O eterno desafio do lixo nas praias

Um dia, jogar lixo no chão será algo tão socialmente reprovável quanto fumar um cigarro

Por Gilberto Scofield | artigo lixo ods14 • Publicada em 30 de dezembro de 2015 - 11:18 • Atualizada em 2 de setembro de 2017 - 16:01

Entra ano, sai ano e as praias nas grandes cidades litorâneas do Brasil continuam imundas
Entra ano, sai ano e as praias nas grandes cidades litorâneas do Brasil continuam imundas
Entra ano, sai ano e as praias nas grandes cidades litorâneas do Brasil continuam imundas

Aproveitando os dias de folga das festas de fim de ano, fui com meu filho de seis anos a algumas praias do Rio – durante a semana, porque no fim de semana a coisa fica impraticável de tão cheia e tumultuada – e antes mesmo que eu constatasse o óbvio, veio do meu filho a pergunta:

– Pai, por que a praia tem tanta garrafa e saco de plástico na areia?

A gente tinha vindo de uma viagem relâmpago a Salvador, onde eu visitei meu pai e minha irmã e lá também me impressionou a quantidade de lixo espalhada na areia, de garrafas e sacos plásticos a comida e pacotes de salgadinhos passando por infindáveis canudos de plástico de refrigerante. Didaticamente, expliquei ao moleque que nem todo mundo tinha a nossa preocupação de recolher o lixo e depositá-lo na lixeira. E que aquilo era ruim para todo mundo, da criancinha que poderia cortar o pé numa garrafa quebrada na areia ao peixe que poderia confundir uma tampinha de refrigerante na água com comida e morrer engasgado.

Em um único dia de domingo, em novembro passado, um mutirão em São Conrado chegou a retirar cinco toneladas de lixo da areia da praia.

Entra ano, sai ano e as nossas praias – ao menos as das grandes cidades litorâneas do Brasil – continuam imundas não apenas na água (e isso é motivo de outro post), mas na areia mesmo. Trata-se de sujeira deixada pelos frequentadores, que não se importam em recolher o lixo que produziram e ao menos coloca-lo numa das dezenas de latas de lixo espalhadas pelas areias das praias da cidade. Ou seja, não é uma questão apenas de falta de latas de lixo, como se percebeu no dia seguinte à inauguração do Museu do Amanhã na Praça Mauá, coberta por toneladas de lixo e sem ao menos nenhuma lata de lixo à vista.

É questão de educação, por um lado, e administração pública eficiente, por outro. A solução do problema é urgente e nada simples. Mas também nada impossível se houver determinação tanto do setor público quanto do setor privado e, especialmente, dos moradores das grandes cidades litorâneas (ao menos os mais esclarecidos, que têm nas mãos o poder de influenciar e transformar quem não tem tanta educação/esclarecimento).

Quando a data de um ano para as Olimpíadas do Rio chegou, em agosto passado, muitos veículos – da grande imprensa aos blogs e sites dedicados ao tema – fizeram um balanço da situação de limpeza da Baía de Guanabara, constatando-se o que todo mundo já sabia. O projeto de despoluição da Baía, uma promessa feita na assinatura do contrato das Olimpíadas quando o Rio foi escolhido como cidade-sede para 2016, não seria cumprido. Mas me incomodou outra constatação: a do lixo acumulado na própria areia das praias, jogado por seus frequentadores. Em um único dia de domingo, em novembro passado, um mutirão em São Conrado chegou a retirar cinco toneladas de lixo da areia da praia.

Pelo que eu vi e li e conversei a respeito com especialistas e autoridades sobre a questão do lixo na praia durante o ano e meio que tratei do tema como editor da editoria Rio no “Globo”, há dois caminhos para ação. Um deles é a questão do recolhimento do lixo despejado na areia. Outra é a prevenção deste mau hábito.

Em cada um destes caminhos, há várias maneiras de se abordar o problema. Umas são mais de longo prazo, como incluir na rede de escolas de ensino fundamental matérias relativas ao meio ambiente e doenças advindas de maus hábitos no relacionamento com o meio ambiente. Fala-se de conscientização e educação. As escolas podem e devem envolver os pais dos alunos nesse esforço, porque educação, a gente sabe, vem de casa. Na linha do longo prazo estão também obras de saneamento que podem evitar que chuvas, numa cidade espremida entre o mar e a montanha como o Rio, levem para as praias os lixos das encostas e das ruas, boa parte carregada por pequenos rios urbanos/canais que desaguam no mar.

Há também muito a se fazer no curto prazo. Mais equipes de limpeza diariamente nas praias ajuda muito, obviamente, e não apenas no verão, quando a questão do lixo ganha mais visibilidade na mídia. O mesmo pode ser dito sobre a colocação de lixeiras. Equipes da prefeitura e de voluntários – coordenados por ONGs ou pelos institutos e secretarias de meio ambiente – podem fazer um trabalho de conscientização na praia distribuindo sacos plásticos biodegradáveis como forma de estimular que as pessoas recolham seus lixos. E que depois os depositem nas lixeiras. Monitoramento público de quiosques e barracas de praia que vendem de biscoito a cigarros deve, de alguma forma, relacionar a produção de lixo no espaço atendido pelos vendedores com o recolhimento deste lixo no entorno. Ainda que a logística seja complicada, por que as equipes que multam quem joga lixo no chão da cidade na Operação Lixo Zero não agem nas praias durante o verão?

