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Conheça 5 casas e uma plataforma que oferecem abrigo para LGBTs

Iniciativas se espalham por todo o país, e até uma plataforma digital conecta os que precisam aos que querem ajudar


Jaqueline, de 24 anos, moradora da Casa Nem: ela vive lá há um ano e meio (Divulgação)
Jaqueline, de 24 anos, moradora da Casa Nem: ela vive lá há um ano e meio (Foto Bibiana Maia)

Quando o tema é orientação sexual ou gênero, o próprio lar pode ser um espaço tão cruel quanto o mundo lá fora, e a rua acaba tornando-se a única opção. Diante de muitas histórias de pessoas que ficaram sem ter onde morar – apenas por serem quem são –, militantes se espalham pelo Brasil organizando casas de acolhimento, que, às vezes, funcionam sob o próprio teto. A necessidade é tão grande que até uma plataforma digital foi criada para conectar os que precisam aos que oferecem ajuda. 

Referência no Rio de Janeiro, a Casa Nem, abriga 35 pessoas no momento, já recebeu mais de 65 e ainda atende 250 pessoas em situação de rua com refeições. Tem quem viva no local desde que foi fundado, há um ano e meio. À frente, está Indiana Siqueira, de 46 anos. Por ser travesti, sentiu na pele o que é morar nas ruas de São Paulo: “Há muito tempo tentava [criar a casa] e hoje é uma realidade. Se tiver que sair daqui e ir para outro lugar, ela não deixará de existir”, conta ela acrescentando que além da Lapa, há uma em Mesquita, na Baixada Fluminense, e a Zona Oeste do Rio deve ganhar, até dezembro, um espaço em Santíssimo.

Quero dar um chega de trabalhar na rua à noite, quero trabalhar com o dia

Jaqueline de Castro, 24 anos
Moradora da Casa Nem

A travesti Jaqueline de Castro, de 24 anos, é uma das atuais moradoras da primeira Casa Nem. A paulista queria recomeçar a vida no Rio, mas acabou nas ruas e abrigos. Ela conheceu o projeto através de um amigo, que a convidou para o Natal. Mudou-se no início do ano e, neste momento, se dedica aos livros: “Quero dar um chega de trabalhar na rua à noite, quero trabalhar com o dia”, Jaqueline que divide-se entre cabeleireira e prostituta.

Indianara está à frente da Casa Nem e já conseguiu expandir o projeto para outros lugares (Foto Bibiana Maia)
Indianara está à frente da Casa Nem e já conseguiu expandir o projeto para outros lugares (Foto Bibiana Maia)

Na casa, quem quer voltar a estudar pode ingressar no Prepara Nem, cursinho preparatório para o ENEM voltado para pessoas LGBT, que é aberto também para o público. O projeto está presente também em Niterói e inspirou outros estados, como Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Goiás. Outra iniciativa é o Costura Nem, uma oficina de moda: “Fazemos tudo reaproveitando peças de roupas doadas para não produzir ainda mais lixo”, conta Indianara, que teve o próprio vestido de noiva confeccionado nas aulas.

A realidade paulistana

Em São Paulo, quem precisa pode recorrer à Casa 1. O projeto tocado pelo jornalista Iran Giusti, de 28 anos, funciona desde janeiro, mas desde 2015, ele, que é gay, decidiu receber LGBTs em seu apartamento. Atualmente, 12 pessoas moram no local, que já abrigou 24. Segundo Iran, a procura é grande por parte de jovens de 18 a 24 anos, de origem periférica. Ele conta com a ajuda de uma rede 40 voluntários, sendo três fixos e remunerados com uma bolsa de R$ 800: “Temos aulas de inglês, cursinho preparatório do ENEM, laboratórios de dança, performance e teatro, e atendimentos psicossociais”.

A Casa 1 fez mudar a visão de militância. É colocar a mão na massa, é fazer a diferença na vida das pessoas

Marcel Borges
Morador da Casa 1

Ex-morador da Casa 1, o estudante de pedagogia Marcel Borges, de 26 anos, ainda está se acostumando com o fim da sua acolhida. Homem trans, ele morou por três meses no local – tempo máximo permitido: “Saí de casa por falta de entendimento da minha família. Hoje divido uma casa com uma amiga e tive uma reaproximação com meus pais. Foi importante para entender este momento [de transição] e ter tempo para me estabilizar”.

A Casa 1 em São Paulo: centenas de pessoas abrigadas por ano (Foto de divulgação)
A Casa 1 em São Paulo: centenas de pessoas abrigadas por ano (Foto de divulgação)

No futuro, Marcel quer ser voluntário, pois sente “uma dívida”: “A Casa 1 fez mudar a visão de militância. É colocar a mão na massa, é fazer a diferença na vida das pessoas”. Não só quem é ajudado sente uma mudança interna. O próprio Iran revela: “A Casa me trouxe milhões de perspectivas de vida muito diferentes e o entendimento de que existem muitos jeitos de viver”.

Plataforma inspirada no Airbnb

De olho na vontade de quem quer ajudar e na dificuldades de achar um espaço quando se precisa, um grupo de oito estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) criou o plataforma Mona Migs. O embrião surgiu em abril de 2016, quando a instituição promoveu um hackaton, evento no qual grupos precisavam criar uma startup em 54 horas. Eles foram atrás de financiamento coletivo e conseguiram R$ 22.997.

