Fome em proporções bíblicas no Iêmen devastado pela guerra

O desnutrido Basel, de apenas 1 ano de idade, no acampamento que vive com os pais no Iêmen: fome se espalha em país destroçado pela guerra (Foto: PMA/ONU)

Mais de 16 milhões de iemenitas, metade da população, estão em situação de insegurança alimentar, que atinge principalmente mulheres e crianças

Por Nicole Polo | ODS 1ODS 2 • Publicada em 4 de janeiro de 2022 - 09:27 • Atualizada em 11 de janeiro de 2022 - 09:08

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O desnutrido Basel, de apenas 1 ano de idade, no acampamento que vive com os pais no Iêmen: fome se espalha em país destroçado pela guerra (Foto: PMA/ONU)

Os índices de desnutrição no Iêmen são um dos mais severos no mundo. Segundo relatório de outubro de 2021 do Programa Mundial de Alimentos (PMA), a insegurança alimentar no país afeta 16,2 milhões de pessoas – mais da metade da população de cerca de 30 milhões de habitantes; apenas a Somália tem uma percentagem maior (59,5%) de habitantes subnutridos. A situação de fome para mulheres e crianças é ainda mais delicada: 1,2 milhão de mulheres grávidas ou amamentando está subnutrida e cerca de 2,3 milhões de crianças com menos de cinco anos precisam de tratamento contra a desnutrição aguda.

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O agravamento da situação de fome no Iêmen – país mais pobre do Oriente Médio apesar de ter reservas de petróleo – alarma o Programa Mundial de Alimentos, que enfrenta uma redução de doações, fundos e estoques com a pandemia. Recentemente, o diretor-executivo do PMA, David Beasley, alertou que o primeiro semestre de 2022 poderia ser “brutal” no país após sete anos de guerra. “Estamos diante de uma situação de fome em proporções bíblicas que não parece haver como evitar”, alertou.

O drama da fome é vivida pela família de Ali e Afraah e seus cinco filhos: Basel, de um ano de idade; Farida, sua irmã, de dois anos; Fariha, de três anos; Amir, de quatro anos; e Yasmine, a filha mais velha, de seis anos. O casal deixou Hodeidah, no litoral do Iêmen, em 2017, logo após um ataque aéreo que resultou na morte do pai de Afraah. A casa deles foi parcialmente destruída no ataque e foi tomada, em seguida, por um dos grupos armados que atuam no país. Ali e Afraag fugiram para o Sul, com Yasmine, única filha na época, e Ziad, sobrinho órfão do casal, de seis anos.

Atualmente, eles vivem em um campo de deslocados internos que fica em uma antiga escola no distrito Dar Sad, em Áden, cidade no sudoeste do Iêmen, e engrossam a estatística de quatro milhões de deslocados no Iêmen. Todos os filhos do casal, exceto Yasmine, nasceram no campo, mas a desnutrição é uma realidade para todos os cinco irmãos.

Ali, antes da guerra, trabalhava como assistente de almoxarifado em Hodeidah. O dinheiro que ganhava era suficiente para sustentar todas as necessidades básicas de sua família. Contudo, com a guerra, ele perdeu o emprego e a chance de manter sua família. “A guerra acabou com a gente. Minha família não vive mais numa casa como era quando morávamos em Hodeidah. Quando as crianças falam ‘baba, estamos com fome’, eu sinto muita frustração e dor. Mas está tudo muito caro”, contou o iemenita.

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Ali consegue alguns trabalhos esporádicos, sempre mal pagos, mas nada fixo para sustentar a família. Sua família recebe uma ajuda mensal do PMA, mas Ali explicou que, com o aumento constante dos preços dos alimentos, o dinheiro não é suficiente para o mês todo. A escassez de comida e o acesso a um saneamento precário afeta, principalmente, os filhos do casal. “Hoje, eu dependo completamente do dinheiro da assistência do Programa Mundial de Alimentos. É a minha única fonte de renda fixa. A primeira coisa que passa na minha cabeça quando recebo a quantia é comprar comida para os meus filhos”, desabafou.