Enfim, soluções não faltam e são todas possíveis de execução sem maiores transtornos orçamentários, com a exceção, talvez, das obras de saneamento. Mas o ideal mesmo seria transformar o ato de jogar lixo no chão numa coisa tão socialmente reprovável quanto, digamos, fumar cigarro. Há 20 anos, fumar cigarro não apenas era comum em qualquer lugar da cidade, como a publicidade vendia o vício como virtude. Anos de campanhas educativas e regulamentação sobre o tema foram transformando o hábito de fumar em algo social e pessoalmente irresponsável e danoso.

Quando se fala em lixo nas praias das nossas grandes cidades, e de resto nas cidades como um todo, ainda falta a implementação de uma estratégia que seja capaz de fazer essa virada cultural. Alguém aí se anima a dar o primeiro passo sério nessa empreitada?

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Gilberto Scofield

É jornalista e, atualmente, trabalha como consultor de comunicação da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, em Brasília. Além de ser sócio-fundador da empresa Butique Comunicação e marca. Foi editor do jornal O Globo e repórter especial da sucursal de São Paulo após ter passado cinco anos como correspondente em Pequim, na China, e dois anos como correspondente em Washington, nos EUA. retornando ao Brasil em 2010. É colaborador da Globonews, comentarista da rádio CBN e autor do livro "Um brasileiro na China", publicado em 2006. Autor dos blogs "No Império – impressões de um brasileiro na capital dos EUA" e "No Oriente diário de um brasileiro na China“ (Globo Online). Ao longo de sua carreira, escreveu para o Jornal do Commercio, do Rio, Revista Exame, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, Revista Época, IG Finance, O Globo e Globo Online.

3 comentários “O eterno desafio do lixo nas praias

  1. roberto façanha disse:

    Gilberto.
    Fiquei muito satisfeito pela abordagem e pela condução da matéria.
    O lixo descartado em nossas praias, tem diversos vetores entre eles o educacional, o social e fundamentalmente o ambiental.
    Sou proprietário da Ecocity Soluções Ambientais e tratei desse tema em matéria no GLOBALGABARGE, aonde descrevo minha experiência como PROGRAMA ECOPRAIAS, desenvolvido em 2.012.
    O ECOPRAIAS é atualmente a maior ação de limpeza e saneamento de praias, já realizada no mundo. Toda a orla Parananse é limpa diariamente por equipes contratadas nas proprias cidades litorãneas, gerando emprego e renda local.
    A ação, diferente de tudo que vemos em outros locais, é desenvolvida durante o dia, aonde as equipes realizam um verdadeiro “arrastão” coletando tudo que se v~e pela frente,
    Toneladas de resíduos são retirados das praias, e a visibilidade da ação permite que a educação ambiental se transforme em uma grande vitrine de educação e cidadania.
    Tenho muita satisfação em ter desenvolvido esse projeto e excuta-lo à serviço do Governo do Paraná pelo quarto ano consecutivo. Administradores muncipais de diversas cidades do Brasil, nos visitam durante a ação, se questionando, como é possivel que as praias fiquem limpas de manhã ao fim do dia.
    Caso seja dos seu interesse, o YOUTUBE tem alguns vídeos do nosso trabalho – http://www.youtube.com/watch?v=_DWYq8_i58A.
    A ação – ECOPRAIAS – executada por nossa empresa, envolve além da coleta de resíduos, o saneamento das areias reduzindo a presença de bactérias em até 80%, comprovados em análises do Instituto Ambiental do Paraná. A noite equipamentos peneiram a areia e dão muito mais qualidade e retiram micro lixos e objetos perfurocortantes das areias.
    Um grande abraço e parabén pelo texto.

  2. Kristina disse:

    A 28 anos atrás fui com minha filha a Copacabana. Com nossa sacolinha para por nossos lixos .Ao final do dia , ao nosso lado uma família havia deixado seu lixo na areia e outros nos arredores também. Aí ela com 2 aninhos me perguntou por que tinha de por o lixo na sacolinha. Eu a respondi , mostrando a parte das redes de vôlei(que normalmente se mantinham limpas) e mostrei nosso redor e perguntei a ela…. Qual lado da praia é mais bonito ? E ela me respondeu que era a parte do vôlei.. Então eu disse a ela que se sempre limpássemos nossos lixinhos , a praia toda seria mais bonita..E ainda recolhemos a sujeira que nossos vizinhos tinham deixado… Tenho certeza de que ela nunca esqueceu… Mas sinto muita tristeza em ver que com cada vez mais informaçao….Menos ações corretas…Saudades do personagem sujismundo…

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