ODS 1
Dia da Terra: aquecimento global e desequilíbrio energético


Com agravamento da crise climática, o Dia da Terra deixa de ser, em 2026, apenas uma data de conscientização e assume um caráter de urgência histórica


O Dia da Terra, celebrado anualmente em 22 de abril, é reconhecido como um dos maiores movimentos ambientais do mundo. A data funciona como um alerta de que os recursos naturais são finitos e de que a saúde dos ecossistemas e o equilíbrio climático são essenciais para a manutenção da vida no planeta.
O movimento teve início nos Estados Unidos, em 1970, idealizado pelo senador Gaylord Nelson. Seu objetivo era canalizar a energia dos protestos estudantis da época para inserir a questão ambiental na agenda política nacional.
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Em 22 de abril de 1970, cerca de 20 milhões de americanos — aproximadamente 10% da população do país naquele momento — foram às ruas. Essa mobilização histórica contribuiu para a criação da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) e para a aprovação de legislações fundamentais, como a Lei do Ar Limpo. Em 1990, o Dia da Terra ganhou dimensão global, envolvendo cerca de 200 milhões de pessoas em 141 países e ajudando a pavimentar o caminho para a Cúpula da Terra de 1992, no Rio de Janeiro.
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Veja o que já enviamosAo longo dos 56 anos do Dia da Terra, um tema tornou-se cada vez mais central: o aquecimento global, que saiu do campo acadêmico e passou a ocupar o centro do debate público e político internacional a partir do final da década de 1980. Três momentos decisivos marcaram essa transição:
O testemunho de James Hansen (1988)
O marco inicial “explosivo” ocorreu em 23 de junho de 1988. Durante um verão de calor recorde e secas extremas nos EUA, o cientista da NASA James Hansen testemunhou perante o Senado americano. Ele afirmou ter “99% de certeza” de que o aquecimento global não era uma flutuação natural, mas sim causado pelo acúmulo de gases de efeito estufa. A notícia foi manchete no jornal New York Times, alertando o público leigo pela primeira vez.
A criação do IPCC (1988)
No mesmo ano, a ONU e a Organização Meteorológica Mundial fundaram o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O objetivo era elaborar relatórios científicos rigorosos para governantes. O primeiro relatório, publicado em 1990, confirmou que as atividades humanas estavam aumentando as concentrações de gases de efeito estufa, o que deu legitimidade política ao tema.
A Eco-92 no Rio de Janeiro (1992)
A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio, foi o ponto de virada diplomático. Nela, foi assinada a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o primeiro tratado global onde os países reconheceram formalmente o problema e se comprometeram a estabilizar as emissões.
Nas últimas décadas, o aquecimento global deixou de ser apenas um “problema ambiental” para se tornar uma ameaça existencial porque ele atua como um multiplicador de crises. Ele não apenas esquenta o planeta, mas desestabiliza os sistemas básicos que permitem a vida organizada em sociedade: água, comida e segurança.
A civilização humana floresceu durante o Holoceno, um período de 10 mil anos marcado por uma estabilidade climática excepcional. No entanto, o aquecimento atmosférico está nos empurrando para fora desse ‘espaço seguro’ que prevaleceu por milênios. Essa desestabilização gera uma reação em cadeia: insegurança alimentar, escassez hídrica e o degelo acelerado do permafrost e das calotas polares. Consequentemente, enfrentamos a elevação do nível do mar, o risco de colapso da Amazônia, o branqueamento de corais e uma perda crítica de biodiversidade — fatores que, somados a ondas de calor letais, ameaçam tornar inabitáveis vastas regiões do planeta.
A aceleração do aquecimento global nos últimos 11 anos
Até 1970 — ano de criação do Dia da Terra — a anomalia da temperatura global permanecia abaixo de 0,4º C em relação ao período pré-industrial. Na década de 1980, esse valor ultrapassou 0,5º C e atingiu cerca de 1º C acima da média pré-industrial por volta de 2010. Entre 2011 e 2014, houve uma relativa estabilização, como indicam os dados abaixo do Instituto Copernicus.
Entretanto, os últimos 11 anos (2015–2025) foram os mais quentes do Holoceno e revelam uma clara tendência de aceleração do aquecimento. O limite de 1,5º C estabelecido pelo Acordo de Paris — tomando como referência a média do período pré-industrial — foi superado na média do triênio mais recente (2023–2025): 1,48º C em 2023, 1,6º C em 2024 e 1,47º C em 2025.


