Massacre de Eldorado de Carajás, 30 anos: esposa de um dos trabalhadores assassinados se emociona diante dos caixões enfileirados (Fotografia de Ripper /Imagens Humanas - abril/1996)

Eldorado dos Carajás, 30 anos: retratos de um massacre

Em abril de 1996, 21 trabalhadores sem terra foram assassinados em ação da PM do Pará; em homenagem, Fiocruz começa a disponibilizar acervo do fotógrafo João Roberto Ripper pelas imagens da tragédia

Por Oscar Valporto | ODS 16 • Publicada em 15 de abril de 2026 - 09:38 • Atualizada em 17 de abril de 2026 - 10:21

Massacre de Eldorado de Carajás, 30 anos: esposa de um dos trabalhadores assassinados se emociona diante dos caixões enfileirados (Fotografia de Ripper /Imagens Humanas – abril/1996)

Massacre de Eldorado de Carajás, 30 anos: esposa de um dos trabalhadores assassinados se emociona diante dos caixões enfileirados (Fotografia de Ripper /Imagens Humanas – abril/1996)

Em abril de 1996, 21 trabalhadores sem terra foram assassinados em ação da PM do Pará; em homenagem, Fiocruz começa a disponibilizar acervo do fotógrafo João Roberto Ripper pelas imagens da tragédia

Por Oscar Valporto | ODS 16 • Publicada em 15 de abril de 2026 - 09:38 • Atualizada em 17 de abril de 2026 - 10:21

(Fotos de João Roberto Ripper / Imagens Humanas) – Fazia sol e a temperatura beirava os 30 graus naquela tarde de quarta-feira, 17 de abril de 1996: na véspera, centenas de trabalhadores sem terra com suas famílias – que estavam marchando desde Curionópolis, no sudoeste do Pará, em direção a Marabá – acamparam ao longo da estrada, a PA-150, já no município de Eldorado dos Carajás. No fim da tarde, duas tropas da Polícia Militar atacaram os camponeses com tiros e bombas de gás para liberar a rodovia. Os trabalhadores reagiram jogando paus e pedras enquanto tentavam conter a violência policial com suas foices e facões.

“Vi o que fizeram com a quantidade enorme de trabalhadores, cuja maioria é morta depois de baleada e tem os pedaços do corpo cortados”

João Roberto Ripper
Fotógrafo

O Massacre de Eldorado dos Carajás – como o episódio ficou internacionalmente conhecido – já tinha 19 trabalhadores sem terra mortos e 63 pessoas feridas entre camponeses e policiais quando a estrada foi liberada no começo da noite; outros dois lavradores ainda morreriam no hospital nos dias subsequentes em consequência dos ferimentos. Flagrado pela câmera da TV Liberal, o ataque policial teve repercussão em todo o país, mobilizando a sociedade civil na denúncia da violência.

O fotógrafo João Roberto Ripper, à época já dedicado integralmente a trabalhar com temas ligados aos direitos humanos, estava no Rio quando soube do massacre. Pegou dinheiro emprestado para viajar e chegou a tempo de acompanhar a segunda perícia feita nos corpos das vítimas feita no IML de Marabá pelo médico legista Nelson Massini, indicado para o caso pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara, e também o velório e o enterro dos sem-terra assassinados em Curionópolis. “Eu acompanhei e fotografei toda a autópsia, todos os corpos. Várias vezes as pessoas, depois de baleadas, foram mutiladas. Foi uma das coisas mais tristes que já se viu”, contou Ripper, em 2019, ao lançar a campanha para de financiamento coletivo para organizar, catalogar e doar todo o seu acervo digital para que ele pudesse ficar disponível ao público.

Especial: O massacre de Eldorado dos Carajás pelo olhar de João Roberto Ripper

Agora, quando o Massacre de Eldorado dos Carajás completa 30 anos, a Fundação Oswaldo Cruz começa a disponibilizar o Acervo Fotográfico João Roberto Ripper, projeto associado ao ICICT/Fiocruz, exatamente com as imagens de velório, enterro e sobreviventes da chacina policial no Pará em 1996 (com exceção das fotos da perícia dos corpos das vítimas). Mais de 50 anos de registros fotográficos de Ripper, dedicados à defesa dos direitos humanos e da memória do Brasil, passarão a ser disponibilizados pela Fiocruz Imagens. São quase 150 mil fotogramas, além dos arquivos digitais – incluindo trabalhos premiados como a luta dos indígenas Guaranis Kaiowás, flagrantes de trabalho escravo nas carvoarias e a vida das apanhadoras de flores na Serra do Espinhaço.

