Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Parque do Flamengo perde árvores

Queda da vegetação chega a 17%, mas presença de pássaros raros surpreende

Das 9.930 árvores espalhadas por uma área de mais de um milhão de metros quadrados, 1.162 (ou 11,7%) são exóticas invasoras. Foto de Custódio Coimbra
Das 9.930 árvores espalhadas por uma área de mais de um milhão de metros quadrados, 1.162 (ou 11,7%) são exóticas invasoras. Foto de Custódio Coimbra

A mais nova radiografia de uma das áreas públicas mais queridas pelos cariocas mostra que o Parque do Flamengo perdeu 17% de árvores em três décadas e convive com baixa diversidade na flora e uma preocupante escalada de espécies consideradas problemáticas por especialistas: das 9.930 árvores espalhadas por uma área de mais de um milhão de metros quadrados, 1.162 (ou 11,7%) são exóticas invasoras. Por outro lado, a “invasão” de pássaros raros mostra que ainda há enorme capacidade de atrair fauna e, consequentemente, um imensurável potencial turístico.

Fica evidente que o Parque do Flamengo perde em variabilidade genética, já que espécies relevantes possuem um baixo número de indivíduos, como é o caso do cedro, Cedrela fissilis, espécie ameaçada que está representada por uma única árvore.

Marcelo Carvalho
Engenheiro Florestal

O #Colabora teve acesso exclusivo aos dados do “Estudos de flora e fauna como subsídios à revitalização ambiental do Parque do Flamengo”, elaborado pela Biovert Florestal e Agrícola Ltda., como parte das compensações ambientais do grupo BR Marinas, e entregue à prefeitura do Rio no dia 14 de outubro. Entre as dez espécies de árvores mais numerosas no parque seis são exóticas e quatro, nativas.

A árvore mais prevalente no Aterro é a munguba, nativa do México, América Central e Antilhas e comum no Maranhão e principalmente na região Amazônica. As amendoeiras, originária da Malásia, invasora em regiões costeiras e malquistas em parques, por tirar espaço de espécies nativas, ficam em segundo lugar. Das 176 espécies encontradas pela pesquisa da Biovert no espaço idealizado por Maria Carlota, a “Lota”, de Macedo Soares, apenas seis são ameaçadas de extinção, como a Paubrasilia echinata (mais conhecida como pau-brasil), com 87 unidades, e a Sideroxylon obtusifolium, a quixabeira, com 65.

– Fica evidente que o Parque do Flamengo perde em variabilidade genética, já que espécies relevantes possuem um baixo número de indivíduos, como é o caso do cedro, Cedrela fissilis, espécie ameaçada que está representada por uma única árvore. A grande presença de amendoeiras chama a atenção. O problema não é a árvore em si. É a sua localização em locais inadequados. Não há controle da dispersão do fruto e isso torna-se um problema – diz o coordenador do projeto e engenheiro florestal Marcelo Carvalho, da Biovert.

Acometidas por doenças ou pela falta de adaptação ao clima do Rio, muitas árvores do Parque do Flamengo foram morrendo ao longo dos anos. Marcelo conta que, em 1965, o paisagismo de Burle Marx estabeleceu a meta de plantio de 16 mil árvores. Ao final dos anos 1980, o botânico Luiz Emygdio de Mello Filho contabilizou aproximadamente 12 mil indivíduos arbóreos. Nos anos 2000, eram cerca de 10.500. Atualmente são exatas 9.930 árvores.

animaarvorespqflamengo2_1

Substituição: sempre uma polêmica

A perda numérica também foi acompanhada de uma queda progressiva da qualidade arbórea. Algumas espécies importantes para atrair pássaros, como o araçá e a canela-amarela, inexistem no aterro. Outras, como o algodoeiro-da-praia e a brassaia, existem aos montes. O algodoeiro-da-praia, exótico invasor mais numeroso, teve inclusive seu plantio proibido em 2015 no Ceará.

