ODS 1
Semanas de moda devem ser parte da mudança que queremos ver no mundo


Rio Fashion Week tem potencial de liderar na moda as soluções baseadas na natureza para enfrentar os desafios planetários


Após quase uma década de hiato, o Rio de Janeiro retoma sua Semana de Moda, que acontecerá de 14 a 18 de abril no Pier Mauá. Como uma iniciativa apoiada pela Prefeitura da cidade e organizada pela IMM, empresa responsável pelo São Paulo Fashion Week, o evento tem a ambição de posicionar a semana de moda carioca como um hub estratégico da moda brasileira, com um olhar especial para marcas com potencial exportador.
Sabemos que o Rio de Janeiro é um grande catalisador cultural, e seu soft power é hoje algo incontestável para a maioria dos observadores. Mas o que, de fato, pode fazer com que a semana de moda carioca tenha algo além de uma boa curadoria de marcas ou se apoie no molho cultural e paisagístico que a cidade oferece? Como podemos nos destacar de tantas outras cidades que hoje lideram do ponto de vista desses mesmos atributos de curadoria e atrativos urbanos? A discussão sobre o futuro das semanas de moda passa, necessariamente, pela sustentabilidade. Não como tendência ou discurso acessório, mas como eixo estruturante. Exemplos internacionais mostram que esse movimento já está em curso.
O primeiro deles é a Copenhagen Fashion Week, um evento para onde se deslocam influenciadores, imprensa e observadores para acompanhar marcas autorais emergentes que cumprem os 18 requisitos públicos de sustentabilidade exigidos para participação, abrangendo design, produção e materiais. Além de assinar a Carta Ética da Moda Dinamarquesa, as marcas devem utilizar 50% ou mais de materiais certificados, não destruir estoques, oferecer serviços de reparo e garantir condições justas de trabalho.
A Semana de Moda de Milão, organizada pela Câmara Nacional da Moda Italiana, incentiva a responsabilidade social por meio do Prêmio de Sustentabilidade na Moda, criado para exaltar personalidades e organizações comprometidas com a economia circular, o artesanato, a diversidade, os direitos humanos e a justiça social. Para integrar o calendário oficial, as marcas precisam atender a 19 critérios de sustentabilidade, como o uso de materiais reciclados ou certificados, a proibição de plástico de uso único e a adesão às políticas de bem-estar animal.
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Veja o que já enviamosApesar desses esforços, questões relativas à falta de diversidade nas passarelas do evento levaram a estilista Stella Jean a abandonar a Semana de Moda de Milão. Como única representante da comunidade de designers negros na Câmara Nacional da Moda Italiana, por sua origem italiana-haitiana, Stella se solidarizou com a perda de apoio ao BIPOC, coletivo de estilistas negros que atuava para ampliar a diversidade do “made in Italy”, e deixou a semana de moda italiana em 2023.
Realizado anualmente em São Paulo desde 2018, o Brasil Eco Fashion Week tem sua curadoria baseada na maturidade dos negócios, na estética e em critérios de diversidade e sustentabilidade. O evento revelou importantes marcas nacionais como Nalimo, Sioduhi Studio, Natural Cotton Color e o movimento Nordestesse.
Mas é no continente africano que surge o caso mais intrigante: a Lagos Fashion Week, fundada por Omoyeme Akerele, que não define apenas quem pode desfilar, mas também o tipo de indústria que o evento quer construir: promover a circularidade e reduzir o descarte de resíduos têxteis. Em setembro de 2025, ela foi selecionada como uma das cinco iniciativas mais relevantes para a transformação global na categoria “Construa um mundo sem lixo”, e seu negócio recebeu um investimento direto de 1 milhão de libras (cerca de R$ 7 milhões) do Earthshot Prize Awards, cuja edição aconteceu no Museu do Amanhã, poucos dias antes da COP30.
A curadoria de Akerele fortalece cadeias produtivas locais que dialogam com o mercado africano, e não apenas com o internacional, e o line-up final das marcas atende a um mix de sustentabilidade, inovação e impacto social. A iniciativa Fashion Focus África foi criada dentro do evento para descobrir novos talentos, que têm acesso a ferramentas para crescer, com troca de conhecimento com profissionais renomados, networking e acesso ao mercado.
Enquanto isso, grandes eventos tradicionais ainda enfrentam desafios estruturais significativos. A Semana de Moda de Nova York, por exemplo, permanece como uma das maiores emissoras de gases de efeito estufa entre seus pares (37% do total), impulsionada principalmente por deslocamentos internacionais e pela complexidade logística. Esse dado expõe uma urgência: é preciso repensar formatos, reduzir impactos e assumir responsabilidades: contratar equipes locais, coletar resíduos de forma responsável, otimizar os deslocamentos de participantes e convidados e, principalmente, compensar suas emissões por meio da contratação de uma empresa especializada.
Se queremos projetar marcas para o mercado internacional, precisamos prepará-las para os novos protocolos legais em curso na União Europeia tais como Passaporte Digital do Produto (com informações sobre origem, materiais e impacto ambiental), Certificações internacionais, sem falar no recém aprovado Eco Design for Sustainable Products (EDPS) que regula a produção de peças mais duráveis, reutilizáveis e recicláveis, além da proibição da destruição de produtos de vestuário e calçados, visando reduzir resíduos e emissões de carbono.
A informação circula com mais velocidade, e consumidores estão cada vez mais atentos, exigentes e conscientes, e a tendência nos próximos anos é o aumento das demandas por normas e protocolos divulgados publicamente.
O Rio de Janeiro tem uma tradição de sediar grandes eventos que colocaram o Sul global no centro do diálogo de soluções para a sustentabilidade, como a Eco-92, o Earthshot Prize, o Rio Ethical Fashion e o inédito Rio Nature & Climate Week anunciado para junho de 2026. Seguindo essa vocação da cidade, o Rio Fashion Week tem um grande potencial de liderar na moda as soluções baseadas na natureza para enfrentar os desafios planetários. Para isso, deve mirar nas boas práticas de outras semanas que já colhem resultados frutíferos e duradouros, e alinhar seu posicionamento ao Brasil contemporâneo, com criatividade autêntica e sustentável.
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Yamê Reis
Yamê Reis é socióloga, fundadora do Rio Ethical Fashion e coordenadora de Design de Moda no IED Rio. Em sua carreira, liderou projetos com impacto no mercado brasileiro de moda em empresas como Cantão, Totem e Le Lis Blanc. Em 2017, fundou a Moda Verde, que atua nas áreas de Educação, Direção Criativa e projetos especiais para Moda Sustentável. É autora de 'O Agronegócio do Algodão: Meio Ambiente e Sustentabilidade'





































