O Brasil é o quinto país que mais gera lixo eletrônico no mundo. Mais dia, menos dia, um celular, uma TV, um computador ou um forno de micro-ondas é descartado, assim como uma lista enorme de outros equipamentos – um dos reflexos mais críticos do mundo contemporâneo. Chega a 2,4 milhões de toneladas a geração anual desse resíduo eletrônico no país. Apenas 3% dessa sucata é descartada corretamente, fazendo com que uma verdadeira mina urbana vá parar nos lixões e aterros controlados, especialmente das grandes cidades.
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Sob a ação do sol ou da chuva nos lixões tem de tudo um pouco: ouro, prata, paládio, níquel … Sem falar nos metais pesados que contaminam o solo e a água. Só que esse conjunto de metais e minerais são fundamentais para alimentar a transição tecnológica. Não à toa o Brasil está no epicentro de uma corrida global justamente por essas matérias-primas estratégicas. É que as reservas geológicas brasileiras são diversificadas, gigantes e ricas em metais críticos e raros essenciais para a fabricação de semicondutores, carros elétricos, painéis solares.
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Veja o que já enviamos“Descartados por aí, exportamos esses metais secundários a preço da banana”, sintetiza Daniel Majuste, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Há mais de dez anos ele estuda a mineração urbana, ou seja, o processo de recuperação e reaproveitamento de materiais valiosos e matérias-primas a partir de produtos descartados e resíduos gerados nas cidades, reintroduzindo-os na cadeia produtiva.
O país perde cerca de R$ 4 bilhões todos os anos, apenas por não recuperar quatro metais básicos e preciosos (cobre, alumínio, ouro e prata), contidos nos equipamentos eletroeletrônicos descartados no lixo. Cálculos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) dão conta de que o Brasil desperdice cerca de 11 toneladas de ouro por ano.
A falta de fiscalização e a baixa adesão ao descarte correto leva a uma prática recorrente no mercado informal da reciclagem. “Atravessadores vendem componentes valiosos e jogam o restante no lixo, contaminando o solo e a água com metais pesados”, comenta Teresa Cristina, coordenadora do Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir) da USP.


Ouro no lixão
Em uma única tonelada de placas de circuito impresso, popularmente chamadas de placas-mães ou placas elétricas, espécie de “cérebro” desses aparelhos, é possível garimpar até 250 gramas de ouro, além de quantidades expressivas de prata, paládio, cobre e outros minerais.
Além do ouro, considerado um excelente condutor de eletricidade, um smartphone moderno contém mais de 70 elementos da tabela periódica em sua composição, pouco mais de 60% de todos os 118 elementos químicos conhecidos, distribuídos em componentes microscópicos de alta tecnologia.
“Estamos deixando de olhar o real valor econômico desses resíduos, enquanto outros países já estão até proibindo a sua exportação”, chama a atenção Majuste, que coordena projetos de mineração urbana no Laboratório de Mineração Urbana da UFMG. Os Estados Unidos é um deles. O governo americano implementou restrições severas e passou a proibir a exportação de componentes essenciais da mineração urbana. “Se estivéssemos investindo na mineração urbana, estaríamos conservando recursos naturais que são finitos”, comenta.
O Brasil faz a triagem, tritura e separa os metais básicos dos aparelhos eletroeletrônicos, como ferro e alumínio, mas não faz o refino dos metais preciosos. O país exporta entre 5 e 6 mil toneladas de placas elétricas trituradas, que saem do país em contêineres para refinarias na Ásia, Estados Unidos e Europa. A Umicore, da Bélgica, é considerada a maior recicladora e refinadora de metais preciosos contido no lixo eletrônico do mundo.
Na sucata eletrônica exportada pelo Brasil, um quilo de placas-mães é vendido por um preço que pode variar de US$ 4,00 a US$13,00. Os valores pagos pelas refinarias no exterior são determinados pela quantidade estimada de ouro, cobre, paládio. Se esse material estivesse sendo processo no Brasil, além da contribuição econômica, resultando na produção de bens, criaria empregos. Por ser um dos grandes consumidores de equipamentos eletroeletrônicos, o país é, automaticamente, um importante gerador de lixo eletrônico.


