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A tensa caminhada do fim de semana

Sem espaço, pedestres cariocas batalham por um lugar ao sol


No meio do caminho havia um salsichão, um skate, uma bicicleta e quem sabe até um tanque do Exército. Foto Luiz Souz/NurPhoto
No meio do caminho havia um salsichão, um skate, uma bicicleta e quem sabe até um tanque do Exército. Foto Luiz Souz/NurPhoto

Não há nada mais estressante no fim de semana carioca do que o falso footing relax nos calçadões. Escolha um. O de Ipanema, o de Copacabana, o do Aterro, o da Lagoa. Todos neurotizantes. Tênis, camiseta e Rivotril.

A ideia era a de que as pessoas pudessem finalmente deixar o esgotamento nervoso no escritório, o carro na garagem e, um pé atrás do outro, em conexão com as atividades do seu corpo, como era a vida no início de tudo, elas pudessem saudavelmente caminhar, andar, perambular, o verbo que fosse, e se desligar das aporrinhações deste mundo. Não é o caso do footing carioca.

A superpopulação em torno dessa ocupação dominical tornou o programa impossível de ser vivido sem que o sossego, a essência do ato, seja respeitado. É preciso ser radical e começar a priorizar, na contramão de uma ordem urbana que lhe é inimiga, o pobre coitado do pedestre.

O produtor de cinema Luis Carlos Barreto certo domingo se deixou levar pela necessidade de pedestrar ao léu, por uma via que a princípio deveria estar, segundo as ordens municipais, dedicada com exclusividade ao bípede, esse sujeito que caminha sobre suas próprias pernas e precisa fazer com que elas se movimentem sem preocupação, em prol da saúde física e da satisfação mental, como se fosse o primeiro homem da espécie.

Barretão, 80 e lá vai fumaça de idade, foi imediatamente atingido aos primeiros caminhares por uma prancha que se desprendeu assassina dos pés de um skatista e se chocou criminosa em suas canelas cansadas da vida, atormentadas pela crise no mercado cinematográfico e muito necessitadas daquilo, de conjugar o verbo espairecer, no que seria a princípio o propósito do programa de seu proprietário. Barretão e suas canelas queriam apenas um simples afrouxar dos nervos.

A saudável, porém cada vez mais difícil, convivência entre ciclistas e pedestres. Foto Vanderlei Almeida/AFP
A saudável, porém cada vez mais difícil, convivência entre ciclistas e pedestres. Foto Vanderlei Almeida/AFP

Machucado, com a dor provocada pelo pedaço de tábua, que teve o peso aumentado devido à velocidade com que foi disparado, só restou a Barretão voltar para casa e nunca mais cair na ilusão de que o calçadão da orla do Rio é um local de se desligar do mundo, de se deixar levar finalmente sem questões se não as inerentes ao respirar e ao olhar deslumbrado sobre o cenário ao redor.

A Zona Sul do Rio tem mais de 20 km fechados ao trânsito de carros aos domingos, mas ainda uma vez os pedestres não têm a prioridade. Todo domingo, é estatístico, uma dezena deles é atropelada por bicicletas que, expulsas das ruas pelos ônibus, trafegam na ciclovia como se fossem os ônibus desta. Vigora a lei do mais forte, daquele que protegido pelos ferros que pilota joga a tralha da sua máquina para cima do alheio –  e ele que saia da frente.

Tem uma música do Herivelto Martins que diz “Caminhemos, talvez nos vejamos depois” – um andarilho de domingo na Lagoa não seria tão presunçoso. Pode ser que não haja depois.

O Rio perdeu mais essa chance, a de saber lidar com a pista compartilhada, essa faixa de não beligerância da Lagoa Rodrigo de Freitas em que pedestres e ciclistas pudessem conviver na paz de suas especificidades e seguranças. É mais uma derrota para as cores peripatéticas. Mais frágil, o que caminha segue tenso com a possibilidade de, por exemplo, se der uma parada breve para observar um biguá entre os pedalinhos, ser abalroado por uma bicicleta – ou um skate, ou um triciclo, ou uns patins – que lhe vem na cola em alta velocidade.

A superpopulação em torno dessa ocupação dominical tornou o programa impossível de ser vivido sem que o sossego, a essência do ato, seja respeitado. É preciso ser radical e começar a priorizar, na contramão de uma ordem urbana que lhe é inimiga, o pobre coitado do pedestre.

Mais de duas décadas atrás, o então prefeito Cesar Maia fechou ao trânsito dos domingos uma das pistas ao redor da Lagoa. Tirando-a dos “quatro rodas”, dedicou-a aos bípedes. A operação durou um mês. A engenharia de trânsito não conseguiu reorganizar o fluxo dos carros, os engarrafamentos eram constantes, os motoristas protestaram com buzinaços e conseguiram o apoio dos jornais. O prefeito, inseguro, prejudicado pela fama, quase sempre justa de maluco-beleza, voltou atrás. Liberou de novo a pista aos carros. Confirmou o que ainda hoje se suspeita e é preciso lutar contra: o Rio é uma cidade que, quando a questão é abrir caminho para o pedestre, caminha para trás.


Escrito por Joaquim Ferreira dos Santos

Joaquim Ferreira dos Santos

Jornalista e autor de vários livros, entre eles "Feliz 1958 - O ano que não devia acabar" e as biografias de Leila Diniz, Antonio Maria e Zózimo Barrozo do Amaral. Organizou a coletânea "As cem melhores crônicas brasileiras" e também publicou livros como cronista. Define-se principalmente como um repórter de Cidade. No #Colabora, Joaquim escreve sobre o que vai pelas calçadas e espaços públicos do Rio.

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2 Comentários

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  1. Pois é Joaquim… Precisamos de campanhas, mas principalmente de bom senso e educação. Vem participar com a gente da Semana Municipal do Pedestre a partir do próximo domingo. Entra na página do Caminha Rio no Facebook. 😉

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