Cinco décadas de meio ambiente em uma história de insustentabilidade

Comemorações dos 50 anos da Conferência de Estocolmo lembram os avanços tímidos da humanidade numa batalha que insiste em parecer perdida

Por Agostinho Vieira | ODS 17 • Publicada em 1 de junho de 2022 - 09:19 • Atualizada em 14 de junho de 2022 - 08:23

Ao norte da cidade de Sinop, no estado de Mato Grosso, um incêndio destrói um reserva florestal da Amazônia. Nos quatro primeiros meses deste ano foram registrados mais de mil quilômetros quadrados de alertas de desmatamento na Amazônia. Foto Carl de Souza/AFP. (Janeiro/2020)

Ao norte da cidade de Sinop, no estado de Mato Grosso, um incêndio destrói um reserva florestal da Amazônia. Nos quatro primeiros meses deste ano foram registrados mais de mil quilômetros quadrados de alertas de desmatamento na Amazônia. Foto Carl de Souza/AFP. (Janeiro/2020)

Comemorações dos 50 anos da Conferência de Estocolmo lembram os avanços tímidos da humanidade numa batalha que insiste em parecer perdida

Por Agostinho Vieira | ODS 17 • Publicada em 1 de junho de 2022 - 09:19 • Atualizada em 14 de junho de 2022 - 08:23

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Enquanto Pelé, Tostão, Rivelino e companhia levantavam, em 1970, a taça do tricampeonato mundial de futebol, a marchinha de Miguel Gustavo, sucesso em todas as rádios, não deixava ninguém esquecer: éramos 90 milhões em ação. Quatro ano depois, na Copa de 1974, o desempenho dos brasileiros não foi brilhante, mas as estatísticas das Nações Unidas mostravam que o planeta tinha alcançado a fantástica marca de quatro bilhões de habitantes. Hoje, somos cerca de 213 milhões de brasileiros, a população mundial se aproxima dos 8 bilhões e, tudo indica, chegaremos à impensável cifra de 10 bilhões de seres humanos antes do final do século.

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E foi exatamente o crescimento global da população, aliado à exploração desordenada dos recursos naturais que mobilizaram os representantes de 113 países e de 400 instituições governamentais e não governamentais a se reunirem em Estocolmo, na Suécia, entre os dias 5 e 16 de junho de 1972. Promovido pela ONU, este foi o primeiro grande evento ambiental do planeta, um marco que está completando 50 anos. Desde então, o 5 de junho, primeiro dia do evento, passou a ser celebrado como Dia Internacional do Meio Ambiente. Mas a primeira celebração só aconteceu mesmo dois anos depois, em 1974.

A ideia de que o homem vai salvar o planeta é uma inversão: o homem salva a si mesmo, porque o planeta, com certeza, vai continuar. Se alguém vai acabar, seremos nós

John Gray
Filósofo britânico

Enquanto os chefes de estado se reuniam em Estocolmo, mais ou menos na mesma época, em Roma, um grupo de pesquisadores lançava um documento que também viraria um marco na história da luta ambiental. “Os Limites do Crescimento” foi o nome dado ao relatório que desenhava uma imagem sombria sobre o futuro da humanidade. Ele previa que o crescimento econômico e o populacional esgotariam os recursos do planeta e causariam um colapso econômico antes de 2070. Tudo isso às vésperas da crise do petróleo de 1973. Em 2018, um grupo de pesquisadores independentes fez uma revisão do trabalho e concluiu que ele continuava atual.  Desta vez, afirmava que, se nada de diferente fosse feito, o mundo não conseguiria cumprir os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável estabelecidos pela ONU: “Há um alto risco de empurrar os sistemas de suporte de vida da Terra para além de pontos de não retorno até 2050”, registrou o relatório.

