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A resistência contra a escravidão em quadrinhos

Vencedor do 'Oscar' das HQs, Marcelo D’Salete conta a história do quilombo de Palmares sob uma ótica profunda e inovadora


Cena de Cumbe, que conta a história do Quilombo de Palmares: indicado ao prêmio internacional mais importante das HQs, pela edição em inglês. Reprodução
‘Cumbe’ retrata, em quadrinhos, a resistência dos escravos: indicado ao prêmio internacional mais importante das HQs, pela edição em inglês. Reprodução

A noção comum sobre a escravidão no Brasil e suas derivações ainda é muito equivocada. Por um lado, há desconexão entre a prática escravocrata e os altos níveis de desigualdade e violência que assolam o povo negro brasileiro. Por outro, percebe-se uma forte oposição de parte da sociedade em estudar a cultura africana – ao que parece, não reconhecemos sequer nossas origens. Nas aulas de história, é comum que tenhamos aprendido sobre as práticas de violência contra os negros trazidos ao Brasil. O que ainda é incomum, porém, são suas tramas de resistência, modos de organização, anseios e narrativas que se perdem na poeira do tempo.

A partir desse panorama em torno da história negra do país, o quadrinista e historiador da arte brasileiro Marcelo D’Salete pesquisou, por mais de uma década, os pormenores do período colonial. O autor já havia concebido obras focadas nos atuais processos de resistência de negras e negros nas periferias, com histórias como “Noite Luz” (2008) e “Encruzilhada” (2012).

É incrível perceber como a história de Palmares não chega com profundidade, nem vai além de ícones como Zumbi, em outros lugares além dos nichos de estudiosos, militantes e historiadores

Marcelo D'Salete
Quadrinista e historiador da arte

Sua pesquisa sobre o Brasil colônia, então, rendeu duas histórias em quadrinhos: “Cumbe” (2014) e “Angola Janga” (2017). Hoje, seu reconhecimento se amplia para além do Brasil. O autor paulistano foi indicado recentemente ao Eisner Awards 2018 – prêmio internacional mais importante das HQs – pela edição em inglês de “Cumbe”, intitulada “Run for it: Stories of slaves who fought for their freedom”. (Atualização: em 20 de julho, na San Diego Comic Com, foi anunciada a vitória da HQ nesta categoria. Veja os resultados aqui.)

“Temos uma necessidade urgente de conhecer mais sobre o nosso passado – nós, as pessoas negras, assim como as não-negras. Desvendar a história da escravidão, saber como esses homens e mulheres viveram naquele contexto. Longe das questões numéricas ou macro, longe das perspectivas sociais que foram tão usadas para pensarmos nesse período histórico. Ou seja: precisamos pensar e conhecer as experiências palpáveis, individuais, daquelas pessoas”, diz D’Salete.

"Angola Janga": resultado de mais de uma década de pesquisa sobre o Brasil Colonial. Reprodução
“Angola Janga”: resultado de mais de uma década de pesquisa sobre o Brasil Colonial. Reprodução

Cumbe é uma palavra de origem banto e abarca uma multiplicidade de sentidos: é tanto sol quanto dia, luz, fogo e uma forma peculiar de compreender a vida e o mundo. Para além, também é um sinônimo de quilombo, o refúgio dos escravos, homens e mulheres, que se levantaram contra a escravidão no país.

No prefácio da segunda edição da HQ, lançada em 2018, o escritor, angoleiro e pedagogo Allan da Rosa diz: “O manancial banto estruturou as sociedades em Palmares e em muitos outros quilombos em vários campos, roças e matas brasileiras, além dos mocambos contemporâneos, (…) a favor da continuidade de jeitos próprios de viver, contra o racismo que vigora em todos os tipos de relações, das econômicas às institucionais, das federais e municipais às de vizinhança e de teto, no banheiro, no quintal e na cama”.

Para dar conta de tratar o tema sob uma ótica inovadora, D’Salete fez uma varredura na bibliografia existente. Seu enfoque inicial foi Palmares, mas a busca logo se ampliou. Ele cita estudiosos como Nancy Faro, Edson Carneiro, Flávio Gomes e Décio Freitas como relevantes nessa etapa do processo de criação. “Continuamos em uma grande disputa em torno da história de Palmares, porque essa experiência não é alvo de grande conhecimento pela população em geral. É incrível perceber como sua história não chega com profundidade, nem vai além de ícones como Zumbi, em outros lugares além dos nichos de estudiosos, militantes e historiadores”, diz.

