O que uma proteína capaz de ajudar pacientes com lesão medular a recuperar movimentos, o sequenciamento recorde do genoma da Covid-19 e um catalisador que reduz emissões de gases poluentes têm em comum? Todos são resultados de pesquisas conduzidas por mulheres.
A participação feminina na produção científica brasileira é expressiva: em 2022, mulheres já respondiam por 49% dos autores de artigos científicos publicados no Brasil, segundo o relatório “Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil”, lançado em março de 2024 pela Elsevier-Bori. O Brasil também é o terceiro país do mundo com maior participação feminina na ciência.
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Entretanto, essas mulheres não deixam de enfrentar desafios e desigualdades no meio acadêmico. Segundo o relatório, a presença de mulheres na ciência é maior no início da carreira, representando 51% entre os pesquisadores mais jovens, mas cai para 36% entre os mais experientes. E, apesar de representarem maioria nas bolsas de mestrado (54%) e doutorado (53%) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), as mulheres representam somente 35,5% das bolsas de produtividade — destinadas a pesquisadores de destaque em suas áreas.
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Veja o que já enviamosNeste Dia Internacional da Mulher, o #Colabora listou seis mulheres, suas trajetórias e contribuições para a ciência no Brasil.
Tatiana Sampaio
Tatiana Sampaio, nascida no Rio de Janeiro (RJ) em outubro de 1966, é coordenadora do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ficou conhecida no país a partir do último semestre, apesar de sua pesquisa ter começado há quase 30 anos. Em agosto do último ano, publicou um estudo sobre a polilaminina, uma proteína capaz de regenerar as células da medula. A proteína é derivada da laminina, produzida naturalmente pelo corpo humano e pode ser encontrada na placenta.
Esse medicamento experimental possibilita a recuperação dos movimentos de pacientes paralisados e causou comoção após circularem nas redes sociais vídeos de pacientes paraplégicos e tetraplégicos com retorno de parte dos movimentos. A pesquisa é animadora e pode ser uma revolução no tratamento de lesões de medula, mas ainda está em fase de testes e não é um medicamento aprovado. Este ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o inicio da etapa de estudos clínicos.
Jaqueline Goes de Jesus
Jaquelines Goes nasceu em Salvador (BA), em outubro de 1989. Mestre em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa (PgBSMI) pelo Instituto de Pesquisas Gonçalo Moniz – Fundação Oswaldo Cruz (IGM-FIOCRUZ), e doutora em Patologia Humana e Experimental pela Universidade Federal da Bahia. A pesquisadora ficou conhecida por ser uma das coordenadoras da equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do vírus SARS-CoV-2, junto da imunologista Ester Sabino, professora da Faculdade de Medicina da USP.
O sequenciamento foi coletado da amostra do primeiro brasileiro infectado por Covid-19 no Brasil, confirmado no dia 26 de fevereiro de 2020. A descoberta foi em tempo recorde, em apenas 48 horas após a confirmação do caso, e foi essencial para o início do enfrentamento à pandemia no país.
Ester Sabino
Assim como Jaqueline, Ester Cerdeira Sabino liderou o grupo de pesquisa responsável pelo sequenciamento do coronavírus em tempo recorde — pesquisadores de outros países levaram em média quinze dias para obter o mesmo resultado. Ester é uma imunologista e pesquisadora brasileira, nascida em São Paulo em 1960. Formou-se em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP) em 1984, é doutora em Imunologia, e possui carreira dedicada a doenças infecciosas como HIV, Doença de Chagas e arboviroses.
Em 2021, foi homenageada com a criação do Prêmio Ester Sabino para Mulheres Cientistas do Estado de São Paulo pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e a Academia de Ciências do Estado de São Paulo.
Vivian Miranda
Destaque por ser a primeira mulher trans a realizar pós-doutorado em astrofísica na Universidade do Arizona, Vivian Miranda nasceu no Rio de Janeiro em 1986 e se formou pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além de ser doutora em astrofísica pela Universidade de Chicago, a pesquisadora também se destaca por ser a única brasileira em um projeto da NASA para desenvolver o satélite Nancy Grace Roman Space Telescope.
Em artigo para o site Ciência Hoje, Vivian escreveu que “não via a possibilidade de ser cientista e travesti ao mesmo tempo, e os dois sonhos eram igualmente importantes”, mas que encontrou acolhimento durante pós-graduações na Universidade da Pensilvânia e Universidade do Arizona, período em que assumiu sua identidade de gênero e realizou tratamentos de transição.
Viviane dos Santos
Viviane dos Santos Barbosa é uma engenheira química e bioquímica baiana, nascida em Salvador em 1975 e reconhecida mundialmente por desenvolver um catalisador (substância que acelera reações químicas e aumentam a eficiência), a partir da mistura entre os metais paládio e platina, que reduz a emissão de gases poluentes tóxicos. A partir desse trabalho, venceu em 2010 a International Aeorol Conference, na Finlândia, competindo entre 800 trabalhos científicos de todo o mundo.
Formada em química industrial pela UFBA, mudou-se para a Holanda nos anos 1990, onde concluiu bacharelado em engenharia química e bioquímica na Universidade Técnica de Delft, além de formar como mestre em nanotecnologia na instituição holandesa.
Margareth Dalcolmo
Margareth Maria Pretti Dalcolmo, nascida no interior do Espírito Santo em 1954, é uma pneumologista, professora, escritora e pesquisadora brasileira, formada pela Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória e doutora em pneumologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela ficou conhecida por seu trabalho clínico e de pesquisa em tuberculose, outras micobacterioses e doenças respiratórias, além de ser uma das pioneiras na luta contra o tabagismo no Brasil.
Também alerta com recorrência para o uso de vape pelos jovens, avaliando que é uma “epidemia grave” em entrevista à Veja. Durante a pandemia de Covid‑19, tornou‑se uma das principais vozes científicas do país, divulgando informações em jornais, rádios, TV e artigos, o que lhe rendeu grande visibilidade pública e prêmios como o Prêmio Jabuti na categoria Ciências, em 2022 com o livro ‘Um tempo para não esquecer: a visão da ciência no enfrentamento da pandemia do coronavírus e o futuro da saúde’.
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