Os criadores da plataforma Mona Amiga: inspiração em gigantes da rede (Foto de divulgação)
Os criadores da plataforma Mona Migs: inspiração em gigantes da rede (Foto de divulgação)

O grupo fez uma pesquisa  e descobriu que 75% dos homossexuais tinham medo de ser expulsos de casa, e 60% disseram conhecer alguém que já ficou sem abrigo. Por outro lado, 55% dos consultados afirmaram que acolheriam uma pessoa LGBT. O ponto mais sensível na criação do projeto foi a segurança: “Foi o que mais nos tomou tempo de planejamento. Mas percebemos que não uma há forma acurada de garantir isso. Fizemos algumas recomendações”, conta Wallace Soares, que trabalha na programação. Entre elas estão adicionar nas redes sociais e marcar o primeiro encontro público.

A plataforma é inspirada em gigantes como Couchsurfing e Airbnb e já está liberada para Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia. Em breve, deve expandir para outros estados. O Mona Migs funciona por geolocalização, encontrando a pessoa mais próxima disponível, e conta com um chat integrado. Atualmente há 96 usuários no total, sendo 71 deles acolhedores. O número só tende a crescer.

Sandra Muñoz, da Casa Lilás: ela usa o próprio dinheiro para abrigar as pessoas (Foto de divulgação)
Sandra Muñoz, da Casa Cristal Lilás: ela usa o próprio dinheiro para abrigar as pessoas (Foto de divulgação)

Na Bahia e no Amazonas, projetos precisam de sede

Enquanto no Rio e em São Paulo os projetos já possuem espaço próprio, no Norte e no Nordeste, iniciativas correm atrás de apoio. Em Salvador, na Bahia, a Casa Cristal Lilás, após uma década de trabalho, ainda funciona na casa da ativista Sandra Muñoz, de 44 anos. Ela, que dá apoio não só à LGBTs, mas mulheres heterossexuais cisgêneras também, conta que a primeira pessoa que abrigou foi uma mãe: “Estava na rodoviária, e vi que ela estava chorando com um bebê no colo. Ela disse que fugiu de casa no interior e precisava conseguir falar com a mãe para voltar para o Pará. Ficou mais de um mês até ter dinheiro para ir embora”.

Sandra, no momento, acolhe 15 pessoas, mas calcula que já recebeu mais de 300 só na metade de 2017. Ela conta com a ajuda de uma rede que oferece psicólogo, assistente social, e advogado: “Às vezes, as pessoas vêm correndo e estão sem documento, sem roupa. Tem gente que precisa só de uma noite para esfriar a cabeça e conseguir falar com alguém”.

Casa Manifesta LGBT: em Manaus, eles estão em busca de financiamento coletivo (Foto de divulgação)
Casa Manifesta LGBT: em Manaus, eles estão em busca de financiamento coletivo (Foto de divulgação)

Em Manaus, o grupo Manifesta LGBT+ lançou este mês uma campanha de financiamento coletivo para tirar do papel a Casa de Acolhimento LGBT+, a primeira no Norte do país. A ideia foi inspirada na Casa 1: “O marco principal foi a quantidade de pessoas próximas que começaram a nos notificar o abuso emocional que estavam sofrendo dentro de casa”, conta o presidente Gabriel Mota. Este ano, foram 12 casos.

Eles pretendem não só acolher, mas articular junto com o poder público e o setor privado para reinserir as pessoas na sociedade, no mercado de trabalho e na família. Para isso, querem oferecer serviços de capacitação e cidadania a quem estiver abrigado com uma rede de voluntários.

Como ajudar?

Além da iniciativa amazonense, os outros projetos também buscam no financiamento coletivo formas de se manterem ativos. A Casa 1, realizou um financiamento coletivo, mas o próprio Iran continua financiando parte das despesas: “Conseguimos 112 mil reais que financiou um ano de aluguel da casa e do centro cultural. A gente tem um gasto médio de R$ 12 mil reais mensais,  60% vêm do financiamento recorrente e 40% eu pago”.

Iran Giusti, da Casa 1: apesar do financiamento coletivo, contas não fecham (Foto de divulgação)
Iran Giusti, da Casa 1: apesar do financiamento coletivo, contas não fecham (Foto de divulgação)

a Casa Nem surgiu da ocupação de um espaço que antes era usado por outro coletivo. Mas não sem conflito. Até hoje, o contrato de aluguel do espaço – que está quatro meses atrasado – não está no nome de Indianara. Para levantar fundos, o espaço promove festas, vende produtos da oficina de moda Costura Nem, e recebe doações. Indianara, que também tira do próprio bolso, reclama que, para conseguir verbas através de projetos, existe muita burocracia: “Poderíamos ter apoio por financiamento, mas sem tanta cobranças que eu chamo de cisgêneras. Poderiam confiar um pouco mais e ver o que podemos fazer”

 


Escrito por Bibiana Maia

Bibiana Maia

Jornalista formada pela PUC-Rio com MBA em Gestão de Negócios Sustentáveis pela UFF. Trabalhou no Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e nos jornais O Globo, Extra e Expresso. Atualmente é freelancer e colabora com reportagens para jornais e sites.

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