“Me chamaram pra fazer uma ‘Fala Ancestral’. E eu pensei: ‘nossa, é muita responsabilidade!’.” Foi assim que a artista visual e ativista Daiara Tukano iniciou sua roda de conversa no Plante Rio 2026. O tema “Mutyrõ – a importância da mobilização coletiva pelo futuro ancestral” norteou a fala da artista, que abordou a conexão entre elementos da natureza, territórios sagrados e saberes ancestrais que adquiriu com seus parentes mais antigos.
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Nascida em São Paulo no início da década de 1980 em meio a um contexto de luta dos povos indígenas por direitos ainda no regime ditatorial, Daiara contou, durante sua Fala Ancestral, como precisou lidar com o fato de ter nascido tão longe da região do Rio Negro, no atual estado do Amazonas, onde seus parentes do Povo Tukano (ou Yepá-Mahsã) nasceram. Mas isso não a impediu de construir uma relação próxima e forte com seus avós, relação de parentesco que ela usa para se referir não só aos indígenas mais velhos mas também aos rios, árvores e entidades da natureza, como é o caso da Grande Avó do Universo, representada em algumas de suas obras.
“Eu lembro de uma vez que a prefeitura cortou a árvore que ficava na frente de casa. O meu filho chorou muito porque essa árvore era um dos seres mais antigos que ele se apegou desde que ele era pequenininho”. Este trecho da fala que Daiara apresentou no palco do Plante Rio buscou levar uma reflexão sobre a conexão entre humanos e natureza,. “Cortaram a árvore, daqui a pouquinho já tinha um brotinho nascendo de novo. Esses aprendizados estão em todo lugar que a gente pisa porque a gente também é planta, a gente também é abelha. Nós também somos rio. Eu acredito que essa inteligência ancestral talvez seja o que de fato nos conecta.”
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Veja o que já enviamosA forma como os povos indígenas enxergam a relação com a natureza, se reconhecendo como parte da mesma, talvez seja um fator determinante para o impacto expressivo desses povos na conservação das florestas brasileiras. O estudo “As florestas precisam das pessoas”, do Instituto Socioambiental (ISA), aponta que as áreas protegidas (terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação) com presença de povos indígenas e populações tradicionais protegem um terço (30,5%) das florestas no Brasil. O nome do artigo evoca o fato de que mesmo as florestas preservadas são resultado da ação e cuidado das culturas indígenas que já se utilizavam de práticas e conhecimentos agroflorestais.
O reconhecimento dos corpos d’água como essencialmente importantes para o desenvolvimento da vida é algo muito presente não só no discurso de Daiara mas também na obra de Ailton Krenak. “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui”. Esse trecho foi retirado do livro “Futuro Ancestral”, uma das obras responsáveis por propagar essa visão de futuro que tem a ancestralidade como bússola e que também foi muito abordada durante o evento.
Ao fim de sua Fala Ancestral no Plante Rio 2026 — evento fomentado pela Associação Saúva e Jataí Investimentos -, Daiara convidou o público a refletir sobre uma comunicação que atravesse a barreira das línguas e das palavras, explicando ser essa a razão pela qual povos indígenas têm um bom relacionamento com diversos povos ao redor do mundo. “A gente pode estar falando com parente da Ásia, da África, até os europeus. Se é uma pessoa que consegue ouvir o mundo à sua volta, nós sabemos que ele é um parente. Nós sabemos que somos todos da mesma família”, disse a artista visual indígena.


Daiara escolheu dividir o palco com duas mulheres que, ao longo do último dia, animaram os intervalos na programação do evento representando uma abelha e uma flor. Lali Anna, cantora e compositora carioca, visitava o segundo dia do evento e disse se surpreender ao reconhecer Daiara no palco. Admiradora do trabalho da ativista indígena, ela relatou ao #Colabora como a fala sobre ancestralidade a sensibilizou. “Foi muito lindo ver a dimensão do ser dela. Quando ela começou a falar do avô e dos ensinamentos sobre ancestralidade que são tão naturais na cultura indígena, isso me impactou profundamente.”
Lali acrescenta que ter se tornado avó trouxe uma nova dimensão de compreensão sobre o tema: “Ela (Daiara) falou uma coisa muito interessante que foi ‘eu não sou nem avó pra me perguntarem sobre ancestralidade’. Então ela tem consciência de que isso é um papel dos avós. E é mesmo. Tem tudo a ver com a ‘vóternidade’ falar sobre ancestralidade”. A partir da experiência de assistir à fala no evento já conhecendo o trabalho e o ativismo da artista, Lali afirma que Daiara é “uma legítima representante da defesa da floresta e dos direitos humanos dos indígenas”.
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