D'Salete: “Temos uma necessidade urgente de conhecer mais sobre o nosso passado". Foto: Acervo Pessoal
D’Salete: “Temos uma necessidade urgente de conhecer mais sobre o nosso passado”. Foto: Acervo Pessoal

Ao se debruçar sobre detalhes esquecidos do Brasil no fim do século XVII, D’Salete se deparou com histórias ambíguas e com uma sociedade muito mais complexa do que imaginamos. Entre os fatos mais surpreendentes, o autor resgata, por exemplo, o chamado Terço dos Henriques – um regimento liderado por Henrique Dias que contava com escravos e libertos, predominantemente negros, muito requisitado em investidas contra Palmares. “Eles atuaram em diferentes momentos, tanto batalhando contra palmaristas quanto como participantes de trativas por acordos de paz”.

Há também as relações internacionais que Portugal estabeleceu para o domínio do território brasileiro, com forte dependência do fluxo de africanos escravizados em áreas que hoje correspondem a Angola e Congo. “Quando algo era implementado em Angola, a metrópole portuguesa já estava pensando nos seus efeitos aqui – e o mesmo valia no sentido inverso. Não à toa, muitos soldados lutam contra os holandeses e palmaristas aqui e depois seguiram para batalhas contra reinos africanos – como no caso de Manoel Inojosa”, diz D’Salete.

Em “Angola Janga”, um detalhe que salta aos olhos é a caracterização e o uso da alcunha “paulista” dentro do contexto colonial. Com destaque ao bandeirante Domingos Jorge Velho na derrocada de Zumbi, o que se vê é que o termo era usado em alusão a um braço armado e mercenário da corte portuguesa. Eram eles uma espécie de tropa de choque/ grupo de extermínio, responsável pelas incursões mais sanguinárias no território. Mesmo entre os brancos, o termo  “paulista” era visto como pejorativo, afinal. “No século XVII o termo era sinônimo do pior tipo de gente, pessoas que não mereciam qualquer nível de confiança; eles eram vistos como ladrões, usurpadores, gente do pior nível dentro daquela sociedade”, explica o autor.

Os trabalhos têm gerado diálogo, debates, e também servem como ponto de apoio para artistas negras e negros que queriam discutir a escravidão e outros temas. Isso é muito legal porque é, de certo modo, uma influência, um estímulo para que mais pessoas se sintam compelidas a mexer nessas feridas

Marcelo D'Salete
Quadrinista

Em “Cumbe”, os leitores encontram quatro histórias separadas, de teor sombrio e onírico, sobre como homens e mulheres escravizados resistiram às crueldades do período. Há relações proibidas entre negros e brancos, fugas suicidas e também pessoas negras a serviço da barbárie escravocrata. O autor conta que embebeu de influências literárias diversas, como o texto “Anjo negro”, de Nelson Rodrigues, visto às avessas na trama “Sumidouro”, por exemplo. “Na peça original, há uma relação amorosa entre um homem negro e uma mulher branca que termina em uma grande tragédia; em ‘Sumidouro’ eu inverti a situação, colocando um romance entre o senhor escravocrata, branco, e sua escrava, acrescentando a mulher do senhor, também branca, na tragédia”, conta.

O esforço de Marcelo D’Salete tinha um objetivo: mostrar como houve decisões de vida ou morte que precisam ser lembradas e compreendidas sem nenhum simplismo. Talvez, o melhor exemplo de personagem que ilustre tal gesto seja Antônio Soares, escravo que esteve ao lado de Zumbi em sua queda. “Na história oficial, Soares acaba ganhando uma fama de um ‘Judas de Palmares’. Quis reabilitar um pouco de sua condição: achava que ele era o personagem que possuía a complexidade que eu buscava com ‘Angola Janga’: no fim, ele se torna quase um anti-herói na narrativa”.

Mergulhar na ambiguidade, compreender as negociações para homens e mulheres sobreviverem naquele contexto. D’Salete explica que sua pesquisa sobre o tema mudou sua vida, pois alargou sua perspectiva sobre as próprias origens. “Tudo isso muda meu modo de fazer quadrinhos, de pensar nas histórias e nas que virão pela frente. Os trabalhos têm gerado diálogo, debates, e também servem como ponto de apoio para artistas negras e negros que queriam discutir a escravidão e outros temas – mas que não tinham conhecimento sobre essa abordagem em quadrinhos. Isso é muito legal porque é, de certo modo, uma influência, um estímulo para que mais pessoas se sintam compelidas a mexer nessas feridas. E ainda renderão frutos que veremos em um futuro de curto e médio prazos”.


Escrito por Caio de Freitas

Caio de Freitas

Jornalista e mestre em comunicação, Caio de Freitas Paes é especialista em jornalismo em quadrinhos, escritor, editor e roteirista. Entre suas áreas de interesse, destaque para questões ligadas aos direitos humanos, cultura, sociedade da informação e vigilância

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