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Kamikatsu, uma cidade sem lixo

Povoado no Japão recicla 80% do seu lixo e a separação é feita em 45 diferentes categorias. Moradores praticam o consumo consciente há 15 anos


Povoado de Kamikatsu, no Japao. Foto de divulgacao
Povoado de Kamikatsu, no Japão, onde 90% do lixo é reciclado, virou ponto turístico. Foto de divulgação

Existe um lugar onde praticamente o lixo acabou. Ele fica nas montanhas da ilha de Shikoku, no sudoeste do Japão. Não fosse pelo fato de todo material orgânico virar adubo e o índice de reciclagem dos resíduos sólidos ser o maior do mundo – acima de 80% -, Kamikatsu seria um povoado rural esquecido no mapa-múndi. Só que não. A cidade virou uma referência global em reciclagem e gestão dos resíduos e é hoje o exemplo mais emblemático de cidade lixo zero no mundo. O desperdício zero será alcançado em dois anos, em 2020. Uma meta aparentemente impossível, mas que os moradores desta cidade estão mostrando ao mundo que é factível.

Central de Reciclagem em Kamikatsu. Foto de Divulgacao
Central de Reciclagem em Kamikatsu. Foto de Divulgação

A separação é complexa e detalhada. Enquanto no padrão global a divisão do lixo é restrita a quatro itens (papel, plástico, alumínio, vidro e orgânicos), neste povoado, pasme: a separação é feita em 45 categorias. Os detritos que não são reaproveitados – um percentual de 20% de tudo que é consumido na cidade -, vai parar em lixões, que estão com seus dias contatos. Jogar fora uma latinha de cerveja Sapporo, por exemplo, não é tarefa simples. Se ela for de alumínio, a embalagem é descartada em um recipiente; se for de aço, o destino já é outro. Uma embalagem de vidro pode ter até quatro diferentes destinações – tudo vai depender do tipo de material. E por aí vai. Há caixas para jornal, revista, tampas de metal, adesivo de garrafas, lâmpadas…

Fomos a primeira cidade do Japão a declarar a ambição de lixo zero

Akira Sakano
Presidente do Conselho da Zero Waste Academy

“Fomos a primeira cidade do Japão a declarar a ambição de lixo zero”, lembra Akira Sakano, que ganhou, durante o Fórum Econômico Mundial, o título de “transformadora global”. O reconhecimento em Davos veio há três anos, pouco mais de uma década depois da revolução que ajudou a liderar em Kamikatsu, sua cidade natal.

Akira e Rodrigo Sabatini. Foto de Divulgacao
Akira e Rodrigo Sabatini, organizador do congresso em Brasília. Foto de Divulgação

Presidente do Conselho da Zero Waste Academy, no Japão, e consultora de políticas de Lixo Zero no seu país, Akira veio ao Brasil apresentar a experiência de Kamikatsu durante o 1º Congresso Internacional Cidades Lixo Zero. Depois de 30 horas de voo, desembarcou no palco do encontro e mostrou como sua cidade resolveu um problema que vai além da gestão do lixo.

“A consciência ambiental de cada um dos moradores de Kamikatsu é nossa maior aliada”, comentou, acrescentando que a meta de chegar em 2020 com zero de desperdício não se restringe a gestão do lixo. “A redução do consumo é fundamental para reduzir a produção de lixo”, defende, acrescentando que os moradores da cidade praticam a redução, a reutilização e a reciclagem – o que na linguagem acadêmica é conhecida como 3 Rs, ou seja, reduzir, reutilizar e reciclar.

Kimono é transformado em bolsa. Foto de Divulgacao
Kimono é transformado em bolsa. Foto de Divulgação

Não há caminhões de lixo em Kamikatsu, a quinta menor cidade do Japão em termos populacionais. Com uma população eminentemente idosa – mais da metade dos moradores tem acima de 65 anos, o consumo consciente é um mantra seguidos por todos. Nada é desperdiçado. Um quimono velho, por exemplo, pode virar uma bolsa. A cidade tem algumas lojas no estilo Kuru-kuru – espécie de loja de troca, onde o morador pode deixar uma peça de roupa ou um utensílio que não usa mais e trocar por outro, ou ainda apenas deixá-lo para ser reciclado.

 

 


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