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Na Dinamarca, até príncipes frequentam escola pública

País investe três vezes mais que o Brasil em cada aluno, paga bem professores e 80% dos estudantes chegam à faculdade


Príncipe Christian, o segundo na linha do trono após seu pai, estuda em escola pública
Príncipe Christian, o segundo na linha do trono após seu pai, estuda em escola pública

O príncipe da Dinamarca Christian, de 10 anos, e a irmã, a princesa Isabella, de 8 anos, já voltaram às aulas, e, com isso, seguem diariamente para uma escola pública em Copenhague. Christian foi o primeiro da família real a ser matriculado numa instituição do governo, em 2011, e dois anos depois foi a vez da caçula. Apesar de um anúncio de cortes no setor e de uma reforma curricular controversa, o país tem um dos melhores sistemas educacionais do mundo, a começar pelo montante investido: 5% do Produto Interno Bruto (PIB) são destinados apenas à educação básica, o maior índice entre os 33 países listados pela OCDE no relatório “Education at a Glance 2015”. Isso equivale a mais de US$ 10 mil por aluno anualmente. Para efeito de comparação, o Brasil gasta US$ 3.441 com cada aluno da educação básica à superior, ou seja, US$ 5.876 a menos do que a média das nações que compõem a OCDE.

Princípes Christian e Isabella
Princípes Christian e Isabella

A escola dos príncipes está acima da média. Eles frequentam a instituição Tranegård, que ficou entre as melhores num ranking nacional no ano em que Christian foi matriculado. Além disso, está localizada no bairro de Hellerup, entre os mais ricos da capital. Fora isso, não é muito diferente de uma escola típica, com 500 alunos distribuídos em 21 turmas.

Na Dinamarca, a escola pública chama-se “Folkeskole”, o que significa escola do povo, é gratuita e compreende dez anos de estudo, até a nona série. O ensino médio, também gratuito, pode ter diferentes modelos, desde técnico à formação geral. Hoje quase 600 mil alunos estão matriculados em 1600 escolas públicas espalhadas pelo país, cerca de 80% do total de estudantes. No Brasil, o Censo Escolar de 2014, divulgado pelo Inep, revela que há 49, 7 milhões de estudantes no ensino básico, destes 18, 3% (ou pouco mais de 9 milhões) estão na rede privada. Por aqui, o número de alunos em escolas particulares vem aumentando, ainda que Rio de Janeiro e São Paulo tenham registrado, em 2015, um aumento no número de transferências de alunos de colégios particulares para os públicos, o que alguns apontam como consequência da crise econômica.

No país escandinavo, no entanto, não há essa percepção de que a rede privada é superior à publica. Lá, os estudantes têm aulas tradicionais de geografia, matemática, dinamarquês, história, biologia etc., além de aulas de inglês (e o país é de fato praticamente bilíngue), segunda língua (espanhol, alemão ou francês, geralmente), música, artes visuais, trabalhos manuais, educação sexual, entre outras. Ao todo 96% das crianças em idade escolar estão estudando no país, seja no sistema público ou privado. Dessas, 87% conseguem chegar ao ensino superior.

– Nunca pensei na minha escola como sendo “pública”, é a escola normal. Muito mais raro é encontrar pessoas que foram para escola privada. O fato de o príncipe frequentar uma instituição pública nem deu tanta mídia exatamente porque não entendemos isso como algo excepcional – comenta Anna Eva Heilmann, que frequentou uma escola pública em Sagen, no Norte do país, passou pela graduação e hoje já cursa um mestrado.

Anna Eva  lembra que a escola era antiga, mas com prédios renovados e um pátio espaçoso; além disso, seus professores eram talentosos e bem formados.

A Tranegård, escola dos príncipes, uma das mais respeitadas do país
A Tranegård, escola dos príncipes, uma das mais respeitadas do país

Os professores têm bacharelado de quatro anos, e muitos seguem estudando. Eles estão entre os mais bem pagos entre os países da OCDE, com salários que variam entre US$ 45 mil e US$ 62 mil por ano, no ensino fundamental e médio, respectivamente. Segundo estatísticas nacionais, a média salarial é similar tanto na escola privada como pública. Os valores são bastante altos se comparados ao Brasil, que – aponta a OCDE com dados de 2013 – paga US$ 12 mil em média àqueles em início de carreira, por ano.

– A qualidade da educação é muito alta na minha opinião – diz Søren Lund Nielsen, que hoje cursa o mestrado e também elogia professores e infraestrutura das escolas públicas onde estudou, numa localidade de pouco mais de 3 mil habitantes chamada Snejbjerg, na região central.

Corte de investimentos

O governo dinamarquês, no entanto, vem reduzindo investimentos na educação. Ano passado, em diferentes cidades protestos reuniram milhares de pessoas que manifestavam contra os cortes de 8,7 bilhões de coroas dinamarquesas (R$ 5,1 bilhões) que ocorrerão até 2018 e afetarão principalmente o ensino superior, mas também o ensino básico. Já o Brasil, apesar de estar na lanterna quando se trata do montante destinado ao setor, aumentou o investimento entre 2005 e 2013 em 82%, o que ainda não é suficiente, na opinião de especialistas.