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Massacre de Eldorado de Carajás, 30 anos: trabalhadores enfileiram os caixões de seus companheiros em frente ao Incra de Marabá, em protesto contra a violência e pela Reforma Agrária (Fotografia de Ripper /Imagens Humanas - abril/1996)
Massacre de Eldorado de Carajás, 30 anos: trabalhadores enfileiram os caixões de seus companheiros em frente ao Incra de Marabá, em protesto contra a violência e pela Reforma Agrária (Fotografia de Ripper /Imagens Humanas – abril/1996)

Execução em Eldorado dos Carajás

A perícia conduzida por Nelson Massini nos 19 corpos levados ao IML de Marabá – corroborada pelas imagens da TV e pelo depoimento das testemunhas – não deixa dúvida sobre o método dos policiais na execução dos trabalhadores. Os lavradores José e João Pereira morreram no hospital vítimas de ferimentos a bala e a facão.

Abílio Alves Rabelo morreu vítimas de três tiros, dois no pescoço e um na coxa direita.

Altamiro Ricardo da Silva levou dois tiros na cabeça e dois nas pernas; laudo cadavérico comprovou que sua execução ocorreu após ter caído ao solo em virtude dos disparos recebidos nas pernas.

Amâncio Rodrigues dos Santos recebeu três tiros: um na cabeça, um na parte pélvica e um na região axilar.

Antônio Alves da Cruz foi atingido um tiro no peito e teve ferimentos com arma branca. O laudo apontou como causa morte uma hemorragia interna e externa com explosão do coração e do pulmão esquerdo “por instrumento corto-contundente”.

Antonio, conhecido apenas como “Irmão”, morreu com um tiro na nuca, à queima-roupa.

Antônio Costa Dias recebeu um tiro no tórax.

Graciano Olímpio de Souza levou dois tiros, um na nuca e outro no peito.

João Alves da Silva recebeu dois tiros: um na cabeça, por trás, e um na canela direita. A trajetória do projétil que o atingiu na região temporal fez um percurso de cima para baixo e de trás para diante, indicando que ele foi alvejado quando estava no chão.

João Carneiro da Silva teve morte por esmagamento do crânio, indicando ter sido “vítima de extrema violência e crueldade.” Ao prestar depoimento, uma testeminha revelou que viu um PM atacar João Carneiro com um pau, que foi introduzido na cabeça da vítima.

João Rodrigues Araújo foi atingido por um tiro no braço direito, mas morreu devido a hemorragia pelo seccionamento da artéria femural esquerda pelo uso de arma branca.

Dois tiros atingiram o peito e um a região axilar direita de Joaquim Pereira Veras: a trajetória de entrada do projétil na axila mostra que a vítima encontrava-se num plano inferior a quem disparou a arma de fogo.

O laudo de necropsia no corpo de José Ribamar Alves de Souza indicou que ele recebeu dois tiros – um deles, na cabeça, foi à queima-roupa.

Leonardo Batista de Almeida foi atingido por um único tiro – na testa.

Lourival da Costa Santana também foi atingido com um único tiro – no coração

Manoel Gomes de Souza levou três tiros (na testa e no abdômen), dois à queima-roupa.

Oziel Alves Pereira morreu, de acordo com o laudo cadavérico, vítima de quatro tiros, três na cabeça e um no peito; nove testemunhas afirmaram ter visto a detenção de Oziel, que foi algemado por PMs com os braços para trás.

Raimundo Lopes Pereira foi assassinado com três tiros: dois na cabeça e um no peito.

Robson Vitor Sobrinho levou quatro tiros – dois pelas costas e à queima-roupa, na altura do tórax; mais um no braço e outro no rosto – enquanto estava no chão.

Valdemir Pereira da Silva levou um tiro no peito.

Os responsáveis pelos assassinatos estavam em duas tropas da PM. A primeira saiu do quartel de Paraupebas sob o comando do major José Maria Pereira de Oliveira: eram 69 homens armados com duas metralhadoras 11 revólveres e 38 fuzis calibre 7,62. Eles ocuparam uma das extremidades do Km 96 da Rodovia PA-150. A outra tropa veio de Marabá, dirigida pelo coronel Mário Pantoja, comandante da operação, e tomou conta do outro lado da estrada. Sob seu comando direto, estavam mais 85 policiais militares armados com oito submetralhadoras, sete revólveres e 28 fuzis, além de 29 bastões e 14 escudos para combate.

O grupo do MST atacado – cerca de 1500 pessoas, entre elas, dezenas de mulheres e crianças – tinha apenas foices e facões com possíveis armas, além dos paus e pedras que atiraram contra a tropa armada de metralhadoras e fuzis. Não ficou dúvida que houve um massacre como lembrou João Roberto Ripper em entrevista. “Vi o que fizeram com a quantidade enorme de trabalhadores, cuja maioria é morta depois de baleada e tem os pedaços do corpo cortados”.

Ripper acompanhou o trabalho dos legistas, o protesto dos trabalhadores sem terra no IML de Marabá, com pedidos de justiça e reforma agrária, a transferência dos corpos para Curionópolis, a emoção e a dor do velório e a longa caminhada até o cemitério, onde parentes e trabalhadores sem terra se despediram dos companheiros assassinados. As imagens registradas pelo fotógrafo no Pará, há 30 anos, garantem que o massacre de Eldorado dos Carajás jamais seja esquecido e ajuda a inspirar a luta por justiça agrária no país.

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Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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