– As espécies exóticas, especialmente as invasoras, têm elevado grau de ameaça à biodiversidade. Algumas delas são difíceis de serem manejadas e controladas, o que acaba comprometendo o equilíbrio ambiental local – destaca Marcia Hirota, presidente da SOS Mata Atlântica.

O documento sugere a substituição das exóticas invasoras por nativas para garantir “a riqueza florística e faunística local, contribuindo para o estabelecimento de processos ecológicos ainda não considerados no Parque”. A questão sempre suscita polêmicas. Muitas polêmicas. Ainda mais no Parque do Flamengo, projetado na década de 1960, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1965, e considerado pela Unesco como Patrimônio Mundial como Paisagem Cultural, em 2012.

Para completar, as árvores do Aterro, indistintamente, são tombadas pela prefeitura. Qualquer modificação deve ter a anuência do escritório de paisagismo Burle Marx, detentor dos direitos autorais do projeto do Parque do Flamengo.

Papagaios e cardeais

Outro tipo de invasão, porém, também apontada pelo documento, é benéfica: a presença de pássaros. Muitos deles surpreenderam os pesquisadores, como o papagaio-verdadeiro (A. aestiva) e o cardeal (Paroaria coronata), figurinhas fáceis no tráfico de animais silvestres. Também foram encontradas no Parque do Flamengo espécies endêmicas da Mata Atlântica, ou seja, que só ocorrem no bioma, como o tiê-preto o periquito-rico.

De acordo com o estudo, 86 espécies presentes em áreas verdes do entorno podem efetivamente ser atraídas para o parque, considerando aspectos da biologia e ecologia das espécies. Não foram encontradas espécies ameaçadas e todas são residentes no Brasil.

– A observação de pássaros movimenta o ecoturismo no mundo de maneira significativa. O Parque do Flamengo tem um potencial incrível – diz Marcelo Carvalho, diretor da Biovert.

No final dos anos 1980 foram contabilizadas 12 mil árvores. Nos anos 2000, eram cerca de 10.500. Atualmente são exatas 9.930 árvores. Foto de Custódio Coimbra
No final dos anos 1980 foram contabilizadas 12 mil árvores. Nos anos 2000, eram cerca de 10.500. Atualmente são exatas 9.930 árvores. Foto de Custódio Coimbra

Escrito por Emanuel Alencar

Emanuel Alencar

Jornalista formado em 2006 pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou nos jornais O Fluminense, O Dia e O Globo, no qual ficou por oito anos cobrindo temas ligados ao meio ambiente. Atualmente, é editor de Conteúdo do Museu do Amanhã. Tem pós-graduação em Gestão Ambiental e cursa o mestrando em Engenharia Ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apaixonado pela profissão, acredita que sempre haverá gente interessada em ouvir boas histórias.

14 posts

2 Comentários

Deixe uma mensagem
  1. O maior dos problemas, foi a falta de um estudo mais aprofundado para a criação do Parque. Aqui no Brasil, desde siempre as coisas são realizadas as pressas e para ontem. Burle Max, onde estiver que me perdoe, mas cometeu seríssimos equívocos – as escolhas das espécies alies foi um colossal lapso e as escolhas das nativas não foi muito acertada. Veja, na década da elaboração do projeto ainda tínhamos muitas áreas verdes intatactas pela cidade – através da observação dessa fauna e flora é que deveriam ter saído as espécies a serem plantadas no parque. Temos que assumir que houve erro sim no projeto de plantio de espécies e não se considerou como seriam a reprodução das espécies. Afinal, como nós, as arvores tem um tempo delimitado de vida, logo é necessário que haja reprodução. Na minha concepção é inaceitável que se tenha desprezado o plantios de arvores nativas de grandes portes e as frutíferas nativas, ignorar a goiabeira foi no minimo um grande mico. Mas o idealizador está perdoado rs afinal foi um grande amante da flora e a contribuição que deixou para o planeta o redime de qualquer lapso. O momento reclama que pensamos em soluções para o presente e futuro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *