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Uma filósofa e dois Brasis

Dos gatos pingados de 2015 à massa raivosa de 2017, por que o país mudou tanto?


Judith Butler , em 2015, em São Paulo, durante a entrevista coletiva no I Seminário Queer, no Sesc Vila Mariana. Foto Alexandre Gonçalves Jr./Sesc São Paulo
Judith Butler , em 2015, em São Paulo, durante a entrevista coletiva no I Seminário Queer, no Sesc Vila Mariana. Foto Alexandre Gonçalves Jr./Sesc São Paulo

Há dois anos, em setembro de 2015, a filósofa Judith Butler veio ao Brasil pela primeira vez para uma série de compromissos acadêmicos. UFBA, Unesp, e Sesc Vila Mariana, no seminário promovido pela revista Cult, foram as suas principais atividades. Nos dias de realização do encontro no Sesc da Vila Mariana, os participantes foram informados que havia “um protesto na porta”. De fato, havia. Como relata essa reportagem, “cinco manifestantes – membros do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, que se define como uma entidade ‘em defesa dos valores da civilização cristã’ – se postaram em frente ao Sesc Vila Mariana com uma bandeira do Brasil e um estandarte.”

É ainda mais relevante observar o quanto, nestes dois anos que separam as duas vindas de Butler ao Brasil, a polarização de posições extremas fez mal aos dois lados. É preciso reconhecer que os grupos de direita estão se valendo das mesmas metodologias de fazer política dos grupos progressistas, justamente como estratégia de conferir legitimidade as suas ações

O que aconteceu no Brasil nesses dois anos para que aquela meia dúzia de pessoas que considerávamos inexpressivos em 2015 tenha se tornado uma massa raivosa em 2017? Em parte, as explicações podem estar no fato de o Brasil não ser uma ilha, mas um país importante na conjuntura internacional de crescimento das forças de extrema direita. Cresceram as alianças com os grupos católicos norte-americanos, como a que sustenta o instituto do pequeno protesto de 2015, que estão desaguando na pauta moral as insatisfações com as desigualdades econômicas e sociais. Num ponto obscuro e incompreensível, muitos discursos extremistas fazem uma torção entre o que chamam de “ideologia de gênero” e “destruição da família” com a imposição do comunismo, apresentado como um sistema político e econômico que pretende manter todos os pobres na pobreza.

O problema de considerar os argumentos risíveis é menosprezar também a força destes grupos. A petição online que pede o cancelamento da palestra de Butler, diz que ela “não é bem-vinda no nosso país”,  e é escrita em termos que justificam a dificuldade de levar a sério esse tipo de manifestação política. Mas é preciso prestar atenção não apenas nos discursos de ódio que animam esse modo de atuação, mas também a quem eles pretendem representar. O protesto está organizado no site de uma fundação espanhola que promove petições “em defesa da família” ao redor do mundo, com 80% do faturamento oriundo de doações, usado para todo tipo de campanha “em favor da vida”.

Em frente ao Sesc Vila Mariana, os cinco manifestantes que, em 2015, protestaram contra a palestra sobre "ideologia de gênero" . Foto Revista Cult
Em frente ao Sesc Vila Mariana, os cinco manifestantes que, em 2015, protestaram contra a palestra sobre “ideologia de gênero” . Foto Revista Cult

A pergunta sobre o que fez crescer tanto e em tão pouco tempo o discurso de ódio no Brasil precisa estar acompanhada da pergunta de porque o campo progressista não deu a devida atenção a esse crescimento, ora ridicularizando, ora minimizando seus efeitos. Resultados eleitorais como os da eleição municipal do ano passado indicam pelo menos a necessidade de pensar, por exemplo, se há relação entre o crescimento de uma força como a IURD, no Rio de Janeiro – desde sempre defensora da pauta moral na política –, com a expansão das forças religiosas norte-americanas. Os grupos feministas, talvez por estarem mais vulneráveis a estas políticas, estão também mais atentos aos movimentos extremistas, e por isso contabilizam como parte de uma mesma agenda reacionária tanto as prisões de mulheres que chegam ao sistema público de saúde com complicações por aborto quanto a expansão do discurso contra a “ideologia de gênero”.

Mas a mim parece que é ainda mais relevante observar o quanto, nestes dois anos que separam as duas vindas de Butler ao Brasil, a polarização de posições extremas fez mal aos dois lados. É preciso reconhecer que os grupos de direita estão se valendo das mesmas metodologias de fazer política dos grupos progressistas, justamente como estratégia de conferir legitimidade as suas ações. É verdade que os conteúdos dessa política são formas distorcidas, simplificadas, e em geral sem as nuances teóricas e argumentativas do que pretende combater, o que em muitos casos contribui para a atitude de menosprezar tais iniciativas. Mas ainda assim, os métodos são os mesmos: mobilização popular, atuação nas redes sociais, manifestações de rua, tudo fundamentado na ideia de que o Brasil é um país democrático e que a democracia é um regime que a tudo suporta em nome da liberdade.

Haveria, então, pelo menos um ponto a desconstruir na estratégia de ação destes grupos: se a democracia é um regime que tudo suporta em nome da liberdade, é contraditório que se exija a proibição de uma palestra de uma filósofa e professora da Universidade de Berkeley. Até porque, o próximo passo seria a proibição, por exemplo, de uma palestra minha, que também sou professora de filosofia, estudo questões de gênero e tenho entre as minhas atividades profissionais fazer palestras em seminários, colóquios e eventos semelhantes. Mas se eu não quero que essa liberdade seja ameaçada, não posso, eu também, ameaçar essa liberdade quando se trata de enfrentar discursos opostos aos meus. Preciso encontrar mecanismos mais inteligentes de fazer política. Ou precisamos, se eu puder falar em nome de um certo campo intelectual progressista. Mas antes de falar em nome de qualquer grupo, preciso pensar o que me confere legitimidade para tal. E se aqui repito essa palavra é por achar que um os maiores problemas da política hoje é enfrentar o desafio de não se sustentar sobre o argumento da legitimidade. É este termo vago que, ao ser usado tanto para um lado quanto para o outro, permitiu que a meia dúzia de manifestantes de 2015 se tornasse essa massa disforme e raivosa de 2017.


Escrito por Carla Rodrigues

Carla Rodrigues

Professora de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ, mestre e doutora em Filosofia (PUC-Rio), e pesquisadora da teoria feminista. Coordena o laboratório “Escritas – filosofia, gênero e psicanálise” (UFRJ/CNPq). É autora, entre outros, de “Duas palavras para o feminino” (NAU Editora, 2013).

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Um Comentário

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  1. Professora, houve uma cubana que também não foi bem-vinda. Talvez seja necessário fazer uma análise mais profunda, englobando todos os grupos – não houve o recrudescimento de todas as posições?

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