O principal fator que impulsiona a elevação das temperaturas é o aumento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera, decorrente sobretudo da queima de petróleo, carvão e gás natural. O dióxido de carbono (CO₂) atingiu, em 2025, a maior concentração atmosférica em pelo menos 2 milhões de anos e continua em ascensão em 2026. Em 1992, ano da Conferência do Rio de Janeiro, a concentração de CO₂ era de 357 partes por milhão (ppm); a estimativa é que alcance cerca de 430 ppm em 2026. O nível considerado seguro é de aproximadamente 360 ppm.
Quanto maior a concentração de CO₂, mais intenso o efeito estufa e, consequentemente, mais elevadas as temperaturas globais. Segundo James Hansen et al. (2026), o aquecimento global está avançando em ritmo acelerado, e o mundo pode estar se aproximando de um novo evento de El Niño em 2026–2027, apenas três anos após o episódio anterior. Um intervalo tão curto, em condições normais, sugeriria um El Niño de intensidade moderada. Ainda assim, os autores alertam que mesmo um evento moderadamente forte pode ser suficiente para provocar recordes de temperatura global já em 2026 e valores ainda mais elevados em 2027.
O aquecimento extremo observado recentemente decorre principalmente da alta sensibilidade climática e do aumento do forçamento radiativo global líquido, e não apenas da ocorrência de um El Niño excepcional. Os autores indicam que a aceleração do aquecimento global teve início por volta de 2015, o que sugere que o limiar de 2 °C poderá ser alcançado já na década de 2030, e não em meados do século.


Desequilíbrio energético da Terra e as bombas de Hiroshima
Em um clima estável, a quantidade de energia que a Terra recebe do Sol é equivalente àquela que devolve ao espaço. No entanto, o Desequilíbrio Energético da Terra (EEI) — a diferença entre a energia que entra e o calor que é irradiado de volta — atingiu um recorde histórico em 2025.
No cenário atual, a energia incidente supera amplamente a energia emitida. Isso ocorre porque os gases de efeito estufa funcionam como um manto térmico ao redor do planeta, retendo o calor em excesso. Aproximadamente 91% dessa energia adicional é absorvida pelos oceanos, 5% pelos continentes, 3% pelas calotas polares e geleiras, e apenas 1% aquece diretamente a atmosfera. Fica evidente, portanto, que as atividades antrópicas estão desestabilizando de forma acelerada o equilíbrio natural do sistema terrestre.
Os dados mais recentes do EEI indicam uma média móvel de 36 meses em torno de 12 “bombas de Hiroshima por segundo” (HpS) em 2025 — o equivalente a cerca de 1,04 milhão de bombas de Hiroshima em energia térmica adicionada diariamente ao sistema climático, conforme mostra o gráfico abaixo.
De acordo com estudos do professor Eliot Jacobson, o EEI saltou de pouco menos de 3 HpS em 2004 para cerca de 11 HpS em 2026. Em apenas 22 anos, essa média quadruplicou. Na prática, isso significa que o excesso de calor retido pelo aumento dos gases de efeito estufa — responsável por derreter as calotas polares, aquecer os oceanos, intensificar eventos extremos e agravar secas — também quadruplicou.
Poucas métricas evidenciam com tanta clareza a velocidade das mudanças em curso. Nem a Curva de Keeling, nem a retração do gelo global, nem os recordes de temperatura da superfície do mar ou a queda do albedo terrestre capturam de forma tão direta a magnitude do problema quanto o crescente desequilíbrio energético do planeta.
Imagens de explosões atômicas são aterrorizantes pelo calor extremo e pela devastação imediata, como se viu em Hiroshima em 1945. No entanto, o agravamento do efeito estufa pode ser comparado, hoje, à liberação de energia equivalente à detonação de cerca de 11 bombas por segundo em 2026 — mais de 40 mil por hora e mais de um milhão por dia. Entre 2023 e 2025, as atividades antrópicas aqueceram o planeta com um volume de energia equivalente a aproximadamente 1,06 bilhão de bombas nucleares.


Além das dinâmicas econômicas tradicionais, o atual cenário geopolítico agrava significativamente a crise climática. Conflitos como a guerra da Rússia contra a Ucrânia e as tensões envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã não apenas reforçam a centralidade dos combustíveis fósseis, como também elevam as emissões de CO₂.
O redirecionamento massivo de capital e de recursos públicos para gastos militares reduz investimentos essenciais para a transição energética e para o enfrentamento da pobreza e da fome. O resultado é um ciclo perverso: os conflitos armados intensificam o aquecimento global, que, por sua vez, aprofunda o desequilíbrio energético do planeta.
Diante de um desequilíbrio energético medido em uma escala equivalente a milhões de bombas atômicas a cada 24 horas, o Dia da Terra, em 2026, deixa de ser apenas uma data de conscientização e assume um caráter de urgência histórica. As evidências são claras: a aceleração do aquecimento global e o agravamento do desequilíbrio energético indicam que a janela de oportunidade para evitar os cenários mais críticos está se fechando mais rapidamente do que se estimava.
O futuro da civilização passa, cada vez mais, pela capacidade de promover uma transformação profunda e imediata da economia global — sob o risco de converter o atual espaço seguro do Holoceno em uma referência do passado, incompatível com as condições de vida das próximas gerações.
Referências:
Copernicus. Global Climate Highlights 2025. GCH 2025, Press Resources, 14 January 2025
https://climate.copernicus.eu/gch-2025-press-resources
James Hansen et al. Another El Nino Already? What Can We Learn from It? 06 February 2026
https://www.columbia.edu/~jeh1/mailings/2026/ElNino.2026.02.06.pdf
Eliot Jacobson. How Many Hiroshimas per Second? Mar 19, 2026
https://climatecasino.substack.com/p/how-many-hiroshimas-per-second
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José Eustáquio Diniz Alves
José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.





