O primeiro-ministro sueco, Olof Palme, recebe Indira Gandhi, em 5 de junho de 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (UNCHS) em Estocolmo. (Foto Scanpix via AFP)
O primeiro-ministro sueco, Olof Palme, recebe Indira Gandhi, em 5 de junho de 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (UNCHS) em Estocolmo. (Foto Scanpix via AFP)

Enquanto na Europa se discutia os limites do crescimento, no Brasil, o então poderoso ministro Delfim Netto, informado de que algumas indústrias de aço deixariam a Europa por causa da poluição que causavam, cunhou a seguinte frase: “venham para o Brasil porque temos espaço bastante para poluição e é mais importante fazer aço; da poluição cuidamos depois” (ARNT, 2010). Alguns anos mais tarde, o mesmo Delfim Netto admitiria: “Nunca tive a ilusão de que esta astronave independente, rodando em torno do Sol, tivesse recursos infinitos. Também nunca imaginei que fôssemos viver um período em que a evidência da finitude dos recursos fosse visível”. Delfim Netto pode ter mudado de opinião, mas o Brasil e o mundo seguiram na mesma batida.

Em março deste ano, ao ser indagado sobre os sucessivos recordes de desmatamento da Amazônia, o ministro Paulo Guedes, da Economia, disse considerar que o Brasil é apenas um “pequeno transgressor” e que deveria receber uma remuneração dos países ricos para garantir a proteção dos recursos naturais: “O Brasil não é o cara que polui o mundo. É um pequeno transgressor, um pequeno poluidor. De vez em quanto tem uma floresta que queima aqui e ali”, explicou. Dados do Inpe mostram que entre janeiro e abril deste ano foram registrados mais de mil quilômetros quadrados de alertas de desmatamento na Amazônia, um índice nunca visto, desde o início da série histórica.

No mundo, apesar do crescimento das fontes renováveis de energia, seguimos dependentes dos combustíveis fósseis, principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa e pela crise climática. Antes da Revolução Industrial, a concentração de CO2 na atmosfera estava em 280 partes por milhão (ppm). Na época da Conferência de Estocolmo, em 1972, ela já estava em 327 ppm. Em 2015, quando foi aprovado o Acordo de Paris, que limitava o aquecimento global a 2º C, mas sugeria que o ideal seria ficar abaixo de 1,5º C, a concentração de CO2 chegou a 404 ppm. Ou seja, a gente nada, nada e continua morrendo na praia.

Ao final da Conferência de Estocolmo foi aprovada a Declaração sobre o Ambiente humano, que continha 26 princípios para a conservação e a melhoria do meio ambiente. O primeiro deles já mostrava a preocupação com as gerações futuras: “O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequada em um meio cuja qualidade lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem-estar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar esse meio ambiente para as gerações presente e futura.”

Mas foi também em Estocolmo que ficaram claras as primeiras divergências entre países ricos e pobres: Os Estados Unidos e alguns representantes da Europa já defendiam uma redução na velocidade do crescimento das nações em desenvolvimento, em especial da China, da Índia e do Brasil, que vivia o seu milagre econômico. A tese, que até hoje circula em alguns fóruns mundiais, foi fortemente rechaçada. O argumento de que era preciso crescer para reduzir a miséria nessas regiões se mostrou difícil de refutar.

As grandes questões que surgiram na Suécia, em 1972, permanecem sem uma resposta convincente até hoje. O enorme desenvolvimento da humanidade, alcançado nesta “Era dos Combustíveis Fósseis”, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, pode ser também o responsável pelos seus piores pesadelos. Como já disse o escritor e filósofo britânico John Gray: “A ideia de que o homem vai salvar o planeta é uma inversão: o homem salva a si mesmo, porque o planeta, com certeza, vai continuar. Se alguém vai acabar, seremos nós”.