Afraah com Basel na clínica de nutrição apoiada pelo Programa Mundial de Alimentos, em Áden no sul do Iêmen: 'A fome me dá medo' (Foto: PMA/ONU)
Afraah com Basel na clínica de nutrição apoiada pelo Programa Mundial de Alimentos, em Áden no sul do Iêmen: “A fome me dá medo” (Foto: PMA/ONU)

Afraah contou que normalmente eles fazem uma única refeição por dia de arroz e vegetais. Ela disse que, quando o marido consegue um dinheiro a mais, eles até compram um peixe, mas não conseguem comprar carne vermelha. “A fome me dá medo. Você se sente muito triste quando seu filho fala para você ‘mãe, estou com fome’. Você se sente horrível, mas não tem nada para dar para eles comerem”, relatou.

Com os preços elevados dos combustíveis, a família está tendo dificuldades de chegar até a clínica de saúde do distrito, pois os transportes públicos estão mais caros e eles precisam guardar dinheiro para comprar comida. Além disso, entre a clínica e o campo onde eles estão, é uma hora de caminhada, o que dificulta a ida da família.

A alimentação precária de Ali, Afraah e de seus filhos é um exemplo do que acontece com 16,2 milhões de iemenitas hoje, segundo o Mapa da Fome de novembro de 2021. Eles ainda têm o apoio do PMA, porém muitos iemenitas ficam de fora dos programas de atendimento oferecidos pelas agências humanitárias que atuam no país.

Basel tem seu braço medido para checar nível de desnutrição em Áden: mais de dois milhões de crianças subnutridas no Iêmen (Foto: PMA/ONU)
Basel tem seu braço medido para checar nível de desnutrição em Áden: mais de dois milhões de crianças subnutridas no Iêmen (Foto: PMA/ONU)

Crise humanitária

A iemenita Sukaina Sharafuddin trabalha como agente humanitária pela Save the Children, uma organização humanitária que ajuda crianças em situações de crise em seu país. “Nós nos sentimos presos de todos os ângulos: nossa economia está colapsada e, em questão de renda, as pessoas não conseguem emprego e estão morrendo de fome por não conseguirem sustentar suas famílias”, contou Sukaina, que tem um filho de seis anos.

A agente humanitária observou que a situação no país piorou muito desde o começo da guerra em 2015. Para ela, antes as coisas eram difíceis, o país já era muito pobre, mas era mais fácil de viver. Agora, ela sente que é cada vez mais difícil morar lá – e não é apenas pela permanente insegurança alimentar. “Diversas doenças estão se disseminando de novo no país, como a cólera e, agora, há a covid-19”, acrescentou.

Segundo Sukaina Sharafuddin, hoje no Iêmen, todos os membros das famílias vão atrás de comida e água, incluindo as crianças. Essas crianças faltam à escola para ajudar a família a sobreviver. Ela também falou que a pressão para as mães alimentarem seus filhos e garantirem que tudo esteja bem, além de apoiarem seus maridos, afeta muito as mulheres no país. “Eu conheci uma mãe de 5 filhos que me disse: ‘Gostaria que uma bomba, um ataque aéreo nos acertasse e nos levasse, em vez de nos ameaçar todos os dias e de tornar difícil para mim alimentar meus filhos. Eles choram até dormirem todas as noites por conta da fome. Uma ou duas refeições que fazemos por dia não é suficiente’”.

A agente humanitária explicou que o preço da comida subiu 300%. Como o país depende de importação para quase todos os produtos, especialmente alimentos, o fechamento das fronteiras por causa do coronavírus contribui para o aumento dos bens. Contudo, a iemenita mencionou a saúde mental como uma outra questão séria para a população. “A guerra está acontecendo já tem muitos anos e as pessoas estão esgotadas. Nós estamos cansados de toda essa situação. A vida se tornou insustentável. As pessoas não têm mais sonhos para o futuro; elas não fazem planos; elas só vivem dia após dia”, desabafou Sukaina.

Mulheres iemenitas com suas crianças subnutridas em clínica na província de Hodeida, uma das mais atingidas pela guerra: mais de metade da população do país em situação de insegurança alimentar (Foto: Khaled Ziad / AFP - 07/08/2021)
Mulheres iemenitas com suas crianças subnutridas em clínica na província de Hodeida, uma das mais atingidas pela guerra: mais de metade da população do país em situação de insegurança alimentar (Foto: Khaled Ziad / AFP – 07/08/2021)

Sem recursos para combate à fome

O Programa Mundial de Alimentos é o maior responsável pela distribuição de alimentos e está passando por uma grande dificuldade de arrecadação de fundos, desde o ano passado, para a Guerra no Iêmen. Annabel Symington, do escritório de comunicação do PMA no país, explicou que o dinheiro para a atuação da organização no Iêmen está acabando. “Estamos passando por muitas crises no mundo. Temos o Tigray, na Etiópia, o Afeganistão, que são crises profundas também. Mas a questão agora, para nós, no Iêmen, é a falta de fundos. Tivemos que priorizar áreas mais críticas de fome aqui”, explicou.

