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Revolução silenciosa sob ameaça

Apesar dos resultados positivos, tratamento da Hepatite C corre o risco de ser interrompido


Odyr Silveira foi um dos milhares de pacientes beneficiados pelo tratamento que agora corre o risco de ser interrompido
Odyr Silveira foi um dos milhares de pacientes beneficiados pelo tratamento que agora corre o risco de ser interrompido

(Fotos de Valda Nogueira e Zhou Zhuangchen. Video de Samuel Costa) – A revolução no tratamento da Hepatite C – com a distribuição de novos medicamentos desde o fim do ano passado – pode estar com os dias contatos. Os cortes de recursos anunciados pelo novo ministro da Saúde, o engenheiro Ricardo Barros, ameaçam o recém-lançado programa. Até novembro de 2015, a terapia disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) só era bem-sucedida em 45% dos pacientes e provocava fortíssimos efeitos colaterais. O novo tratamento se revelou eficiente em 93% dos casos e não há efeito colateral. Praticamente do dia para a noite, uma doença que na maioria dos casos se tornava crônica e causava grande sofrimento aos pacientes passou a ter cura.

Já está faltando remédio. E tem muita gente precisando muito.

Estevão Portella
Médico infectologista do Instituto Evandro Chagas, da Fiocruz

“Os remédios não me afetaram em nada, não tive nenhum mal-estar, dor de cabeça, nada, nada”, contou o aposentado Odyr Silveira, de 79 anos, que desde 1996 tentava se tratar sem sucesso e padecia muito por conta dos efeitos colaterais. “É uma tranquilidade, não senti absolutamente nada, quem passou pelo interferon tira isso de letra”, acrescentou ele, se referindo ao tratamento antigo.

Como Silveira, 15 mil pessoas já foram beneficiadas e, até o fim do ano, a previsão era de que outras 15 mil recebessem o tratamento. Para 2017, a ideia era distribuir mais 45 mil terapias – o que, de acordo com as autoridades, zeraria o número de pessoas diagnosticadas no país. Dali para frente seria possível tratar apenas os novos casos que surgissem. A infecção pelo vírus da Hepatite C causa graves danos ao fígado, podendo levar à cirrose e ao câncer. O vírus é o maior responsável pelos transplantes de fígado.

Na semana passada, no entanto, o diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, Fábio Mesquita, pediu exoneração do posto por incompatibilidades com o novo governo e afirmou não saber se o programa será mantido. Segundo ele, o novo lote de tratamentos está em negociação e não foi comprado ainda. O ministério informou que não foi definido ainda onde serão feitos os cortes de orçamento anunciados por Ricardo Barros.

O novo lote de tratamentos está em negociação e não foi comprado ainda. O ministério não decidiu onde serão feitos os cortes de orçamento
O novo lote de tratamentos está em negociação e não foi comprado ainda. O ministério não decidiu onde serão feitos os cortes de orçamento

“Já está faltando remédio”, alertou o médico Estevão Portella, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, um dos centros de tratamento da doença. “E tem muita gente precisando muito”.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Hepatite C atinge 200 milhões de pessoas em todo o mundo. A doença é conhecida como a “epidemia silenciosa” porque, em geral leva muito tempo para apresentar os primeiros sintomas e ser diagnosticada. O teste diagnóstico foi criado em 1993 e começou a ser oferecido no Brasil no mesmo ano. Mas o SUS só passou a disponibilizá-lo em 2011.

Pela precária situação dos infectados no país, o Programa de Narrativas e Práticas Documentais da Universidade de Tufts, nos EUA, junto com a Open Society Foundations, reuniu seis alunos americanos e seis brasileiros no Rio de Janeiro em 2014 para criar narrativas multimídias, a partir das histórias de pacientes, sobre a doença e a dificuldade de acesso aos tratamentos então disponíveis.

“A nossa missão é desenvolver formas inovadoras de educar os alunos sobre temas globais complexos”, explicou a diretora associada do Instituto de Lideranças Globais da Tufts, Heather Barry, responsável pelo projeto. “O objetivo do projeto era dar um rosto humano à epidemia silenciosa”.

“Uma das razões de apoiarmos esse projeto é porque acreditamos em ampliar as vozes de pessoas marginalizadas para que falem sobre si mesmas e sobre os problemas que as afetam”, explicou Brett Davidson, diretor de mídia e narrativas do Programa de Saúde Pública da Open Society. “No ano passado, financiamos um projeto similar, dessa vez no Quênia, com foco em cuidados paliativos e acesso a medicamentos controlados para o alívio da dor”.

A partir de hoje e pelos próximos dias, o #Colabora publicará uma série reportagens sobre o tema. Mostrando os dramas e as esperanças dos milhares de pacientes que lutam para superar essa epidemia silenciosa. Heróis como Odyr, Iara, Nice e José, que você conhecerá melhor ao longo da semana. Dois anos depois, a despeito dos avanços no tratamento, o material produzido pelos estudantes, que fará parte da série, continua mais atual do que nunca, sobretudo diante da ameaça de cortes na saúde.


Escrito por Roberta Jansen

Trabalhou como repórter especializada em ciência, saúde e meio ambiente nos jornais Estado de S. Paulo e O Globo. No último ano integrou a coordenação de internacional da GloboNews. É feminista desde os 11 anos de idade

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