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Por um lugar no vagão feminino

Mulheres trans lutam para ter espaço nos transportes públicos do Rio


O debate sobre os direitos das minorias nos transportes públicos é muito complexo do que parece. Foto de Dibyangshu Sarkar/AFP
O debate sobre os direitos das minorias nos transportes públicos é muito mais complexo do que parece. Foto de Dibyangshu Sarkar/AFP

A lei do vagão feminino, instituída no Rio de Janeiro em 2009, surgiu como uma forma de resguardar a segurança de uma minoria (no caso, as mulheres) nos trens e no metrô. Outros segmentos da sociedade, que também sofrem com o assédio e as agressões por parte dos homens, ainda buscam legitimidade para serem contemplados pelo mesmo direito. É o caso das mulheres transexuais.

Nunca vi as mulheres cis reclamando, são os seguranças mesmo. Tanto o assédio, quanto a agressão física ocorrem em qualquer lugar, não só no metrô ou no trem. Eu mesma já sofri um ataque transfóbico dentro de um ônibus, na Zona Oeste: fui jogada para fora

Indianara Siqueira
Suplente de vereadora e ativista

– Nós utilizamos o vagão feminino sim, até porque não há como controlar, não tem uma divisória física ou catraca. Quem faz a vigilância das áreas demarcadas são os seguranças e, aí, depende do que eles interpretam: se você não está sendo vista como uma mulher, será expulsa por eles. Isso aconteceu com amigas minhas – afirma Indianara Siqueira, suplente de vereadora pelo Partido Socialismo e Liberdade e ativista em defesa da visibilidade e cidadania trans.

Segundo ela,  o grande empecilho na utilização das áreas exclusivas pelas mulheres transexuais é o preconceito por parte dos seguranças, não das outras passageiras.

– Nunca vi as mulheres cis (aquelas que se identificam com o gênero designado no seu nascimento), reclamando, são os seguranças mesmo. Tanto o assédio, quanto a agressão física contra transexuais, ocorrem em qualquer lugar, não só no metrô ou no trem. Eu mesma já sofri um ataque transfóbico dentro de um ônibus, na Zona Oeste: fui jogada para fora.

Indianara Siqueira, suplente de vereadora pelo Partido Socialismo e Liberdade e ativista em defesa da visibilidade e cidadania trans. Foto de divulgação
Indianara Siqueira, suplente de vereadora pelo Partido Socialismo e Liberdade e ativista em defesa das transexuais. Foto de divulgação

Segundo Carlos Reis, representante do Coletivo LGBT Lamparina, não existe dúvida quanto ao direito.

– As trans, assim como as cis  são mulheres. Parece uma afirmação bastante óbvia, mas ainda hoje, infelizmente, é preciso salientar esse fato. Sendo assim, acreditamos que elas devem poder frequentar o vagão feminino.

Questionada pela reportagem do #Colabora, a assessoria do Metrô Rio afirmou que as mulheres transexuais estão contempladas pela lei e que os agentes de segurança não estão autorizados a expulsar ninguém do vagão exclusivo, cabendo a eles, e ao metrô, apenas um trabalho de orientação. Já a Supervia, responsável pelos trens no Rio de Janeiro, limitou-se a afirmar que cumpre a lei.

E quanto aos homens gays? Deveriam poder utilizar o vagão feminino?

– O vagão feminino é exclusivo de mulheres. Homens gays são, antes de tudo, homens, e a sexualidade deles não interfere nisso. A militância LGBT se divide bastante nessa questão, eu acredito. Mulheres mais próximas de algumas correntes do feminismo vão ter opiniões bem diferentes – opina Natalia Medici, de 21 anos, militante de movimentos estudantis e dos coletivos LGBTs da UFRJ e da Unirio.

Carlos Reis faz coro:

– Os homens do coletivo não usam o vagão feminino, pois entendem que aquele espaço é destinado à proteção contra uma violência específica e cotidiana vivenciada apenas pelas mulheres. Os homens, LGBTs ou não, precisam reconhecer que possuem privilégios apenas pelo fato de serem do gênero masculino e respeitar os espaços conquistados pelas mulheres em sua luta contra o machismo e a opressão.