No ano passado, o PMA precisou fazer alguns cortes na ajuda humanitária por conta da falta de verba e ela teme que o mesmo aconteça nos próximos meses. “Precisamos de uma força tarefa para a arrecadação dos fundos para o ano que vem para que, assim, todos possam ser atendidos”, afirmou Annabel Symington.

Já foi enviado aos doadores, em sua maior parte países, sendo o Brasil um deles, o valor necessário para financiar a assistência humanitária no Iêmen até abril de 2022, que é de US$ 802,4 milhões. Entretanto, segundo ela, pouco foi arrecadado para manter a presença do WFP no país. Annabel disse não poder especular a respeito dos motivos que levaram à falta de verbas, já que os estados não deram explicações.

O problema de financiamento também afeta outras organizações que atuam no país.  Wasa Absulwasea, agente humanitário da Oxfam no Iêmen, contou que um dos maiores desafios é a arrecadação de fundos para que o trabalho possa continuar sendo feito. A organização conseguiu apenas por volta de 55% da verba requerida no meio do ano para seguir com suas ações no Iêmen.

Iemenitas deslocados de suas casas recebem ajuda humanitária do Programa Mundial de Alimentos na província de Haijah: PMA sem recursos e com dificuldades de alcançar todas as regiões do Iêmen por conta da guerra (Foto: Essa Ahmed / AFP - 12/01/2021)
Iemenitas deslocados de suas casas recebem ajuda humanitária do Programa Mundial de Alimentos na província de Haijah: PMA sem recursos e com dificuldades de alcançar todas as regiões do Iêmen por conta da guerra (Foto: Essa Ahmed / AFP – 12/01/2021)

Guerra, desastres naturais e pragas

Segundo o iemenita Absulwasea, o conflito no país, que começou há sete anos, tem assistido a uma escalada na violência nos últimos tempos. “A situação do Iêmen não era favorável antes da guerra. Ele já era um dos países mais pobres do mundo. Com o conflito, a situação piorou e não há sinal de melhora. Nós vemos a todo momento a luta incessante entre o governo e os Houthis (grupo étnico da região), além da interferência armada internacional. Hoje, há mais de 40 linhas de frente da guerra”, explicou.

Por causa da guerra, os agentes humanitários têm acesso negado a algumas regiões do país. Isso atrasa os programas de assistência e impede que muitos necessitados tenham acesso aos auxílios dados. Absulwasea explicou que, como 80% dos iemenitas não sobrevivem sem a ajuda humanitária, o impedimento desse auxílio coloca vidas em risco.

Agora com a chegada do inverno, a situação se torna mais complicada, pois não há comida e abrigo suficientes para atender as demandas. Além disso, a produção de alimentos no Iêmen está estagnada pelo conflito, mas também sofreu, de acordo com o trabalhador humanitário, com desastres naturais.

Os últimos períodos de chuva foram muito intensos, alagando muitas regiões, o que levou a um prejuízo de US$ 200 milhões. Para o agente humanitário, esse quadro mostra que os iemenitas já estão sentindo os impactos das mudanças climáticas. Além dos desastres, diversas plantações sofreram com pragas, o que diminui ainda mais a oferta de comida internamente.

O pequeno iemenida Haiyan Saeed, de 18 meses de idade e 4 quilos de peso, numa clínica para desnutridos em Hodeida: crianças e mulheres são 73% dos deslocados pela guerra (Foto: Khaled Ziad / AFP - 06/11/21)
O pequeno iemenida Haiyan Saeed, de 18 meses de idade e 4 quilos de peso, numa clínica para desnutridos em Hodeida: crianças e mulheres são 73% dos deslocados pela guerra (Foto: Khaled Ziad / AFP – 06/11/21)

Deslocamentos internos

Além da desnutrição e perda de poder aquisitivo, a população do país sofre com o deslocamento interno. Essa movimentação é causada, principalmente, pelo conflito, que destrói trabalhos e famílias. A maior parte da população hoje está indo para o norte do país. De acordo com Absulwasea, muitos trabalhadores, no sul do Iêmen, estão sem receber há oito meses .

