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As lições norueguesas na hora de ter filhos

Licença remunerada de um ano e divisão mais justa de tarefas são temas que ainda soam estranhos para muitos brasileiros


O pai com os dois filhos nas montanhas de Romsdal, na Noruega. Foto Tiina & Geir / Cultura Creative
O pai com os dois filhos nas montanhas de Romsdal, na Noruega. Foto Tiina & Geir / Cultura Creative

Retornei ao meu trabalho remunerado no fim de maio. Depois de nove meses de licença-maternidade, meu marido está com nossa filha pelos três meses que lhe cabem de licença- paternidade. “Como assim ele vai ficar todo esse tempo em casa SEM FAZER NADA?”  Ouvi esta pergunta algumas ocasiões enquanto explicava no Brasil, ou para pessoas no Brasil, como funciona a licença parental aqui na Noruega.

São dois problemas graves com este tipo de indagação. O primeiro é que expõe a divisão de papéis em que cuidar do bebê é tarefa (quase) exclusiva da mãe. O segundo é associar a tempo livre e descanso ter que cuidar das crianças em tempo integral. Uma forma (nem tão) sutil de desmerecer os sacrifícios normalmente vividos pelas mulheres. Não raro, o complemento à pergunta era “Isso que são férias”.

Na Noruega, mãe e pai são 100% remunerados por praticamente um ano (49 semanas) de licença, ou 80% por 59 semanas.  Eles decidem a opção que melhor se encaixa na rotina da família. Para o caso de um ano, o pai deve ficar com o filho por no mínimo três meses.

Felizmente, na maioria das vezes, a reação era de contentamento e de como deve ser bom usufruir desse sistema. Sim, é muito bom e em diversos aspectos. Pude ficar um período mais extenso com a minha bebê numa fase em que a dependência dela era extrema. Além disso, pude amamenta-la sob livre demanda por mais meses, livre da preocupação em conciliar a produção de leite com os horários do trabalho remunerado. Sem contar a delícia de acompanhar de perto todas as suas pequenas conquistas no desenvolvimento. Foram meses importantes e de muito, muito trabalho. Mães e pais sabem do que estou falando.

Mas vamos ao modelo norueguês e ao tempo destinado para que os homens fiquem com seus filhos enquanto as mães já retornaram ao emprego. Na Noruega, mãe e pai são 100% remunerados por praticamente um ano (49 semanas) de licença, ou 80% por 59 semanas.  Eles decidem a opção que melhor se encaixa na rotina da família. Para o caso de um ano, como foi a nossa escolha, o pai deve ficar com o filho por no mínimo três meses. O mesmo vale para a mãe, que cumpre o período obrigatório logo após o nascimento do bebê. O restante do tempo pode ser dividido entre os dois livremente. O pai, na verdade, tem até três anos para começar a cumprir sua quota.

Nem todos os residentes têm direito ao benefício. É preciso estar empregado por pelo menos seis meses no período de dez meses que antecedem o nascimento ou a adoção. Além disso, se a mãe não estiver empregada, o pai não pode sair de licença. Por esse último aspecto, muita gente aqui classifica a licença-paternidade como um direito apenas da mulher, pois favorece que elas voltem ao emprego com a tranquilidade necessária para retomar a carreira.  Costumo concordar que é um direito da mulher sim, mas definitivamente não é só.

Todo mundo sai ganhando. Voltar à ativa profissionalmente com a certeza de que a filha está segura, acolhida, bem cuidada e amada tira qualquer culpa associada à ausência durante o dia. No lugar da culpa vem o prazer das multitarefas e de se distanciar um pouco das obrigações domésticas. Do ponto de vista da criança também é vantajoso. Ela continua no ambiente a que está acostumada com uma pessoa que é, ou deveria ser, igualmente responsável por ela. O desenvolvimento cognitivo também é estimulado pela convivência com o pai. São brincadeiras diferentes, oralidade diferente, entre outros traços individuais que fazem com que o bebê aprenda ainda mais pela diversidade sem perder o contato em tempo integral com o genitor.