Lixo eletrônico, desafio global
O lixo eletrônico não para de crescer no mundo. Projeções da ONU, no estudo “Global E-Waste Monitor”, indicam que a geração de lixo eletrônico pode chegar a 74,7 milhões de toneladas em 2030. Reinserir materiais reciclados na indústria ajuda a reduzir o impacto gerado pela extração da natureza. Sem falar na redução das emissões de gases de efeito estufa, especialmente CO2. Segundo a ONU, a geração mundial de lixo eletrônico está crescendo cinco vezes mais rápido do que a reciclagem documentada desse tipo de resíduo. Ainda seguindo esse relatório, o total de matéria-prima secundária extraída dos resíduos eletroeletrônicos descartados no mundo evitou que 900 milhões de toneladas de minério primário fosse extraído da natureza
Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) constatou que no Brasil existem mais dispositivos digitais em uso do que habitantes: 2,4 aparelhos por pessoa. Como o Brasil não está invertendo a lógica da mineração tradicional, baseada na exploração da floresta e na extração de matérias-primas da própria natureza, e apostando na mineração urbana, o país está deixando escorrer pelo ralo uma riqueza mineral e econômica.
Não bastasse isso, a Política Nacional de Resíduos Sólidos tem avançado timidamente e a meta de erradicar os lixões ainda está longe de ser atingida. Um terço das cidades brasileiras descarta os resíduos em lixões, ou seja, 31,9% dos municípios ainda deixam o lixo a céu aberto. A logística reversa, que garante que um produto descartado pelo consumidor volta para o fabricante para ser reciclado, também anda a passos lentos.


Força feminina
As mulheres são a principal força motriz da indústria de reciclagem no Brasil, especialmente no setor de triagem. São elas que ficam nas esteiras fazendo a separação mecânica, ou seja, de plástico, papelão e alumínio. Mãe e filha, Ana Léa Costa dos Santos e Caroline respectivamente, por exemplo, trabalham na Cooperativa Céu Azul, em Vigário Geral, Zona Norte do Rio. Abandonado pelo marido logo que chegou ao Rio, vinda de Sergipe, onde nasceu e foi criada, Ana se viu sozinha com três filhas para criar — Caroline é a mais velha.
Depois de passar anos catando lixo na rua, Ana Léa entrou para a cooperativa. Após separar as placas eletrônicas e baterias, a cooperativa envia para a Lorene que, por sua vez, exporta para outros países metais preciosos, como ouro, prata, cobre, rodio, platina, irídio, paladio, estanho, entre outros. Anualmente, a Lorene processa 6 mil toneladas de catalisadores veiculares, placas eletronicas, baterias de litio e carvão ativado oriundo de mineração urbana e manda tudo para fore do país.
As duas maiores gestores de logística reversa do país são a Green Eletron e Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree). Atuando em 1,3 mil cidade no país, a Green Eletron já coletou 30 mil toneladas de lixo eletrônico desde 2016. No ano passado, foram recolhidos 12,5 mil toneladas, o que representou a maior quantidade anual coletada em uma década. A coleta é feita a partir do Pontos de Entrega voluntária (PEVs), um total de 2 mil pontos espalhados pelo país.
A Green Eletron é composta por 180 empresas do setor de eletroeletrônicos, um universo composto por cerca de 5 mil empresas. Uma pesquisa interna da gestora constatou que 66% dos brasileiros sabem o que é lixo eletrônico, mas 4 a cada 10 pessoas ainda guardam eletrônicos velhos em casa por não saberem como descartá-los. São as mulheres (70%), entre 18 e 25 anos, o público que mais tem conhecimento sobre o que é lixo eletrônico, uma diferença de 8 pontos percentuais em relação aos homens.
Ao longo desses seis anos, a Green Eletron evitou a emissão de 23 milhões de quilos de CO2 fazendo a reciclagem desse lixo eletroeletrônico, calcula Bianca Gondo, coordenadora de Sustentabilidade da Green Eletron.
A Abree só trabalha com lixo eletroeletrônico doméstico. Ao todo, 7 mil PEVs espalhados por 1.500 municípios. “Ainda é pequeno o número de empresa de eletroeletrônico que faz logística reversa no país“. diagnostica Robson Esteves, presidente da Abree, o que significa gerenciar o fluxo de produtos, embalagens e materiais desde o consumidor de volta ao fabricante ou distribuidor.


Solução doméstica
O Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI) está à frente de um projeto para viabilizar a mineração urbana no Brasil. O método mais usado é o da pirometalurgia, que consiste em despejar as placas de circuito elétrico em fornos com altas temperatura para conseguir fundir e separar os metais. Além de muito caro, é necessária juntar uma quantidade gigantesca de placas elétricas — uma grande dificuldade para o Brasil, já que o percentual de sucata eletrônica descarta corretamente é de apenas 3%.
Outro empecilho é o fato de que as principais empresas do setor que realizam o pré-beneficiamento para exportação estão localizadas, primordialmente, nas regiões Sul e Sudeste, o que onera os resíduos oriundos das regiões Norte e Nordeste, devido ao custo do transporte.
Outra opção seria garimpar os metais pelo método da hidrometalurgia, ou seja, o uso de soluções aquosas e reações químicas de dissolução para selecionar e extrair metais específicos dos resíduos. É o que o CTI está desenvolvendo. “Ao enviar esses componentes para outros países, o Brasil deixa de capturar o valor agregado proveniente da recuperação de metais como ouro, prata e paládio, que poderia ser reinvestido internamente, gerando oportunidades de empregos qualificados e receitas fiscais para o Brasil e, principalmente, concorrendo para melhor remunerar os catadores e catadoras”. defende José Rocha, do CTI.
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