Massacre em Eldorado de Carajás, 30 anos: Trabalhadores e familiares carregam os caixões de seus companheiros em uma longa caminhada até o local do enterro em Curionópolis (Fotografia de Ripper /Imagens Humanas - abril/1996)

MST retoma marcha interrompida em Eldorado do Carajás, 30 anos após massacre

Movimento organiza manifestação em homenagem à memória das vítimas e também para reivindicar reforma agrária e o fim da violência no campo

Por #Colabora | ODS 16 • Publicada em 15 de abril de 2026 - 09:34 • Atualizada em 15 de abril de 2026 - 11:03

Massacre em Eldorado de Carajás, 30 anos: Trabalhadores e familiares carregam os caixões de seus companheiros em uma longa caminhada até o local do enterro em Curionópolis (Fotografia de Ripper /Imagens Humanas – abril/1996)

Massacre em Eldorado de Carajás, 30 anos: Trabalhadores e familiares carregam os caixões de seus companheiros em uma longa caminhada até o local do enterro em Curionópolis (Fotografia de Ripper /Imagens Humanas – abril/1996)

Movimento organiza manifestação em homenagem à memória das vítimas e também para reivindicar reforma agrária e o fim da violência no campo

Por #Colabora | ODS 16 • Publicada em 15 de abril de 2026 - 09:34 • Atualizada em 15 de abril de 2026 - 11:03

(Fotos de João Roberto Ripper / Imagens Humanas) – No marco dos 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás, o MST está mobilizando os trabalhadores do campo para retomar a marcha que foi violentamente interrompida pela polícia na PA-150, no dia 17 de abril de 1996; o objetivo é homenagear a memória daqueles mártires da luta pela terra e reforçar a campanha permanente pela reforma agrária.  A marcha terá partida do município de Curionópolis até a Curva do S, em Eldorado do Carajás, onde, 30 anos atrás, cerca de 1.500 pessoas, entre elas mulheres e crianças, foram atacados pela PM: 21 trabalhadores sem terra foram assassinados.

Especial: O massacre de Eldorado dos Carajás pelo olhar de João Roberto Ripper

Com a previsão de participação de três mil militantes, a marcha terá como lema: “A voz pela Vida calará a ambição! Por Reforma Agrária Popular e em memória dos 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás”. Além da marcha, a curva do S será palco do do 20º Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra Oziel Alves, que terá a participação de 500 jovens vindos dos estados do Maranhão, Tocantins, Roraima e Pará.

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O MST prevê ainda outras marchas, atos políticos, ações solidárias, ocupações e iniciativas de formação na Jornada de Lutas em todo o Brasil para lembrar o massacre. “Não é só pela memória, ainda que o tempo histórico atual exijá que aqueles e aquelas que seguem vivos, levem a memória dos que tombaram, mas é sobretudo, uma mobilização que reafirma o sonho de que a Reforma Agrária é necessária no Brasil“, enfatizou Ayala Ferreira, da direção nacional do MST, na convocação da manifestação.

Para o MST, o próprio Estado brasileiro construiu a estrutura fundiária explosiva que tornaria o massacre de Eldorado possível, provável até e, no entendimento de muitos analistas, inevitável. Jorge Neri, da direção estadual do MST no Pará, destacou que responsabilidade histórica pelo caos fundiário da região remonta diretamente às políticas oficiais da ditadura. “O Pará tem sido um estado marcado historicamente por uma violência sem igual na disputa pela posse da terra”, afirmou em entrevista à página do movimento na internet.

Ayala Ferreira reforçou essa análise. “O massacre de Eldorado do Carajás no dia 17 de abril de 1996, infelizmente não foi um caso isolado: ele é parte de uma realidade dura em que impera a violência como mecanismo de manutenção de uma estrutura agrária baseada na extrema concentração de terras e de exploração dos bens da natureza, como as florestas, os minerais e as águas”, apontou.

Os dirigentes do MST apontaram que o latifúndio pecuarista, especulação fundiária e a expansão da mineração vêm alimentando o ciclo de pobreza e migração que pressiona os territórios em disputa na região. Jorge Néri lembrou que municípios como Eldorado do Carajás, Curionópolis, Marabá, Parauapebas e Xinguara concentram milhares de trabalhadores pobres. “A concentração de terra trouxe muita gente sem-terra pra cá ao longo dos anos. O governo incentivou mas não criou política pra resolver a vida desse povo, e aí virou esse palco de violência. O Estado passou a usar a polícia e Judiciário pra impor derrota aos trabalhadores rurais, como se lutar por terra fosse crime”, afirmou o dirigente do MST no Pará. Neri.

Impunidade antes e depois do massacre

Ayala Ferreira destacou a impunidade em relação aos crimes do campo: de 1985 a 2024, cerca de 1.833 pessoas foram assassinadas por conflitos no campo no Brasil, e 44% desses assassinatos ocorreram na Amazônia, segundo os relatórios da Comissão Pastoral da Terra (CPT). “A cultura da impunidade com que os casos de violência são tratados é muito grave. Apenas 61 destes conflitos levantados pela CPT chegaram a julgamento. Destes processos, houve denúncia de mandantes em 30 casos (metade deles acabou absolvida), enquanto 42 pistoleiros foram condenados como executores. A maior parte dos homicídios nunca teve inquérito concluído”, frisou a dirigente do MST.

Para o MST, o impacto mais duradouro do 17 de abril de 1996 foi a transformação da data em símbolo global de resistência. Em resposta direta ao massacre de Eldorado dos Carajás, a Via Campesina, organização internacional que reúne movimentos camponeses de mais de 70 países em todos os continentes, declarou o 17 de abril como o Dia Internacional de Luta Camponesa. A cada ano, camponeses no Brasil, na Índia, na Indonésia, na África do Sul e em dezenas de outros países organizam marchas, ocupações simbólicas e manifestações em referência ao que aconteceu no Pará.

No marco dos 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, o MST está divulgando uma pauta endereçada ao governo federal, ao governo do estado do Pará e às corporações que lucram com a terra da Amazônia. “O movimento demanda concretamente do governo federal a coragem de retomar uma política de desenvolvimento em nosso país, pautada na superação das desigualdades e no combate aos privilégios de uma elite usurpadora dos bens coletivos”, afirmou Ayala Ferreira, listando objetivos desse modelo de desenvolvimento para os trabalhadores do campo: “a democratização do acesso à terra, o reconhecimento dos direitos dos povos e comunidades tradicionais, a produção de alimentos livre da especulação financeira e de agrotóxicos, a concessão de créditos e investimentos nos territórios da agricultura familiar garantindo acesso à moradia, à educação, à saúde e à segurança”.

 

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