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“Cabeça de Ozempic”: como em Frankenstein, a misoginia se apavora com monstros que cria

Uso indiscriminado de medicamento para diabetes com efeito emagrecedor ressuscita velhos fantasmas das mulheres

ODS 5 • Publicada em 2 de abril de 2024 - 09:13 • Atualizada em 10 de abril de 2024 - 12:32

Quando alguma mulher que, como eu, foi adolescente lá pelos nos anos 1990-2000, vem dizer que não sofreu com a pressão estética da época, eu logo duvido. É óbvio que não estou me referido àquelas que sofreram (o)pressões ainda piores, como a pobreza, diversos tipos de exclusão e a falta de acesso a direitos básicos. Mas afirmo, sem medo de errar, que é impossível sair a salvo crescendo sob um discurso onipresente de uma beleza que só existia na magreza (a qualquer custo), nos cabelos lisíssimos e, claro, na branquitude. Eu certamente não saí ilesa.

Leu essa? E se o Arthur Aguiar fosse uma mulher?

Fomos uma geração de meninas forjadas no “certo” e “errado” da Capricho, em que corpos sem cabeça de mulheres eram avaliados enquanto elas eram fotografadas anonimamente nas ruas. Vimos capas e capas de revistas com famosas magras com dizeres em letras garrafais “gordinha sim, e daí?”. E ainda mais cruel do que essa apologia descarada à magreza como sinônimo de saúde e beleza, fomos ensinadas que ser gorda é repreensível, vergonhoso, moralmente errado. Que a pessoa gorda, sobretudo a mulher gorda, além de indesejável, é desleixada, preguiçosa, incapaz de “se cuidar” e, portanto, incapaz na vida.

Cabeça de Ozempic: misoginia para além da gordofobia (Imagem: Freepik)
Cabeça de Ozempic: misoginia para além da gordofobia (Imagem: Freepik)

Por medo absoluto deste destino, muitas de nós cresceram contando calorias desesperadamente, fazendo dietas perigosas sem acompanhamento médico, tomando remédios sem prescrição e fazendo o que fosse possível para alcançar a magreza que nos tornaria belas e nos validaria como mulheres. Que nos salvaria da sina de um dia reconhecer nosso próprio corpo em uma foto com um X vermelho, tirada secretamente e trazendo o veredito: ERRADO.

O recente pipocar de celebridades magérrimas com o uso indiscriminado de Ozempic, um medicamento para diabetes que também tem efeito emagrecedor, trouxe à tona diversos fantasmas que assombram mulheres da minha geração. (Eu, pelo menos, bati na madeira). Fotos de antes e depois, demonização de alimentos, e uma versão particularmente cruel do ancestral “certo e errado” das revistas: o escrutínio na internet.

Comecei a ver tweets e matérias na imprensa usando o termo “Cabeça de Ozempic”, em referência a celebridades que ficaram, aparentemente, com a cabeça desproporcionalmente grande em relação ao conquistado corpo esquálido. Joguei a expressão no Google, “ca-be-ça-de-O-zem-pic”, e para a surpresa de ninguém, apareceram fotos somente de mulheres.

O buraco é muito mais embaixo do que a óbvia gordofobia. Estamos diante de uma misoginia chinfrim e cruel. Um tribunal que condena as mulheres caso não estejam magras o suficiente aos olhos da opinião pública, e volta a execrá-las quando fazem tudo que estiver a seu alcance para emagrecerem.

É como acontece no sombrio Frankenstein, de Mary Shelley. Do mesmo jeito que o cientista se assombra diante da criatura monstruosa que criou, a sociedade se apavora quando, adoecidas, mulheres perseguem a qualquer custo uma magreza que lhes foi exigida por essa mesma sociedade. Não é uma questão de saúde ou uma discussão sobre padrões de beleza, trata-se do controle de corpos femininos, que nunca serão bons o suficiente, e por isso mesmo jamais serão impunemente livres.

Embora eu não saiba em que lugar do Brasil surgiu a expressão, foi aqui em Minas que ouvi pela primeira vez que “remédio para doido é doido e meio”. Por mineiridade ou casca grossa ambas adquiridas, não tenho dúvidas: remédio para fantasma é fantasma e meio. Por isso, eu espero que a gente consiga se proteger e se libertar dessa opressão que descarta nossos corpos e nós mesmas como erradas, por critérios que nunca seremos capazes de atender completamente.

Não existe assombração que faça concorrência. Nada é mais apavorante que uma mulher – apesar das cicatrizes – finalmente livre.

BU!

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