ODS 1
Mais de 60 países começam a discutir futuro sem combustíveis fósseis


Colômbia recebe representantes de governos e sociedade civil na 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis


Pelo menos 62 países já confirmaram presença na primeira conferência internacional dedicada à eliminação do uso de combustíveis fósseis, que acontece na cidade colombiana de Santa Marta, a partir desta sexta-feira (24/05). Anunciado durante a COP30, em Belém, o evento surgiu da convicção, compartilhada por um número crescente de nações, de que, enquanto as principais negociações multilaterais sobre o clima permanecem paralisadas pelos interesses dos maiores emissores, aqueles que já estão preparados para agir precisam encontrar seu próprio espaço para avançar.
Organizada pelos governos da Colômbia e da Holanda, a 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis tem como objetivo funcionar como um espaço para aprofundar debates de forma horizontal e democrática. Para a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez, no âmbito da COP30, ficou impossível abordar o que para muitos países é o cerne do problema climático — a extração e o consumo de combustíveis fósseis. “Naquela ocasião, diversos países concordaram que era necessário criar um fórum para discutir aberta e honestamente quais medidas, tanto subnacionais quanto coordenadas em nível global, permitiriam uma transição ordenada para superar essa dependência”, afirmou a ministra ao jornal colombiano EL Tiempo.
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A escolha de Santa Marta não foi por acaso. A cidade caribenha é o principal porto de exportação de carvão da Colômbia, tornando-se um local simbólico para transmitir a mensagem de que a transição é possível mesmo nos territórios mais dependentes de combustíveis fósseis. O encontro se concentra em três temas principais: como superar a dependência econômica dos combustíveis fósseis, como transformar a matriz energética e como construir uma nova diplomacia climática global. Para Irene Vélez, este último ponto é o legado mais importante: “Em um contexto de crise no Oriente Médio, onde a principal causa da guerra é justamente o petróleo, não poderia haver momento mais oportuno do que nos reunirmos em Santa Marta para discutir essas questões com honestidade e franqueza”, acrescentou.
Os oranizadores procuram destacar que a conferência é complementar aos debates na ONU. “Não se destina a servir como um órgão de negociação, nem constitui parte de qualquer processo ou iniciativa formal de negociação, e não se destina a substituir a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas [UNFCCC, na sigla em inglês]”, informa o texto de apresentação da conferência.
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Veja o que já enviamosEntre os países com delegações confirmadas, estão grandes produtores de combustíveis fósseis, como Canadá, Brasil, México e Noruega, além da Austrália, uma das maiores exportadoras de carvão do mundo. Também são esperados cerca de 3 mil integrantes da sociedade civil, entre cientistas, políticos, parlamentares, representantes do setor privado e de comunidades tradicionais.
Segundo a vice-ministra da Colômbia, Luz Dary Carmona, o objetivo do encontro não é produzir uma declaração formal, como ocorre nas conferências climáticas da ONU (COPs), mas ser um espaço complementar de articulação, fortalecimento e ampliação dos esforços para a transição energética no nível global. “Esta conferência não vai tentar convencer ninguém. Nela estamos aqueles já convencidos de que é urgente realizar ações de transformação para diminuir a dependência dos combustíveis fósseis e acelerar a transição”, disse em entrevista coletiva no começo da semana.
Para representantes das organizações da sociedade civil, o encontro em Santa Marta é visto como uma oportunidade de ampliar a coalizão de 84 países a favor do roteiro global para o fim dos fósseis – formada ano passado na COP30 e liderada pelo Brasil – e de estabelecer critérios para esta mudança.
Para Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, em um momento em que o combate à mudança do clima perde espaço nas prioridades dos governos, o simples fato de a conferência de Santa Marta existir já é um sucesso. “Se pensarmos bem, sabemos que os combustíveis fósseis causam mudanças climáticas desde a década de 1890 e nunca houve uma reunião de países para discutir como lidar com isso”, disse, em entrevista coletiva realizada pela The Global Gas and Oil Network (GGON).
Segundo ele, a participação de mais de 50 nações e a mobilização da sociedade civil e da opinião pública também são medidas-chave de sucesso, já que este é um movimento tanto político quanto técnico. “Esperamos que essa coalizão cresça à medida que avança. Como sabemos, um dos objetivos finais também é produzir, no futuro próximo, um tratado de não proliferação de combustíveis fósseis”, completou.
Mapas do Caminho para transição energética
Natalie Jones, assessora sênior de políticas do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD, na sigla em inglês), concorda com o entendimento. Segundo ela, a Conferência de Santa Marta é apenas o começo de um processo. “Estamos na linha de partida agora, este não é o fim da corrida. Esta conferência produzirá um relatório que deve sair em meados do ano, e então o processo continuará. É importante que a vejamos como a primeira de uma série de conferências e um lugar onde as bases podem ser lançadas, o que, com sorte, levará a um maior sucesso adiante”, afirmou, lembrando que o processo não começa do zero: 46 países já têm planos de descarbonização do setor elétrico e pelo menos 11 têm estratégias para reduzir a oferta de fósseis.
Na avaliação do especialista em Conservação do WWF-Brasil, Ricardo Fujii, a delegação brasileira chega à Conferência de Santa Marta com a oportunidade de exercer um papel estratégico na construção de consensos e na transformação de iniciativas globais em ações efetivas. “Em um momento de instabilidade internacional, a liderança brasileira pode ajudar a articular esforços formais e informais, fortalecendo a cooperação climática e entregando respostas concretas para a sociedade”, diz.
A iniciativa da Colômbia, um dos países que integram o território da Amazônia, também foi destacada pelas organizações sociais. A coordenadora de Oceanos do Greenpeace Brasil, Mariana Andrade, considera simbólico que a primeira conferência internacional para discutir transição energética justa aconteça na região, em um momento em que as tentativas de exploração de petróleo na Foz do Amazonas representam um alerta. “Explorar petróleo e gás na Amazônia terá significativas consequências socioambientais locais e globais, já que o bioma é essencial para manter o equilíbrio climático do mundo. Em Santa Marta, esperamos que os países reforcem a urgência de barrar a expansão da indústria fóssil na Amazônia antes que os danos sejam irreversíveis”, conclui.
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Oscar Valporto
Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade





































