ODS 1
Santa Marta: países vão buscar destravar financiamento para transição energética


Coordenar a elaboração de planos nacionais e regionais mais abrangentes para abandonar combustíveis e alinhar políticas comerciais para fortalecer setores verdes também são prioridades


Os 57 países reunidos na 1ª Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis vão centrar seu foco nos próximos meses em destravar soluções às barreiras estruturais no financiamento da transição energética – como em todas as cúpulas sobre temas relacionados à crise climática, o financiamento segue no topo das preocupações. Os países também concordaram em coordenar a elaboração de planos nacionais e regionais mais abrangentes e alinhar políticas comerciais entre as nações para fortalecer setores verdes.
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Na plenária final, as ministras do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Irene Vélez Torres, e de Clima e Crescimento Verde dos Países Baixos, Stientje van Veldhoven, destacaram ainda o papel-chave do Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET), anunciado durante a conferência, que terá sede em São Paulo.
Tuvalu sediará a 2ª Conferência sobre a Transição Para Longe dos Combustíveis Fósseis em 2027; o país insular do Pacífico dividirá a presidência da cúpula com a Irlanda, assim como ocorreu nesta primeira conferência, comandada por Colômbia e Países Baixos. “Por mais difícil que seja, também sabemos que esta conversa não pode terminar aqui. Devemos manter o ímpeto, liderar com coragem, enfrentar o desafio e construir uma coligação de voluntários”, afirmou a colombiana Irene Vélez.
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Veja o que já enviamosA anfitriã de Santa Marta conclamou todos os países – e também atores subnacionais, camponeses, afrodescendentes, indígenas e ONGs – para se juntar ao trabalho para a transição energética e o abandono dos fósseis. “Esta será uma ampla plataforma intergovernamental e multissetorial complementar à UNFCCC, projetada para identificar os caminhos legais, económicos e sociais necessários para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis”, afirmou a ministra da Colômbia.
A ampliação da coalizão para além dos presentes em Santa Marta também foi enfatizada pela a ministra holandesa do Clima, Stientje van Veldhoven, na plenária final . “Esta é a coalizão dos dispostos, esta é a coalizão dos que fazem, e queremos que ela cresça”, destacou, lembrando que há um claro tendência para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e é preciso aproveitar essa oportunidade. “É hora de traçar um roteiro concreto que nos permita incorporar o novo e deixar o antigo para trás”, adicionou.
O financiamento surgiu repetidamente como a barreira mais imediata e difícil para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Os países do Sul Global enfrentam altos custos de empréstimo e acesso limitado a capital, mesmo com a energia renovável se tornando mais barata que os combustíveis fósseis. “O financiamento é fundamental; esta é uma questão de investimento”, afirmou Nick Robins, diretor sênior de finanças e setor privado do World Resources Institute à agência AP.
“O que temos observado é que eles gostariam de parar de expandir a produção de combustíveis fósseis, mas estão sendo forçados a investir em novos projetos de petróleo, gás e carvão apenas para pagar suas dívidas”, disse Tzeporah Berman, fundadora e presidente da Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis.
Os participantes também apontaram o papel das restrições fiscais internas e dos sistemas financeiros globais na desaceleração da transição. Para Ana Toni, CEO da COP30 no Brasil, um dos principais pontos discutidos foram os desafios do debate fiscal. “Precisamos que os ministros da Fazenda nos ajudem a encontrar soluções para lidar com os desafios fiscais da transição”, afirmou.
A ex-presidente irlandesa Mary Robinson, agora uma liderança na defesa da justiça climática, acrescentou que as respostas macroeconômicas às crises podem, involuntariamente, retardar o progresso. “Uma resposta tradicional à inflação pode, na verdade, estar prejudicando a revolução da energia limpa”, afirmou.
O financiamento está entre as três linhas de trabalho adotadas formalmente pelos delegados para organizar os esforços antes da próxima conferência, em 2027. “Abordar as dependências macroeconômicas e a arquitetura financeira, especialmente as armadilhas fiscais, da dívida e dos subsídios, para inovar um sistema financeiro que possa apoiar a transição”, afirma o comunicado. O Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD) e o Centro de Política Econômica e Pesquisa (CEPR) prestarão apoio a esse grupo.
Outra linha de trabalho é “elaborar roteiros para a transição para longe dos combustíveis fósseis que também abordem questões relacionadas à oferta, visto que há uma falta de compromissos claros sobre a redução das emissões exportadas pelos países produtores”. Esses roteiros também podem ser regionais, incluindo potencialmente zonas livres de combustíveis fósseis. Este trabalho será apoiado pela Parceria NDC e pelo Painel Global de Transição Energética.
O terceiro foco é “construir sistemas de livre comércio de combustíveis fósseis, compreendendo como o comércio continua a promover a extração e como substituí-lo por comércio verde”. Esse trabalho terá assessoria da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).


Mapa do caminho global para longe dos combustíveis fósseis
Santa Marta produzirá uma relatório com sugestões de países, movimentos sociais e organizações da sociedade civil para contribuir com o mapa do caminho global para substituir petróleo, gás e carvão que está sendo coordenado pela presidência da COP30. “Santa Marta foi uma troca genuína, algo de que realmente precisávamos. Para a COP30, é fundamental deixar claro que estamos entrando em uma nova década: uma década de implementação. Precisamos traduzir o que estamos fazendo aqui em impactos reais na vida das pessoas. Está cada vez mais evidente que estamos falando de segurança energética, segurança econômica e paz”, avaliou Ana Toni.
Ambientalistas mostraram-se otimistas com as discussões da 1ª Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis. “Nenhum país é capaz de superar sozinho sua dependência dos combustíveis fósseis. Santa Marta marca o início de um processo que pode alcançar diversos resultados, incluindo a formação de uma coalizão de forças nos diferentes fóruns necessários para avançar no desmantelamento das inúmeras barreiras à transição, incluindo na Convenção do Clima da ONU, na Convenção Tributária da ONU, na Organização Marítima Internacional e nos bancos multilaterais”, lembrou Stela Herschmann, especialista em políticas climáticas do Observatório do Clima.
Para o Greenpeace, o evento foi um sopro de esperança e destacou a criação do Painel Científico para a Transição Energética Global, que fornecerá subsídios científicos aos formuladores de políticas para viabilizar a transição para energia limpa. “A Conferência trouxe um sopro de esperança em um contexto global aquecido não somente em termos de temperatura, mas também em termos de conflitos globais que escancaram o custo social e político da nossa dependência dos combustíveis fósseis”, disse A especialista em Política Climática do Greenpeace Brasil, Anna Cárcamo.
Fernanda de Carvalho, Chefe de Políticas Globais de Clima e Energia do WWF, destacou que a importância da conferência “Este é um ano crucial para a transição para longe dos combustíveis fósseis. As sementes de uma nova iniciativa focada na implementação foram plantadas”, afirmou. “Sabemos bem que existe uma lacuna na implementação da mudança sistêmica necessária para enfrentar efetivamente as mudanças climáticas. Esta conferência marca o início de um processo genuinamente participativo, que coloca no centro as vozes das comunidades mais afetadas pela extração e consumo de combustíveis fósseis, juntamente com os diversos setores envolvidos, desde o princípio”, adicionou.
A dirigente do WWWF também destacou que “os resultados de Santa Marta reforçarão e complementarão tanto as negociações climáticas da UNFCCC quanto o Roteiro da Presidência da COP30, ajudando a preencher a lacuna entre ambição e ação”.
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Oscar Valporto
Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade







