A dinâmica da licença-paternidade fortalece a relação entre pai e filho. A naturalidade com que os homens cuidam de seus filhos aqui no país escandinavo mostra que eles são tão capazes de cuidar dos pequenos quanto nós mães.  Eu vejo isso no meu dia-a-dia. Na minha casa, notei que os detalhes na rotina do bebê passaram a integrar o roteiro do meu marido logo que ele se viu sozinho diariamente com nossa filha.  Pequenas tarefas que eu acreditava que só eu me importava porque inicialmente só eu fazia. Aprendi que aquela história de que o ‘jeito do pai’ é diferente do ’jeito da mãe’ é real, mas o jeito do pai não tem que ser desleixado e desatencioso. Quando a mãe está sempre por perto e carrega o rótulo de MAIS responsável pela criação dos filhos, os homens costumam se aproveitar e sobrecarregá-las, gerando frustração e brigas. A licença-paternidade contribui e muito para mitigar esse efeito negativo do ‘jeito do pai’.

No centro de Estocolmo , na Suécia, pai passeia com o filho no carrinho. Foto FroggyFrogg.
No centro de Estocolmo , na Suécia, pai passeia com o filho no carrinho. Foto FroggyFrogg.

A vantagem crucial para o pai, no entanto, é a oportunidade de estar mais presente no início da vida dos filhos. São memórias para sempre, meses que guardam muita história para contar no futuro e um vínculo afetivo mais estreito. Além disso, é a chance de se deixar ser mais humano e participar ativamente da vida em família, eximido que está da construção patriarcal do seu papel. Eles também passam a compreender melhor porque nós mulheres estamos sempre exaustas. Para mim, essa compreensão melhora muito o relacionamento do casal e isso é importante no momento delicado que é a chegada de um bebê.

E a rede de contatos? Costuma ser frequente entre as mães em boa parte do mundo. Aqui na Noruega ela existe entre os pais também. É bastante comum colegas de trabalho compartilharem dicas de como tornar o período de licença-paternidade o mais proveitoso possível. Nas ruas, muitos pais passeiam juntos empurrando seus filhos no carrinho.

Instituída na Noruega em 1993, a licença-paternidade não é exercida por apenas cerca de 13% dos homens. O resultado agregado é de uma sociedade com menos discriminação de gênero, crianças com pai e mãe cuidadores, meninas e meninos com bons exemplos a se espelharem, um mercado de trabalho mais justo e diverso, pessoas mais felizes.  Meu marido, que também é brasileiro, está desfrutando deste direito que os homens no Brasil infelizmente estão longe de alcançar (ou muitos não querem alcançar; o lado triste da história).

A partir de um ano de idade nossa filha vai para a creche. Eu tenho certeza de que ficarei menos tranquila do que estou agora. Já ouvi de mães norueguesas que o tempo da licença-paternidade é o melhor período da vida. Difícil discordar. Você trabalha fora, de preferência no que gosta, e volta para o seu bebê que está em casa junto com seu companheiro. Ele normalmente está cansado, descabelado e com fome, como nós mães costumamos ficar. Tem dias que mal conseguiu tirar o pijama ou almoçar. Tenho a certeza de que homens que passam por essa experiência não associam o tempo com os filhos a vida mansa e muito menos atribuem os cuidados diários a tarefas femininas.


Escrito por Renata Almeida

Renata Almeida

Faz doutorado em Finanças pela BI Norwegian Business School. É jornalista e economista. Tem interesse em Finanças Comportamentais, Microeconomia teórica e aplicada, sustentabilidade e estudos de gênero. Já trabalhou em redação, assessoria de imprensa e controladoria financeira de multinacional. Do Rio de Janeiro, mudou-se para a Noruega em 2011. É mãe e adora viajar.

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