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Lado B do agronegócio

Radiografia do setor mostra uma história de sucesso bem menos glamorosa do que aquela exaltada na campanha 'agro é tech, agro é pop, agro é tudo'


Visão aérea do desmatamento na Amazônia, próximo de Oriximiná, no Pará. Foto Raphael Alves/AFP
Matobipa, resultado de um acrônimo criado a partir da junção das iniciais de Maranhão, Tocantis, Piauí e Bahia, é a nova fronteira agrícola do país. Na imagem, desmatamento próximo de Oriximiná, no Pará (Foto Raphael Alves/AFP)

Quando foi lançado, o slogan “Agro é tech, agro é pop, agro é tudo” viralizou. Na campanha, o agronegócio foi edulcorado. Ignorou-se outra característica importantíssima do setor: seu poder de lobby. Campeão mundial na produção de alimentos, o agronegócio manda e desmanda na política brasileira. A bancada ruralista replica no parlamento a lógica do latifúndio que impera no campo. Sua representação política está espalhada por 216 deputados listados pela Frente Parlamentar da Agropecuária – apenas 18 deles votaram contra o impeachment de Dilma Rousseff e a favor das investigações contra Michel Temer.  Na campanha televisiva também não se falou na produção de alimentos com alto teor de agrotóxicos, na concentração do mercado nas mãos de alguns players internacionais – o que joga por terra a tese de que o agro é pop -, no desmatamento de grandes proporções do Cerrado e da Amazônia, e na disseminação de transgênicos, que colocam em risco a minha, a sua, a nossa saúde.

Frente parlamentar do agronegócio. Arte de Fernando Alvarus
Arte de Fernando Alvarus

Muito além da propaganda, o setor protagoniza uma história de sucesso bem menos glamorosa do que aquela exaltada na propaganda que foi exibida no intervalo dos noticiários na TV, das novelas ou das salas de cinema. Dois meses depois de sair do ar, seu lado B está no “Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos”. É um estudo alentado sobre seus impactos na alimentação e no meio ambiente, feito a quatro mãos pelas fundações Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo. Lançado originalmente na Alemanha em 2017, o raio X do agronegócio ganha novos contornos com a inclusão de análises sobre sua atuação no Brasil – um setor econômico pujante, que ajudou a turbinar o pífio resultado do produto interno bruto (PIB) do ano passado. Já na primeira página do trabalho, os pesquisadores dão a deixa do que virá nas próximas 58 folhas.

Falta transparência em um campo em que os setores público e privado se confundem, onde política e interesses econômicos se misturam o tempo todo

Annette von Schönfeld
diretora do escritório da Heinrich Böll no Brasil

Os dados mostram que o agro não é pop e muito menos tech, e que “falta transparência em um campo em que os setores público e privado se confundem, onde política e interesses econômicos se misturam o tempo todo”, escreveu Annette von Schönfeld, diretora do escritório da Heinrich Böll no Brasil.

O estudo mostra que o Brasil lidera o consumo de agrotóxicos do mundo. Num prazo de uma década, de 2002 a 2012, o consumo destes produtos pulou de 2,7 quilos por hectare (kg/ha) para a 6,9kg/ha. Os dados são do IBGE, que listou quais as commodities lideram o consumo de agrotóxico no país. São elas: soja, milho, cana e algodão. O Atlas chama a atenção ainda para o fato de que, entre 2007 e 2013, o uso de agrotóxicos dobrou, enquanto a área cultivada cresceu apenas 20%. Não à toa, no mesmo período, dobrou os casos de intoxicação, tanto as agudas quanto as crônicas que atingem os consumidores e os trabalhadores diretamente envolvidos nessa agroindústria.

Está nas mãos da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) a decisão final sobre o uso destes produtos e a entidade, segundo a pesquisa, exerce sua função de olho nos interesses da indústria e não do consumidor. Há uma década, por exemplo, a instituição deu sinal verde para o uso comercial de um tipo específico de milho, o Roundup Ready, resistente ao glifosato. A alegação era de que ele “é tão seguro quanto seu equivalente convencional”, apesar de parecer da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, da Organização Mundial da Saúde (IARC/OMS) constando seu provável poder cancerígeno para os seres humanos. Mais uma vez, contrariando as evidências científicas, a CTNBio computou, recentemente, mais uma vitória: o fim da obrigatoriedade do selo de transgênicos nas embalagens dos produtos.

Trabalho escravo e o agronegócio. Arte de Fernando Alvarus
Arte de Fernando Alvarus

Sob o título “Condições de trabalho – De vitrine a vidrança”, o estudo afirma que o “trabalho escravo contemporâneo não é um erro ou um resquício de práticas antigas que sobreviveram temporariamente ao capitalismo”. É sim, afirma, “um instrumento usado para ajudar na competitividade de empreendimentos, fazendo parte de uma política de corte de custos baseada na redução de direitos”.

Os donos do campo

Concentração de terras no campo. Arte de Fernando Alvarus
Arte de Fernando Alvarus

Quem manda no campo, diz o estudo, são grandes grupos, que, juntos, têm 2,3 milhões de quilômetros quadrados (km²) – um território do tamanho da Arábia Saudita. É tamanho grau de concentração de terras que faz o Brasil ocupar a 5º posição no ranking de desigualdade ao acesso a terra da Oxfam. E ainda que o coronelismo siga como prática vigente em várias regiões do país,  o processo de ocupação e uso da terra no Brasil se tornou mais estruturado e vem, segundo o levantamento, se integrando às grandes corporações globais de mãos dadas com o capital transnacional. As transnacionais agrícolas, que têm interesse e atuação no mundo inteiro, começaram a surgir na década de 1980. O Brasil não ficou de fora. Apenas uma das cinco principais empresas comerciais e industriais agroalimentares é de um país em desenvolvimento: a brasileira JBS, que têm seus principais donos, os irmãos Batistas(Joesley e Wesley), presos por envolvimento em corrupção.

Concorrência no campo. Arte de Fernando Alvarus
Arte de Fernando Alvarus

O agronegócio virou, na avaliação dos analistas das fundações Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo, a menina dos olhos dos especuladores. “Os fluxos de capital nas bolsas de valores estão exacerbando as flutuações nos preços das commodities agrícolas – em benefício dos fundos e dos bancos”. É uma ciranda que alimenta um poderoso jogo financeiro. Em 2015, por exemplo, o comércio de contratos futuros de milho foi 30 vezes maior que a colheita dos Estados Unidos e 11 vezes maior que a colheita do mundo inteiro. No Brasil, a 3G, dona da AB InBev, a maior produtora de cerveja do mundo, foi engolindo a concorrência. A principal motivação das fusões e aquisições no setor sempre foi “reduzir drasticamente os custos operacionais”, o que levou 50 fabricantes na indústria de alimentos representar 50% das vendas globais.


2 Comentários

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  1. Que matéria incrível! É uma triste e odiosa realidade a que se vivencia hoje no Brasil. Obrigada por publicar algo tão importante para a sociedade. Excelente conteúdo!

  2. Parabéns pela matéria, pela iniciativa de desmascarar essas pessoas/empresas, que mostram na mídia que fazem uma coisa boa que na verdade fazem muitos males em nome do dinheiro como sempre com Apoio de governos que não ligam para sua população e natureza.

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