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A arte de ser ridículo

ONG Palhaços Sem Fronteiras chega ao Brasil para espalhar resistência através do riso


Os Palhaços Sem Fronteiras estão em 15 países do mundo e chegaram ao Brasil há apenas um ano. Foto Ricardo Avelar
Os Palhaços Sem Fronteiras estão em 15 países do mundo e chegaram ao Brasil há apenas um ano. Foto Ricardo Avelar

Entre casebres de madeira, ruas cheias de barro e esquinas onde antes havia ocorrido uma chacina, eles montam o espetáculo. Não precisam de muito. Uma lona colorida para cobrir o chão, caras pintadas, narizes de palhaços e quase nada mais. Chegam devagarzinho e logo vai juntando gente. Crianças, muitas crianças. Mas também adultos surpreendidos com sua capacidade de ainda sorrir. Ou melhor, não apenas sorrir. Gargalhar. Recuperar algo que já tinha sido quase esquecido. Quando o espetáculo termina, as ruas e as casas continuam iguais no seu abandono de todo o poder público. Mas as pessoas, crianças e adultos, estão mais leves. O riso ajudou no que é o objetivo da organização não governamental Palhaços Sem Fronteiras Brasil: criar resiliência, esta capacidade de resistir na adversidade.

O palhaço é um ser ridículo. Por ser ridículo tem a liberdade de dizer coisas que ninguém diz. Nosso desejo é provocar a empatia, através do riso. Trazer alegria porque o mundo é tão ridículo como qualquer palhaço

Aline Moreno
Palhaça

Os Palhaços Sem Fronteiras Brasil completaram seu primeiro ano de vida no mês de outubro. São o braço brasileiro da organização internacional Clowns Without Borders, que existe há 24 anos e que está presente em 15 países. Detrás dos narizes vermelhos, estão dos jovens paulistas: Aline Moreno e Arthur Toyoshima. Foi iniciativa deles trazer para o país esta ONG, com a intenção de trabalhar tanto em áreas de periferia das grandes cidades, como em regiões que sofreram com alguma catástrofe, como é o caso das cidades de Minas Gerais e Espírito Santo, afetadas pelo rompimento da barragem da Samarco.

Neste primeiro ano de Brasil, os Palhaços têm muito que comemorar. Foram cinco grandes projetos realizados: o Riso Doce, com duas visitas a cidades do Espírito Santo, afetadas pela barragem da Samarco (em parceria com Cia Cromossomos, a Cia Desembargadores do Furgão e a Aliança Rio Doce). O Ocupa Riso, em vários bairros da periferia paulistana, como o Grajaú, um dos lugares mais violentos de São Paulo. O Quilombolas, em que visitaram as comunidades descendentes de escravos do Vale da Ribeira (projeto em parceria com o grupo Circo do Asfalto). O Refugiados, com apresentações para imigrantes de mais de 40 nacionalidades em São Paulo. E um grande projeto em El Salvador, em parceria com os Palhaços Sem Fronteiras dos Estados Unidos, onde ficaram 16 dias fazendo apresentações e oficinas em comunidades deste país, dominadas pelas chamadas “maras”, as gangues que controlam o crime no local. “O que nós buscamos é a regeneração afetiva através do riso” – conta Aline Moreno. “O riso tem a capacidade de fazer a pessoa se sentir parte do mundo outra vez”, acredita.

A brasileira Aline Moreno com o seu bambolê gigante numa das ruas de barro da Nicarágua. Foto Geoff Marsh
A brasileira Aline Moreno com o seu bambolê gigante numa das ruas de barro da Nicarágua. Foto Geoff Marsh

O Palhaço Sem Fronteiras Brasil não tem fins lucrativos e até agora não conta com patrocinadores. O financiamento vem da venda de produtos como camisetas e de doações individuais através da web. O escritório brasileiro tem seis pessoas trabalhando e conta com 12 palhaços fixos. Todo o trabalho é voluntário. “Adoraria apenas me dedicar aos Palhaços, mas para manter este sonho tenho vários outros trabalhos: dou aula, participo de outras companhias, senão seria impossível.” conta Aline.

Ela diz que uma das coisas mais difíceis deste trabalho é fazer as pessoas entenderem que eles não foram até ali para entregar algo. Não levam comida ou presentes. Seu objetivo é o apoio emocional através do circo para quem está vivendo em situação de crise. “Nós trabalhamos com o imaterial, com o encontro, com recuperar um espaço público que antes era lugar de medo. Nosso trabalho não é caridade, é solidariedade. Eu sou palhaça e é isso que sei fazer. Se fosse médica ou tivesse qualquer outra profissão, faria outras coisas”, afirma.

O Palhaços Sem Fronteiras Brasil também trabalha para ter uma identidade própria, brasileira. Aline cita, por exemplo, que outros grupos de palhaços quando visitam países estrangeiros usam termos como “missão” ou “expedição”. “Nós não gostamos destas palavras. Parece coisa de gente de primeiro mundo que veio uma vez mais para colonizar. Temos que aproveitar que somos brasileiros, somos latinos, nossa identificação com a realidade social é outra”, acredita.

Aline e Arthur estão cheios de planos para 2018. Um projeto, como apoio dos Palhaços Sem Fronteiras da Suécia, para os afetados pela construção da usina de Belo Monte, outro na difícil fronteira entre o México e os Estados Unidos para atender às crianças que viajam sozinhas – em parceria com os Palhaços dos EUA – e mais um projeto em Moçambique, em conjunto com os Palhaços Sem Fronteiras da África do Sul. Mas o mais urgente é conseguir financiamento para enviar a palhaça Gabi Winter para a ilha de San Martin, no Caribe, devastada pelo furacão Irma, outro trabalho em parceria com o PSF dos Estados Unidos e Inglaterra.

“O palhaço é um ser ridículo. Por ser ridículo tem a liberdade de dizer coisas que ninguém diz. Nosso desejo é provocar a empatia, através do riso. Trazer alegria porque o mundo é tão ridículo como qualquer palhaço” – afirma Aline. “Nosso sonho é conseguir realizar projetos mais à longo prazo, com o objetivo de sempre voltar aos lugares que já fomos. E enquanto tivermos energia, é o que vamos fazer”.

Os Palhaços Sem Fronteiras Brasil trabalham nas periferias das cidades ou em áreas atingidas por catástrofes. Foto Ricardo Avelar
Os Palhaços Sem Fronteiras Brasil trabalham nas periferias das cidades ou em áreas atingidas por catástrofes. Foto Ricardo Avelar

Escrito por Rosane Marinho

É jornalista, carioca, e há dez anos vive em Zaragoza, na Espanha. No Rio, trabalhou como fotógrafa na sucursal da Folha de São Paulo, em seguida no Jornal do Brasil e foi correspondente do O Globo em Recife. Na Espanha, é professora de fotografia digital e continua trabalhando como jornalista freelancer. Casada, é mãe de dois pequenos hispano-brasileiros.

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