Atualmente, são mais de quatro milhões de deslocados internamente, o que agrava ainda mais a insegurança alimentar do Iêmen. Entretanto, os que mais sofrem são as mulheres e as crianças. Esses dois grupos são os majoritários entre os deslocados internos no país, chegando a 73%.

As mulheres e crianças são os mais prejudicados em qualquer situação de crise. Porém, no Iêmen, as mulheres sofrem com um agravante: o preconceito de gênero. Mesmo sendo maioria no grupo de deslocados, grupos conservadores do país não permitem que as mulheres recebam diretamente a comida oferecida pelas agências humanitárias, é necessária a presença do homem, conforme relatou Absulwasea.

Elas também sofrem com a violência de gênero e com a desigualdade. Segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), cerca 6,1 milhões de mulheres precisam de serviços de proteção urgentemente e, mesmo com essa alta demanda, em 2020, houve um crescimento de somente 37% dos serviços de proteção de gênero. O problema do financiamento aparece novamente: somente 54% dos US$ 27 milhões requeridos, em 2021, para os programas de proteção das mulheres foram arrecadados.

Iemenitas em área destruída por ataque saudita em Sanaa, capital do país: sete anos de guerra entre exército oficial e forças rebeldes (Foto: Mohamed Huwais / AFP - 05/12/2021)
Iemenitas em área destruída por ataque saudita em Sanaa, capital do país: sete anos de guerra entre exército oficial e forças rebeldes (Foto: Mohamed Huwais / AFP – 05/12/2021)

A guerra esquecida do Iêmen

O iemenita Fahmi Albaheth trabalhou como agente humanitário de 2015 até novembro deste ano. Ele decidiu largar o trabalho, pois a situação está se tornando cada vez mais difícil no país, impossibilitando uma vida digna. “Não posso continuar morando aqui. Eu não consigo dormir por causa dos sons dos confrontos e das bombas na linha de frente. Eu também tenho uma filha de quatro anos. Eu quero que ela viva e receba educação”, contou.

Ele compartilha problemas comuns à grande maioria de seus compatriotas. “Durante os últimos seis anos, minha família se deslocou duas vezes. Minha casa foi parcialmente danificada muitas vezes. Eu tinha 100% de certeza de que morreria em algumas centenas de vezes. Você não consegue encontrar um bom hospital, escola, eletricidade, água. Ninguém se sente seguro. Eu já perdi muitos amigos e parentes nesta guerra”, desabafou.

Albaheth afirmou que a comunidade internacional não tem seriedade para resolver e acabar com a guerra e disse sentir que ela não se importa com a situação humanitária no Iêmen. “Eles acham que é melhor manter a guerra em andamento. Mesmo internamente, algumas lideranças não querem que o conflito termine. Em termos de situação humanitária, não há fundos suficientes para apoiar e ajudar os necessitados. Mesmo na mídia, o Iêmen não é uma prioridade”, afirmou o ex-agente humanitário, para quem o conflito é como um jogo de cartas para os líderes globais, pois há muitos interesses econômicos envolvidos.

Para Sukaina Sharafuddin, da Save the Children, muitas pessoas não conseguem entender a Guerra no Iêmen pela sua complexidade política. Contudo, ela acredita que as pessoas deveriam focar no sofrimento humano que acontece em seu país. “Os estrangeiros esquecem que pessoas inocentes e a maioria das crianças são aquelas que sofrem com a situação. Para as pessoas chegarem à beira da fome, a morrer de fome, isso mostra que o mundo não está fazendo o suficiente para nos apoiar. Deveria ter mais pressão para que essa guerra acabe”.

Nicole Polo

Nicole Polo é estudante de Jornalismo da PUC-Rio, onde também faz uma especialização em Política Internacional. É estagiária no Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil (UNIC Rio de Janeiro). Ativista feminista, integra a Marcha Mundial das Mulheres. Tem interesse em Direitos Humanos e no Direito Humanitário Internacional.

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