Nunca tivemos tanto conforto e nunca vivemos tanto. A energia farta e barata permitiu descobertas tecnológicas jamais imaginadas nem mesmo pelos melhores livros de ficção científica. As chances de que os jovens de hoje sobrevivam até os 80 ou 90 anos são reais, concretas. Ao mesmo tempo, continuamos tendo mais de três bilhões de pessoas vivendo com menos de US$ 2 por dia, cerca de dois bilhões sem acesso à eletricidade e um bilhão sem o direito básico de consumir água potável.

A pergunta que continua sem resposta é: Como garantir condições dignas de vida para nove ou dez bilhões de seres humanos sem exaurir os recursos naturais? Os países desenvolvidos não renunciam ao padrão de conforto que conquistaram. As nações em desenvolvimento, com razão, argumentam que essa qualidade de vida foi conquistada graças à destruição de florestas e à emissão de bilhões de toneladas de gases de efeito estufa. Já passou da hora de os pobres entrarem na festa. Só que agora não há bolo nem chapeuzinho para todo mundo.

Como já advertiram os biólogos americanos Paul e Anne Ehrlich: “O sistema ambiental da Terra entraria em colapso se tentássemos proporcionar um estilo de vida europeu a todos os seres humanos atualmente vivos. Achar que tal aumento dos padrões de vida é possível para uma população mundial duas vezes maior que a atual, no início do próximo século, é um total absurdo” (Lovelock, 2006).

Usina movida a carvão em Jänschwalde, na Alemanha. O país promete fechar todas essas usinas até 2028. Foto Patrick Pleul/DPA via AFP
Usina movida a carvão em Jänschwalde, na Alemanha. O país promete fechar todas essas usinas até 2028. Foto Patrick Pleul/DPA via AFP (Fevereiro/2022)

A ideia de que o desenvolvimento pode ser sustentável quando responde às necessidades do presente, sem colocar em risco a capacidade das gerações futuras de fazerem o mesmo, se mostrou, no mínimo, polêmica. Colocou em lados apostos ambientalistas, economistas e políticos de vários matizes. Há os que defendem que nenhum desenvolvimento é sustentável e pregam o crescimento zero para o mundo. Há os que acham que é preciso ocorrer uma grande mudança de hábitos de consumo e uma substituição completa das fontes de energia. Mas há também aqueles que acreditam que nada deve ser feito e que o progresso tecnológico resolverá o problema. Até agora não resolveu.

Enquanto isso, governos do mundo todo continuam se reunindo em fóruns ambientais sem conseguir chegar a acordos relevantes e que possam, realmente, ser cumpridos. De um modo geral, a estratégia ambiental de cada país, as decisões que têm sido tomadas e a maneira como as duas coisas são comunicadas seguem basicamente dois vetores: os interesses econômicos e os político-eleitorais. Não necessariamente nessa ordem.

Neste mês de junho, além dos 50 anos da Conferência de Estocolmo, estamos comemorando dos 30 anos da Rio-92 e os 60 anos do lançamento do clássico “Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson. O livro causou tanta repercussão na década de 1960 que é até hoje considerado um dos marcos fundadores do movimento ambientalista no mundo. Apesar de cientista, Carson teve o seu nome incluído na lista das 100 melhores reportagens do século XX. “Primavera Silenciosa”, que denunciava o efeito dos pesticidas no meio ambiente, foi originalmente publicada em partes na revista americana The New Yorker.

A partir de hoje, o #Colabora começa a publicar uma série de reportagens e artigos em homenagem a essas datas. Vamos analisar estas Cinco décadas de Meio Ambiente do ponto de vista das cidades, da população marginalizada, das empresas, dos jovens, do desafio climático e muito mais. Esperamos que vocês gostem.

Referências:

ARNT, R – O que os economistas pensam sobre sustentabilidade. São Paulo: Editora 34, 2010

DIAMOND, J – Colapso. Rio de Janeiro: Record, 2005

GRAY , J. N – Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals. Londres: Granta Books, 2003

LOVELOCK, J – A vingança de Gaia – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2006

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

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