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Os dilemas da rua

Como a cultura popular carioca enfrentará o moralismo, o satanismo e os interesses econômicos, eis a questão


Festa de Iemanjá, na Cinelândia: as manifestações de rua no Rio são caracterizadas pela enzima africana. Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP

Religiões criam laços de pertencimento, redes de sociabilidade, comunidades de afetos, senso de coletividade, sensação de proteção social, sentido de mundo, etc. Cabe ponderar, todavia, que não são apenas igrejas, terreiros, mesquitas e sinagogas que criam isso: torcidas organizadas, escolas de samba, clubes de adoradores de vinho, comandos criminosos, sociedades secretas, máfias, fã clube de astro do rock, grupo do churrasco da esquina, pelada semanal de veteranos e botafoguenses também estabelecem laços de pertencimento, senso de coletividade e afetos compartilhados a partir de elementos comuns.

É claro também que falar em evangélicos como um grupo homogêneo é como singularizar a ideia de África: dentre outros problemas, a generalização encobre diferenças teológicas, percepções diversas da Bíblia, maneiras distintas de se encarar temas sociais relevantes (direito das minorias, aborto – a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) admite – educação laica ou religiosa, etc).

Esse projeto de desqualificação da cultura atuou em algumas frentes, especialmente na repressão aos elementos lúdicos e sagrados do cotidiano dos pobres – notadamente, os afrodescendentes – e de tudo aquilo, enfim, que resiste ao confinamento dos corpos, criando potência de vida. A rua é o espaço por excelência dessas práticas

Na disputa pelo mercado da fé, e na construção de solidariedade e pertencimento entre seus membros, a IURD, igreja a qual pertence o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, adota como uma de suas estratégias fundamentais exatamente a destruição de outros laços de pertencimento, a partir de uma visão binária entre o bem e o mal. Quando escreveu “Orixás, Caboclos e Guias”, o livro que fundamenta a visão da IURD sobre o candomblé e a umbanda, o Bispo Macedo fundamentou a doutrina de que essas religiosidades e os seus saberes são manifestações satânicas. É uma doutrina que a IURD abraça.

Macedo defende no livro que diversos vícios, doenças, brigas e tragédias têm origem no culto a espiritualidades da umbanda e do candomblé. Diz ainda que as “seitas demoníacas” de origem africana são as grandes responsáveis pelas mazelas de Brasil e pelo problema da dependência química entre seus membros. A teologia da IURD, portanto, tem como um de seus alicerces a ideia de cruzada contra as práticas culturais e religiosas vinculadas às crenças mencionadas.

Roda de samba na Pedra do Sal: a rua como espaço de produção de cultura. Foto: Luiz Souza/Nurphoto

Desconsiderar isso em ponderações sobre as sociabilidades que a IURD engendra entre seus membros é, no mínimo, complicado. Há uma instância de sociabilidade que se estabelece, portanto, pela desqualificação de outras formas de sociabilidade e saberes.

Recentemente, o prefeito Marcelo Crivella determinou que a realização de eventos na cidade dependa da autorização direta do gabinete da prefeitura; a partir de uma definição de “evento” estabelecida na prefeitura de Eduardo Paes. Diz o decreto:

 “Art. 2º Para efeito do disposto no § 1º do art. 1º deste Decreto, considera-se evento, todo exercício temporário de atividade econômica, cultural, esportiva, recreativa, musical, artística, expositiva, cívica, comemorativa, social, religiosa ou política, com fins lucrativos ou não, que gere:
I – concentração de público, em áreas abertas ou fechadas, particulares ou não”.

O decreto recebeu críticas contundentes e gerou uma resolução do próprio prefeito que acaba se contrapondo a alguns pontos dele mesmo. A impressão é a de que há certo descompasso da prefeitura. O time, para usar o jargão futebolístico, parece estar batendo cabeça. Não obstante, a confusão em torno da medida sugere algumas reflexões.