Além de os dinamarqueses verem as verbas para educação caírem, o ensino público vem perdendo alunos ano a ano por lá, e uma das razões é a insatisfação com uma ampla reforma escolar empreendida há dois anos. Uma das mudanças principais foi o aumento do número de horas de ensino, que passou de oito mil para dez mil no período de dez anos. É o maior entre os países da OCDE, cuja média é de 7,5 mil horas.

– Dias escolares mais longos não são um objetivo em si, a maior qualidade da educação, sim. O propósito de se ter dias mais longos era garantir tempo para o estudo individual, viagens e trabalhos de campo. Na maioria dos casos, essa implementação não ocorreu, e o dia escolar apenas se tornou maior – pontuou Mette With Hagensen, presidente nacional da organização “Escola e Pais”, ponderando, no entanto, que pais continuam em geral muito satisfeitos com as escolas públicas e seus professores.

Além do criticado aumento no número de horas, outro motivo para a redução de alunos em escolas públicas é que alguns municípios fecharam algumas dessas instituições, e pais começaram a se preocupar com o nível do ensino, explica Andreas Rasch-Christensen, diretor de pesquisa da VIA University College e membro do conselho científico da reforma escolar do país.

– Esse movimento é preocupante, porque é a criança com mais recursos que vai para a escola privada. Em longo prazo, isto pode afetar o aprendizado em escolas públicas, pois os melhores ambientes são os que consistem da mistura de estudantes de classes mais altas e mais baixas – acrescenta.

A tentativa de incluir mais alunos com necessidades especiais às escolas públicas tradicionais é outro princípio da reforma. Com isso, em torno de dez mil estudantes fizeram esta transição nos últimos três anos. O movimento é tendência também aqui no Brasil, onde dados do Censo Escolar indicam que 93% dos alunos com deficiência matriculados na escola pública estão em classes comuns.

– Uma das razões por que a Dinamarca tem um dos maiores custos com ensino básico é por garantir o sistema tanto para os com ou sem necessidades especiais. Mas algumas escolas e professores ainda não têm competências pedagógicas para lidar com estudantes de necessidades especiais – avalia Rasch-Christensen.

Autor de livros e artigos sobre ensino público e professor na Universidade College Sjælland, Brian Degn Mårtensson explica que a reforma foi uma tentativa de importar alguns conceitos anglo-americanos para o sistema dinamarquês, o que, segundo ele, não deve funcionar a longo prazo.

– Não há dúvida de que o sistema educacional dinamarquês foi um fator chave para o que costuma ser descrito como o “milagre escandinavo”. Tradicionalmente, a Dinamarca figura entre os estados mais ricos, felizes e democráticos em vários rankings internacionais. Sendo um país sem muitos recursos naturais, a única explicação para isso é nossa cultura pedagógica – defende Degn Mårtensson, que ainda critica. – A reforma está se afastando da pedagogia nórdica, que é bem-sucedida, e se aproximando do modelo ocidental. As escolas, por exemplo, são avaliadas por testes nacionais na linha da reforma americana. Estes testes apenas medem competências específicas, e não perspectivas amplas que uma escola deve ter.


Escrito por Flavia Milhorance

Flavia Milhorance

Jornalista com mais de dez anos de experiência em reportagem e edição em veículos de imprensa do Brasil e exterior, como BBC Brasil, O Globo, TMT Finance e Mongabay News. Mestre em jornalismo de negócios e finanças pelas Universidade de Aarhus (Dinamarca) e City University, em Londres.

23 posts

2 Comentários

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  1. Dinamarca um país rico e com uma educação desde a Escola primária que frequentam os Príncipes e as Princesas de Dinamarca e não só.
    E Portugal um País mais pobre e está em crise e muitos portugueses querem colocar os seus filhos em Escolas Particulares que o governo a paga com os impostos dos contribuintes que têm os seus filhos em Escolas públicas e querem que pagamos as Escolas privadas e os nossos andam nas Públicas!!!!!
    Fod…
    Podem deixar os filhos nas Escolas Particulares sim, mas paguem a totalidade até a uma pequena folha…o Governo é que nada tem a pagar.
    Uns eram de 1.ª e outros de 2.ª, não meus amigos (as) somos todos iguais, quem quer luxo que pague…
    Mas isto é um disparate e ignorância eu sempre tive os meus filhos e netos na Escola Particular e agora querem que eu pago para os vossos filhos Escolas Particulares?????
    É absurdo…
    Entendo que algumas Escolas Particulares que sejam pagas pelos contribuintes desde que não haja Escola Primaria na Zona, isso sim…com muito gosto pago e tenho a certeza que a maioria dos portugueses concordam, ou a Escola Pública está com as turmas completas que não possam receber mais alunos.
    Todos têm direito á Educação, por ai também concordo…
    Castanheira do Ribatejo
    Jaime Jorge Pereira
    Portugal

  2. Não tenho nada contra a escola privada, mas a obrigação do estado é criar condições na escola pública que é de todos nós, Os pais que acham que devem ter liberdade para escolher a escola dos seus filhos, também concordo em absoluto, mas se a escolha passa pela escola privada, tem que pagar e não querer que sejam os contribuintes, que tem os filhos na escola pública, a pagar.
    É imoral!

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