Nic Noa, estudante de psicologia, acha que o direito ao vagão exclusivo deveria ser ampliado. Foto Arquivo pessoal
Nic Noa, estudante e não-binário, acha que o direito ao vagão exclusivo deveria ser ampliado. Foto: Arquivo pessoal

Nic Noa, estudante de psicologia de 21 anos, pensa de uma forma diferente.

– Acho que o direito ao vagão exclusivo deveria ser ampliado, mas entra numa questão muito complexa. Como seriam julgadas as pessoas trans na prática, sabendo que vivemos em uma sociedade que lê apenas os estereótipos de gênero? Nem sempre a mulher trans vai ter uma aparência designada feminina. Poderia, por exemplo, ser uma pessoa trans não binária, e aí? O que qualificaria essas pessoas a serem identificadas como minoria, como pessoas LGBT? Nem sempre a pessoa trans vai ter uma expressão de gênero designada pelos modelos padrões que a sociedade lê.

Estava na fila para entrar no metrô e duas mulheres se viraram para mim e falaram: ‘Esse vagão é das mulheres’. Na hora, senti medo, fiquei nervoso e falei que era mulher. Deu uma pane no sistema

Nic Noa
Estudante, não-binário

Nic, que é um não-binário(foi designado como mulher ao nascer, por critérios biológicos, mas não se identifica com nenhum gênero),  conta que já foi convidado a se retirar do vagão feminino uma vez.

– Estava na fila para entrar no metrô e duas mulheres se viraram para mim e falaram: “Esse vagão é das mulheres”. Na hora, senti medo, fiquei nervoso e falei que era mulher. Deu uma pane no sistema. Foi a resposta que tive na hora e me senti muito mal e oprimido. Pensei: “Não tenho direito a isso, mas sei que eu tenho”. Elas ficaram sem graça, pediram desculpas. Foi muito desconfortável. Entrei e sentei no vagão. Passou uma estação e entrou um segurança do metrô. Ele parou na minha frente com uma cara de bravo e o vagão inteiro ficou olhando. De repente, ele fez um gesto com a mão para que eu saísse e falou: “Aqui é o vagão das mulheres”. E eu falei: “Eu sou mulher”.  E, tipo, eu falar isso já é muito ruim para mim, sabe? Falar que sou mulher, sendo que eu não sou… Passar por isso, ter essa sensação de não pertencimento… Penso que deveria, sim, ter sido incluído no discurso. É duro esse feminismo para mulheres, quando existem pessoas que sofrem as mesmas violências, mas não são mulheres”, desabafa.

Nic não foi expulso do vagão, mas conta que se sentiu muito mal com o episódio: – O segurança olhou para mim com uma cara de reprovação, virou e saiu. Todo mundo ficou me olhando. Na estação seguinte, saltei do vagão e fui para outro, porque eu fiquei me sentindo muito mal. O problema é muito maior do que parece, o buraco é mais embaixo, é mais do que o senso comum acha que é. São outras identidades que existem e que são marginalizadas socialmente. Elas também sofrem. E é essa solidão que a gente enfrenta, como se não existíssemos para as pessoas e para a sociedade.

A própria necessidade de se criar um vagão exclusivo para uma minoria gera reflexões entre os membros e ativistas dos coletivos LGBTs.

– Apesar de entender que é uma medida de proteção, acho paliativa. Mulheres não deveriam ser excluídas de espaços para se proteger de homens. Eles deveriam homens respeitá-las em todos os espaços. Acredito mais na educação popular do que na tentativa de entulhar todas as mulheres que utilizam o transporte público num único vagão, porque obviamente não cabem e ainda estariam sujeitas a assédio em outros espaços – afirma Natalia.

Para Indianara, a criação do vagão feminino foi “uma grande conquista”. Mas é preciso ir além.

– Espaços exclusivos não educam e não protegem todo mundo. Acho que o que se pode fazer é educar, colocar placas fixas, investir nesse tipo de educação nas escolas. Tratar a discriminação e o assédio como crimes também funciona; a palavra crime deixa claro que aquele tipo de conduta é errado – conclui.


Escrito por Gabriel Cassar

Gabriel Cassar

Gabriel Cassar é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e autor do livro "Ressaca do adeus e outras crônicas", lançado pela Editora Chiado, em 2017. Já trabalhou nas áreas de publicidade e propaganda, assessoria de imprensa e redação. Atualmente, é dono da página "Gabriel Cassar - Crônicas, Contos e Poesias" e colaborador fixo do blog "Jornalismo de Boteco".

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