edição ocorreu em fevereiro de 2024. Há dois anos, a região do ABC conta com encontros mensais que incentivam a poesia. 

O grito do Slam ABC é um acróstico com seis das sete cidades da região: “Arte bagunçando a cena, resistência à meta, pode avisar: no ABC tem poeta”

Processo criativo como poeta 

Apesar de a arte-educadora criar suas poesias a partir de suas vivências, ela nem sempre se sentia à vontade para mostrar os textos aos alunos. No entanto, uma “virada de chave” em seu processo criativo resultou nas poesias que alcançaram milhares de visualizações nas redes sociais.

“Meu processo criativo é dividido em duas vertentes de poesias que são muito minhas, mas que aparecem em lugares diferentes na minha vida. Quando entrei na cena, eu falava muito sobre questões psicológicas e autoestima. Mas isso me vulnerabilizava e, hoje em dia, procuro evitar externar minhas feridas para tirar nota. Hoje não faz mais tanto sentido”, afirma a artista. 

A poesia Eufemismo foi a primeira a dialogar com sua ideologia e com pautas coletivas. “São temas que influenciam minha vivência e meu papel como educadora, e que eu poderia passar para os meus alunos diretamente”. Assim, ela passou a abordar em seus textos temas como machismo, homofobia e racismo de forma estrutural, trazendo fatos que falam do coletivo em vez de focar apenas em sofrimentos individuais. 

“Quando recitei Eufemismo pela primeira vez, as pessoas disseram: ‘Nossa, eu aprendi uma palavra nova, descobri o que era eufemismo’. Esse lugar de arte-educadora na poesia começou a me agradar muito, porque comecei a me sentir mais forte e mais confiante recitando”, conclui Mileny. 

Abya Yala e Pindorama 

Foi ouvindo a música This is Not America, do grupo Residente, que Mileny Vitória se inspirou para criar Abya Yala. “Essa música mexe comigo, esse tema mexe comigo e eu nunca havia escrito sobre ele. Por que não?”, questionou-se na época. A poesia fala do continente americano, celebrando o orgulho latino. O impacto nas redes sociais foi imediato. “Consegui levar para a poesia a sensação que tive ouvindo a música, embora o texto seja completamente diferente”, explica. 

A poeta traz em sua escrita frases e reflexões diretas, sem margem para dúvidas. Ela se orgulha da forma como sua mensagem chega ao público. “Quando recito: ‘Que a gente vire a Terra de ponta-cabeça, mas nenhum europeu nunca mais olhe a gente de cima’, as pessoas vibram. Eu fico impressionada com o efeito que causou”.

A obra faz críticas à colonização e destaca os povos originários. Com trechos em Libras e espanhol, a artista relembra nomes importantes da história negra e resgata o nome dado a este território pelos indígenas antes da invasão europeia: Pindorama. 

Depois do impacto dessa poesia, quis causar o mesmo efeito falando especificamente sobre ser brasileiro. Parto da mesma premissa: chamo a América de Abya Yala e o Brasil de Pindorama. Quero falar sobre valorizar nossa cultura e acabar com o viralatismo”, afirma. 

Assim como Abya Yala, a poesia Pindorama viralizou rapidamente, mas de uma forma inesperada: tornou-se um fenômeno entre as crianças, com desafios de memorização de texto no TikTok. “Em 2025, viralizar com mais de 50 milhões de visualizações entre o público infantil é surreal para mim”, conta Mileny. 

No entanto, a exposição trouxe o lado sombrio das redes. Ao mesmo tempo em que recebia carinho, a artista passou a ser alvo de ataques agressivos, incluindo comentários racistas, misóginos e ameaças. “A galera pesa a mão. É muita merda que você escuta”, desabafa.

O perigo escalou quando figuras públicas atacaram crianças que reagiam aos seus vídeos e isso a fez se sentir culpada, mesmo recebendo apoio dos pais da criança, que acionaram advogados e agradeceram pelo incentivo pedagógico dos vídeos. 

“Os pais me disseram que as notas dela na escola melhoraram por causa dos textos. Foi um apoio importante”, lembra. Para ela, o retorno positivo sobressai. Professores enviam vídeos de alunos recitando suas poesias e, em suas oficinas, ela é recebida com entusiasmo. “Fico feliz de colaborar com o pensamento decolonial dessa nova geração. São crianças que agora entendem a história sob outra perspectiva, entendendo o Cabral como vilão”.

EP com propósito pedagógico 

O sucesso de Pindorama foi tão potente que repercutiu em uma vertente que a multiartista não considerava inicialmente: o mercado musical. “Comecei a receber convites de produtores, mas nada era a minha vibe. Até que a Popline entrou em contato e apresentou o produtor Felipe, que criou beats inspirados na minha poesia. Quando ouvi, senti meu coração brilhar e percebi que, se eu fosse criar algo, seria nesse estilo”, afirma. 

Mileny aceitou o desafio, entretanto, o processo foi complexo. Ela enfrentava o luto pela perda da mãe, ocorrida em fevereiro de 2025. Em agosto, decidiu seguir com o projeto para “sentir que as coisas ainda estavam acontecendo”. 

Apesar da incursão musical, a poeta alerta o público para não esperar o padrão do rap feminino atual: “As faixas trazem um discurso coletivista, político e revolucionário, focado na luta de classes. São letras diretas, feitas para fazer o ouvinte pensar”. 

O clipe de Pindorama será uma homenagem aos alunos e educadores que abraçaram o texto, mostrando os lugares que a poesia pode acessar. “O que eu posso abrir é que boa parte do clipe será em uma sala de aula”, conta a artista.

Com apenas 23 anos, Mileny Vitória se sente sortuda por poder viver da arte e ter a oportunidade de ser vista, algo que ela considera um “privilégio para uma mulher preta periférica”, ao contrário de figuras como Carolina Maria de Jesus, que quase não tiveram o devido reconhecimento em vida. 

A artista vê a “celebração em vida” como uma forma de honrar a ancestralidade e de mostrar que é possível para outros jovens sonharem e trabalharem com arte, indo além das limitações impostas pela realidade. Ela enfatiza: “a arte-educação me salva diariamente. especialmente ao ver professores usando meus textos em sala de aula e alunos sendo aprovados em universidades públicas citando minhas poesias”

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Nathalia Ferreira

Jornalista com pós-graduação em Social Media e MBA em Digital Business. Possui experiência em comunicação digital e redação jornalística com passagem no Notícia Preta e RedeTV!. Nathalia acredita que a comunicação deve dialogar com o social, as políticas públicas e a diversidade e, por isso, se dedica à construção de narrativas acessíveis, ancestrais, plurais e, sobretudo, transformadoras.

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