As propostas do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro para a educação parecem um manifesto do movimento Escola sem Partido – lembram dele? No Dia dos Professores, não há como não interpretar o texto registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como um ataque a quem pratica o magistério. “(…) Voltamos a colocar a família no centro das políticas públicas e a defender uma escola que ensina, e não que doutrina, respeitando os valores que os pais passam em casa”, consta na página 34.
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Não tem uma palavra sobre valorização dos professores, melhoria das condições de trabalho, apenas sobre formação:, mas sem tirar o foco da suposta “doutrinação”: “Os professores terão qualificação contínua baseada em evidências científicas, e não em modismos pedagógicos, com formação que os prepare para ensinar bem, e não para militar em sala de aula” (veja página 35). Um ataque não só ao ensino básico como ao superior, envolvido nos cursos de pós-graduação para docentes.
O Brasil tem 2,4 milhões de professores para cerca de 46 milhões de estudantes, segundo o Censo da Educação Básica. A maior parte são mulheres, provavelmente com dupla jornada (casa e trabalho) e baixos salários. Pensar só em qualificação e não na melhoria da qualidade de vida desses profissionais é injusto.
Iniciativas como o Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu para a Qualificação de Professores da Rede Pública de Educação Básica (ProEB) oferecem não somente o mestrado profissional como a possibilidade de bolsas via Capes, além da saudável convivência entre professores ensino básico e das universidades.
Nas proposta de Lula para o quarto mandato estão, ao menos, a garantia de manutenção do Piso Nacional do Magistério – ainda longe do ideal, mas um grande passo – e a continuidade de programas como o Pé-de-Meia Licenciatura, que oferece bolsas a quem cursar licenciatura, e do Mais Professores – um tipo de “Mais Médicos” para a educação.
E ainda que não fique claro o que o programa de Bolsonaro quer dizer com “qualificação continuada com bases em evidências científicas”, a formação dos professores tem sim evoluído. O percentual de docentes com pós-graduação passou de 44,7% para 48,1% entre 2021 e 2025, e o daqueles com formação continuada pulou de 40% a 44,7% no mesmo período, segundo o Censo da Educação.
Ainda a doutrinação
Com uma introdução ainda ligada ao campo ideológico, o texto das propostas do candidato do PL incluem a ampliação das escolas cívico-militares, “por unirem disciplina e bom desempenho”. Outro ponto que chama a atenção é a alfabetização.
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Veja o que já enviamosAlfabetizar na idade certa é prioridade nas propostas dos dois candidatos, mas a grande aposta de Flávio Bolsonaro parece a adoção exclusiva do método fônico – a associação da letra (grafema) ao seu som (fonema) – como proposto no governo de seu pai, com resultados difíceis de medir por conta da pandemia.
A adoção de um só método, no entanto, divide educadores e o debate, infelizmente, se tornou polarizado. Já a proposta de Lula é a continuidade do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, uma união entre estados e municípios, que parece estar dando resultados: a porcentagem de crianças alfabetizadas no segundo ano subiu de 59% em 2024 para 66% em 2025. Há, no entanto, críticos às formas de avaliação que chegaram a esses resultados.
Bolsonaro quer tirar as universidades do MEC
No ensino superior, que perdeu quase R$ 10 bilhões durante a gestão de Jair Bolsonaro, a proposta do atual candidato do PL é tirar as universidades federais do Ministério da Educação (MEC) e passar ao Ministério da Ciência e Tecnologia. A justificativa é “unificar ciência e ensino superior sob o mesmo teto”, mas há receio que as universidades fiquem fora do piso constitucional que garante valor mínimo para educação em relação às receitas federais.
O programa ainda afirma que Capes e CNPq vão priorizar o impacto produtivo para que a “universidade chegue à indústria e vire produto, emprego e renda, em vez de ficar na estante”, o que – mais uma vez – soa como uma crítica aos professores, desta vez do ensino superior. Ninguém discute a importância da produção de tecnologia e da colaboração entre o conhecimento produzido no ensino superior e a economia, mas o texto ignora a importância das ciências humanas, mas não só: despreza a ciência básica – que resultou nos prêmios Nobel de Medicina e Física deste ano, só para usar um exemplo recente. .
As propostas de Bolsonaro também ignoram as muitas histórias de sucesso do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) e do Prouni e promete trocá-los pelo Empréstimo Contingente à Renda, com a promessa de que “o estudante só começa a pagar quando estiver empregado e ganhando, o valor da parcela é proporcional ao que ele recebe e o prazo é bem mais longo”. A grande dúvida é como isso será financiado mesmo com os cortes de gastos – outra promessa de Flávio Bolsonaro.
Educação e ciência são áreas estratégicas para o futuro do Brasil e, talvez, sejam determinantes para a decisão na hora das urnas. Ler e interpretar as entrelinhas dos programas de governo é só uma parte do dever de casa que precisamos fazer no Dia do Professor.
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