A tentativa de intervenção do poder público nas culturas de rua não é invenção recente. No Rio de Janeiro, notadamente, as manifestações de rua são marcadamente caracterizadas pela enzima africana (exatamente aquela que a igreja do prefeito repudia como satânica), que catalisou de formas diversas as práticas culturais na cidade.  O projeto civilizatório mais permanente das elites brasileiras – inscrito no tempo e no espaço – é o da incessante criação de estratégias de controle e domesticação dos corpos. O fim da escravidão exigiu redefinições nestas estratégias de controle e coincidiu com os projetos modernizadores que buscaram estabelecer, a partir da segunda metade do século XIX, caminhos de inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados.

Entender estas três dimensões que se entrelaçam – a repressiva, a moral e a econômica – parece ser o grande desafio e aponta para uma complexidade da questão que escapa às analises mais rasteiras e exigirá da prefeitura ações menos destrambelhadas que a do decreto exposto. O prefeito parece mesmo disposto a encarar a rua a partir do trinômio ‘ordem, moral e dinheiro’

O controle dos corpos se articulou permanentemente ao projeto de desqualificação das camadas historicamente subalternizadas como agentes de invenção de modos de vida. Produtoras de cultura, enfim. Esse projeto de desqualificação da cultura atuou em algumas frentes, especialmente na repressão aos elementos lúdicos e sagrados do cotidiano dos pobres – notadamente, os afrodescendentes – e de tudo aquilo, enfim, que resiste ao confinamento dos corpos, criando potência de vida. A rua é o espaço por excelência dessas práticas.

Ao longo da história, a sobrevivência potente da rua como espaço de produção incessante de cultura deparou-se com pelo menos três instâncias que tentaram normatizá-la, cada uma a seu modo e com mais ou menos ênfase em cada conjuntura: a repressiva, a moral e a econômica.

A repressiva é representada pelo poder público e seu aparelho de segurança pública.  A moral é representada pelo imaginário de festa de depravação dos costumes, segundo os conservadores, e de festa alienante e despolitizada, segundo setores progressistas.  A econômica é representada por empresas, mídias, indústria do turismo, etc, que veem a rua como um espaço propício à circulação de capitais, difusão de padrões de consumo, propaganda de marcas e similares.

A maneira como a prefeitura do Rio de Janeiro demonstra querer lidar com as culturas da rua me parece flertar ao mesmo tempo – e aí talvez esteja a novidade – com as três instâncias citadas acima, a saber:

1 – A ordenação em uma dimensão repressiva é amparada na ideia de manutenção da ordem urbana; um argumento justificável em maior ou menos escala, já que o funcionamento da vida cotidiana na cidade pressupõe o cumprimento de normas estabelecidas. O poder público pode jogar com este argumento para legitimar suas ações e a tendência é que parte da população apoie as ações assim justificadas.

2- A moral responde, sobretudo, a um público específico do espectro político do prefeito evangélico. Transcende, todavia, este universo e tende a ter o apoio de setores conservadores em um arco mais amplo que o religioso. A rua (o terreiro) como o mal e a casa (a igreja) como o bem fundamentam a dicotomia tão cara ao discurso desses setores.

3 – A econômica responde pelo menos a dois interesses: ao de grupos empresariais interessados em capitalizar eventos de rua e ao de grupos de empresários do entretenimento em espaços fechados que acham que perdem público quando a rua se transforma em espaço prioritário para a realização, por exemplo, de rodas de samba e similares.

Entender estas três dimensões que se entrelaçam – a repressiva, a moral e a econômica – parece ser o grande desafio e aponta para uma complexidade da questão que escapa às analises mais rasteiras e exigirá da prefeitura ações menos destrambelhadas que a do decreto exposto. O prefeito parece mesmo disposto a encarar a rua a partir do trinômio “ordem, moral e dinheiro”.

Como a cultura de rua – espremida entre o moralismo conservador, a satanização de certo neopentecostalismo e o interesse de empresários do entretenimento – enfrentará isso?

O desafio está colocado.


Escrito por Luiz Antonio Simas

Luiz Antonio Simas

É historiador, professor e escritor. Foi colunista do jornal O Dia e jurado do Estandarte de Ouro, prêmio carnavalesco do jornal O Globo. Tem diversos livros lançados sobre cultura popular, carnaval, samba e Rio de Janeiro. Recebeu, pelo Dicionário da História Social do Samba, escrito com Nei Lopes, o Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção/2016.

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